sábado, 4 de abril de 2009

Survivors!



Nunca fui muito fã de história. Lembro que na escola de freiras onde tive minha formação básica, o aluno ganhava 2 pontos por comportamento e os 8 pontos restantes eram do resultado da prova escrita. Nessa matéria eu tinha comportamento ZERO e na véspera da prova decorava completamente o capítulo para tirar o meu 6 ou 7.

Uma vez meus colegas contaram isso para a professora e ela disse que se eu citasse a página completa eu nem precisava fazer a prova. Foi o primeiro (e acredito que único) 10 que já tirei nessa matéria. E assim cresci. Passei anos enrolando a mim mesmo e só vim descobrir que essa “merda” valia pra alguma coisa anos depois.

Ainda hoje não consigo transformar os erros dos meus antepassados em acertos para o meu presente. Sou do tipo cabeça-dura que apanha na cara pra depois poder dizer: “ah... agora entendi”.

Os membros do Ibyanga, em sua grande maioria, são mestres no assunto. Ao menos quando querem usá-lo como apoio para as atitudes que tomam. É um tal de socialismo pra lá, democracia pra cá, anarquismo por baixo... Sempre que estamos juntos muita crítica é feita e várias delas fundamentadas em conceitos que não pertencem ao meu vocabulário. Eles me influenciaram a buscar compreender os diversos sistemas de governo existentes e a entender o que nomes como “Che Guevara”, “Rousseau” e “Hitler” querem significar.

Tenho lido cada vez mais sobre o assunto e hoje entendo um pouco melhor porque eles criticam tanto o método de governo brasileiro. O capitalismo encontra-se infiltrado em todas as relações sociais (parkour inclusive) e o conceito do “ter para ser” é evidente até em miudezas de nosso dia a dia. Você sempre se considera superior a alguém por deter algo que julga faltar a ele. Seja um conhecimento, uma habilidade ou um bem material.

A verdade é que eu tenho medo do homem. Tenho medo de não haver limites entre mim e as pessoas e mais medo ainda de que elas não tenham limites perante mim. Regras existem, basicamente, para melhorar o nosso convívio social. E eu lamento o desejo das pessoas que anseiam viver distante de um código de leis.

O ser humano é o mais maluco dos seres. Se o nosso sistema de sociedade não existisse, se hoje o governo caísse, se estivéssemos somente por nossa conta, EU ENTRARIA EM PÂNICO! Toda selvageria humana que é contida pelas regras e leis viria à tona! A propriedade privada cairia de imediato: Seríamos livres para ir aonde quiséssemos, mas reclamaríamos quando nosso espaço fosse invadido. Será que realmente haveria liberdade em um ambiente onde os limites não seriam mais respeitados?

O próximo viveria realmente próximo, e me cago de medo ao pensar no uso que daríamos a essa proximidade. Eu me relaciono super bem com as pessoas, mas preciso que elas mantenham-se em seus lugares para eu me sentir seguro! Numa terra sem lei tudo pode acontecer, principalmente se tratando de gente.

Eu, ao menos no momento, me sinto totalmente incapacitado de lutar em um mundo onde tenha que cruzar o limite de alguém para atingir os meus objetivos. Não tenho dúvidas de que acharia uma forma de “sobreviver”, mas também tenho certeza de que a consciência por cada atitude tomada me faria perceber que não é dessa forma que eu gostaria de "viver".

Eu dependo de cada um de vocês.

sexta-feira, 20 de março de 2009

“Mas aqui não tem onde treinar...”


Ao contrário do que sugere, essa postagem não é sobre métodos de treino e muito menos para te ajudar a usar a imaginação. É mais pra abrir os olhos sobre um assunto que, roda e vira, me incomoda:
A falta de conhecimento a cidade em que se vive.

Eu escuto o desabafo de muitas pessoas (amigos inclusive) de que estão cansados de sempre treinarem nos mesmos picos, fazer sempre as mesmas movimentações e deixar o parkour cair “na rotina”.

Moro em Aracaju desde que nasci e sempre fui um cara caseiro. Meu conhecimento da cidade se resumia ao trajeto que fazia pra escola, pro cursinho e o quarteirão onde morava. Meus pais me diziam “Acorde pra vida! Você não conhece nada do mundo! É um Zé bobão!”. E de fato toda vez que eu precisava ir pra algum lugar que desconhecia era um sufoco. Tinha que fazer perguntas sucessivas para as pessoas, buscava pontos de referência pra me orientar e por vezes me atrasava para os compromissos.

Parkour modifica a visão que temos da cidade, correto?
Mas do que adianta essa percepção se você nunca conheceu sua cidade?

Quando comecei, um dos primeiros pensamentos foi: “Moro no menor estado brasileiro, aqui não deve ter muito lugar pra treinar”. Procurei as praças clichês, treinei nos pontos óbvios e eis que chegou a minha vez de dizer: “cansei dos locais que tenho”.

Eu considero essa fase crucial para um tracer porque é o momento em que ele desperta pro interesse de conhecer VERDADEIRAMENTE a sua cidade. Aquele que ignora esse “chamado interior”, me desculpem a expressão, mas volta pra mesma merda. Se nega a possibilidade de evoluir tanto como praticante de parkour quanto como cidadão.

Eu era uma anta. Desconhecia completamente a realidade do que era a minha cidade. Vivia preso e protegido sobre o trajeto de vida que meus pais preparam para mim desde a infância. E acho que é nosso dever nos libertar-nos disso.

Hoje, sempre que conheço alguém que mora numa região remota eu faço questão de dizer que sou praticante de parkour e pergunto se não existem algumas praças legais no local onde ela mora. Essa atitude já me rendeu ótimos frutos (além de instruir mais uma pessoa que futuramente poderia recriminar a prática).

A foto que encabeça essa postagem é a maior arma que já encontrei: Mapas rodoviários e urbanos. Ele foi retirado da lista telefônica de Aracaju e é minha arma secreta. Além de mostrar as ruas, ele assinala... Sabe o que?

PRAÇAS!
Todas as da minha cidade além dos parques!

Não tenho como descrever o quanto minha visão ampliou e a quantidade de picos que ganhei. Será então que é justo você reclamar sem conhecimento de causa? Uma pessoa teve o trabalho de mapear sua cidade e colocar em forma de desenho tudo que você precisa pra ter locais ilimitados de treino. É irresponsabilidade sua não fazer proveito desse instrumento pro seu próprio crescimento. Ontem mesmo levei o mapa pra auto-escola e depois dela fui visitar um parque que nunca tinha ouvido falar. Treinarei nele hoje à tarde.

- Ah duddu, mas eu não tenho um mapinha...
- Http://earth.google.com/

Imprima, entre num ônibus e pense duas vezes antes de chorar no meu ombro.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Dicas para se treinar só I



É pra falar a verdade?
Eu amo meus treinos sozinhos!

Claro que você perde todo o apoio, chamego e conversa dos amigos, mas, pense pelo bom: "aquele momento é unicamente seu!". Na intenção de tirar melhor proveito desses momentos, eu percebi que instintivamente desenvolvi alguns artíficios. Vou listá-los sempre que lembrar para ajudar outras pessoas que passam pelo menos caso e para eu mesmo ter um registro. :)

1 - No caminho para o local de treino faça das quadras pares um obstáculo. Cada quadra normalmente tem 200 metros (se eu não me engano). Na ida, brinque de que nas ímpares você tem que ir caminhando rápido e respirando compassadamente, e nas pares você tem que prender o ar e correr o máximo que puder. É engraçado porque quando eu estou numa quadra ímpar (a primeira por exemplo) eu já a percorro nutrindo raiva pela quadra par (a segunda). Daí quando ela chega o primeiro passo quando subo a calçada é "sai daqui sua desgraçada!".

2 - Trave duelos com o pico. Nesse caso, eu foco em algo que está dentro do meu limite físico, ou de algo que quero apurar a técnica. Por exemplo: uma precisão de 10 pés. Como ela é díficil pra mim, eu estabeleço que vou fazer somente 10 naquele momento. Cada precisão certa é 1 ponto pra mim, cada errada é um ponto pra precisão. Da primeira vez que treinei isso, o placar foi 0 x 10 pro pico. Não contenha a raiva, chame ele de filho da puta mesmo! Sempre volte e faça a competição no mesmo local. Quando eu consegui (meses depois) fechar um 10 x 0, eu quase choro de alegria! Se você perder 5 de cara, lute por cada uma das seguintes! E se perder a sexta, faça as últimas 4 pensando em lavar a sua honra e voltar pra casa de cabeça erguida. "Ao menos acertei uma! SEU FI DO CABRUNCO! VAI VER DA PRÓXIMA VEZ".

3 - Não se limpe. Normalmente eu vou sem camisa, então sempre que rolo ou subo em árvores minhas costas ficam pretas. Percebi que as pessoas olham pra você (e te atrapalham) mais, quando você está com o cabelo certinho, cheiroso e com carinha de "minha mãe me arrumou". Se você estiver porco, suado e sujo, elas fazem menos piadinhas imbecis e se tocam que o que está fazendo é algo sério.

4 - Saia de casa sempre com o pensamento: "Não volto até ter encontrado algo novo". É incrível como essa obrigação aguça a mente. O pior (ou melhor) é que você vai esquartejando o pico metro por metro e cada dia sobra menos coisa nova pra fazer. AÍ A COISA FICA BOA! Você vai se pegar analisando cada galho de árvore em busca do seu "ínedito daquele dia". E NÃO SE ENROLE! No desespero de não ter achado nada, re-olhe o local buscando as coisas mais simples e idiotas, normalmente são elas que você deixou passar em branco (mesmo treinando lá há anos).

5 - Mentalmente, no trajeto de volta pra casa (sempre volto caminhando e relaxando), tente pensar em situações em que poderia usar o parkour de forma útil. A de hoje eu imaginei que um ladrão poderia me abordar a qualquer momento (a rua era deserta) e eu iria dizer que não tenho grana nenhuma porque estava treinando parkour. Quando ele me perguntasse o que é isso (O SER HUMANO É CURIOSO PRA CARALHO!) eu ia explicar bem gaymente que é um esporte que treina a pessoa pra salvar outras pessoas. E que se naquele momento um cachorro corresse atrás da gente, eu teria como subir um muro e ainda ter força pra puxá-lo pra se esconder comigo. Moral da história: Ele ia achar o parkour algo tão nobre que não iria me matar. Seja bobo!

6 - Imagine sempre que você é o Jerry e o Tom quer te fuder. Na sua precisão ele colocou espinhos pra te furar se você errar (ENTÃO NÃO SE DEIXE ERRAR!). No local onde você apoia suas mãos nos climbs ele colocou uma chapa quente (CLIMBA E SAI RÁPIDO PORQUE QUEIMADURA ARDE!). Imagine essas situações idiotas. Vai ver como sua perícia aumenta.

Sempre que usar algum novo ou recordar de um antigo eu posto aqui.

Um treino de parkour só é ruim quando você não quer treinar.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

"Gustavo, eu te odeio!"


Não consigo parar de repetir essa frase durante meus últimos treinos. Gustavo é um cara que durante muito tempo treinou descalço. Acho que durante mais ou menos 1 ano acompanhei os treinos com esse favelado e não tinha maturidade pra entender o porque dele se inserir em um meio que o excluia da esfera de "evolução rápida" que todo tracer sentia prazer em estar.

Explicando melhor, o Edi é capaz de fazer cat-leaps de "n" pés, eu de fazer sdcs grotescos; evoluímos de forma cavalar em pouco tempo e o gustavo... er... ficou na precisão descalça de 8 pés e nos flowzinhos curtos e compassados.

Em Dezembro ele me deu um tapa na cara:

"Gustavo, todo mundo que eu vejo a minha volta evolui a amplitude e "agressividade" na movimentação. E você está sempre na mesma. Nunca tenta um cat-leap mais distante, nunca vejo você se desafiando a fazer algo novo e mais complexo... não acha que está perdendo tempo em não forçar seu corpo um pouco mais não?"

A resposta pra tanta ignorância minha veio em uma frase curta:

"Eu tenho todo o tempo do mundo".

Essa foi somente uma das muitas vezes em que essa, até então, minha ignorância foi quebrada pela sensatez desse baiano viado. Todo mundo que treina com um pouco mais de seriedade, almeja fazer isso pra sempre. Então por que eu tinha na cabeça esse pensamento de que as pessoas sempre deveriam apresentar algo que impactasse pra demonstrar o resultado dos treinos?

Tenho consciência de que nunca treinei por vaidade e muito menos pra provar a ninguem do que sou capaz. E depois de muito matutar cheguei a conclusão de que esse meu pensamento foi mais um legado que a ginástica olímpica implantou em mim. Um dos principais focos dos meus treinos não era ganhar as competições mas evoluir a dificuldade das combinações de movimentos. Na ginástica essa escala vai de "A" até "Super E". Cheguei a fazer combinações A, B, C e D. E meu orgulho era imenso ao galgar cada degrau desse alfabeto.

Fiz o mesmo com o parkour esse tempo todo e me fudi. Evolui muito rápido, confiei no meu passado muscular e mental e negligenciei treinamentos básicos que o Gustavo gastou 1 ano fazendo.

Passamos cerca de oitos dias juntos nas ultimas semanas, inclusive três desses foram com ele aqui em aracaju treinando diariamente. Nesses tempo ele fez uma lavagem cerebral em mim, me transformou em um crítico tão grande em matéria de parkour quanto eu sou em matéria de ginástica por causa do curso de arbitragem que fiz.

Estabelecemos um flowzinho pra eu fazer. Coisa básica de iniciantes: "passa muro, passa mureta, passa mureta, corre, passa mureta". Fiz achando que estava abafando; flui dentre os movimentos, fiz o mais rápido que conseguia, mas no final a cara de reprovação que esse menino fez... da próxima vez eu peço um soco no lugar. Me apontou diversos erros tolos na minha movimentação: gasto de energia desnecessário, afobação, respiração, calcanhar, contração muscular errada, suavidade inexistente... Claro que não topificou, apenas abriu meus olhos pra enxergar isso tudo. Tentei fazer o mesmo percurso descalço e percebi melhor tudo aquilo que errava. Pisadas de rinoceronte... um verdadeiro Juggernaut.

Adquiri um senso crítico de mim mesmo que me vez enxergar mais erros do que acertos em minha movimentação. Uma frase que ele usou cai como uma luva agora: "Fazer é fácil, quero ver você fazer leve!"

Durante o resto dos treinos, mesmo com ele de costas pra mim, eu sentia o "olhar de reprovação" pra tudo aquilo que eu fazia.

Voltei ao começo. Atualmente estou treinando descalço ou com tênis de futsal e tenho sofrido pra caralho. Meus pés estão doendo muito, minha panturrilha tá inchada, o gasto físico do corpo quando se treina com consciência do que se faz é muito maior do que treinar por treinar. Estou aprendendo a duras penas que o meu progresso foi muito rápido e descontrolado. Até andar na rua se tornou motivo de "o gustavo está me olhando!".

"Você já reparou como as pessoas andam? A ciência aponta o calcanhar como base da caminhada e os tênis de hoje em dia trazem proteção cavalar pra suportar esses impactos. E as pessoas, mal acostumadas, se apoiam nesse conforto agredindo seu corpo a cada passada. Quando começei a treinar respeitando meu corpo até minha forma de caminhar mudou. Cada passada na rua tem uma flexão de joelho para que o calcanhar não se sobrecarregue".

Em um texto antigo usei a seguinte frase: "O futuro do parkour assusta se você pensar em uma realidade onde as pessoas são auto-suficientes". Fico muito feliz em ver que existem pessoas como o Gustavo que vão lutar pra que esse futuro não se torne real.

Valeu por tudo, meu irmão! E volte sempre!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Debate do 1º Encontro Paraibano de Parkour


O debate do encontro paraibano de parkour contou com a participação do diretor da Aliança Francesa da Paraíba (que até poucos meses morava na França), Fernando Cunha (Professor de Educação Física da UFPB), Vant (diretor do Grupo Ethnos), tracers das mais variadas regiões da Paraíba, assim como eu (de Aracaju) e o Edi e o Ítalo (ambos de Maceió).

A mesa-redonda teve duração de pouco mais de 2 horas e aconteceu na Associação dos Bancários, João Pessoa/PB. Os assuntos não foram pré-definidos, portanto sempre que algum tópico encontrava-se “concluído” era feita a pergunta “podemos seguir adiante?”.

Segue abaixo as impressões mais importantes que tomei nota (não necessariamente discutidas nessa ordem):

01 - Air Alert 3

O professor Fernando Cunha é especializado em trabalho de preparação com atletas de vôlei e basquete, e, portanto foi questionado sobre o famoso programa de treinamento que é repassado por dentre os praticantes. O resultado obtido na discussão foi de que o programa da NBA não faz milagre. É um sistema utilizado por atletas de alto rendimento que passaram desde a adolescência por um treinamento de elite, e, portanto, possuem as fibras musculares e tendões mais desenvolvidos para se submeter ao programa. O máximo que pode ser utilizado pelos tracers são as idéias de exercícios e a padronização de rotinas.

02 - CREF / Universidades

O professor Fernando Cunha é militante de um movimento anti-CREF e ressaltou que futuramente os praticantes de parkour que se encarregarem de ministrar aulas pagas poderão sofrer com a repressão do órgão (assim como aconteceu com os mestres de capoeira e os professores de dança). Iniciativas como os workshops do PKGEN, e o ADAPT, podem ser passíveis de caça as bruxas no Brasil. O professor assegurou que assim como os mestres de capoeira, os praticantes que futuramente ingressarem no ramo de “dar aulas” podem alegar o tempo de prática como “formação” e lutar judicialmente (se chegar a esse extremo) para continuar a lecionar.

03 - Abordagem ao iniciante

Ficou de comum acordo que não existe uma fórmula mágica para abordar o iniciante. Cada ser humano é individual e terá suas dificuldades e facilidades. Como o contato primário do iniciante é, normalmente, com um outro praticante, o melhor a ser feito é orientá-lo para que ele perca a visão de que parkour é o que ele viu no filme/televisão/vídeo e que ele aprenda a enxergar o que precisa fazer com seu corpo para conseguir se movimentar livremente (perder peso, ganhar resistência respiratória, força de abdômen...).

04 - Associação / Organização

A Paraíba está na iminência de criar a Associação Paraibana de Parkour, então a discussão sobre o tópico foi grande. Criar uma associação demanda muito gasto, quebra de cabeça, conhecimento jurídico e empenho em troca de (a principio) pouco retorno. No caso da Paraíba, eles já tiveram como receber apoio governamental e foram barrados por não possuírem um CNPJ. Então, para eles, a necessidade da associação é maior. Porém, para os grupos e estados que não tem tantos contatos em prefeituras e órgãos (Vant, que é um dos coordenadores do parkour em PB, por liderar a “cultura de rua” da cidade, conhece toda sorte de incentivos públicos) chegamos à conclusão de que é melhor nos organizarmos localmente, em iniciativas pequenas e um dia, se necessário também, evoluir para algo imenso como uma associação.

05 - Aliança Francesa

Vant conseguiu o apoio da AF de João Pessoa (cessão de camisas) e o diretor dela (presente no debate) levantou alguns pontos sobre o assunto. A AF não é somente um curso de francês no Brasil. Ela tem interesse voltado para toda manifestação francesa no país e está presente em quase todos os estados brasileiros. O diretor, inclusive, encorajou a mim e ao Edi a buscar as alianças francesas de nossos estados, pois elas normalmente apóiam com facilidade esse tipo de eventos. Existe uma comissão julgadora de onde a verba de patrocínio da aliança será utilizada, mas desde que o pedido de apoio seja feito com antecedência ao evento, a chance de sucesso é grande. Ele disse ainda que futuramente encontros de parkour podem se tornar encontro de alianças (e facilitado pela ação conjunta delas) e que até a vinda de alguma “autoridade francesa” para engrandecer o evento pode ser arranjada com maior facilidade.

06 - VO2Max

Como o professor foi avisado com antecedência sobre o debate, ele buscou informações e a ver vídeos sobre o parkour. A análise dele foi de que o parkour (como deveria ser treinado) é uma atividade altamente aeróbica (foco na resistência) com seus momentos distintos de trabalho anaeróbico (foco na explosão muscular). Então ele salientou a necessidade de nós, praticantes, aumentarmos o Vo2max constantemente. VO2max é a taxa máxima que o organismo de um indivíduo tem de captar e utilizar o oxigênio do ar que está inspirando para gerar trabalho. Quando questionamos como isso pode ser melhorado, ele respondeu que através de corridas com percursos determinados e com o aumento gradativo destes. O ritmo de corrida também influencia diretamente nessa taxa porque quanto mais seu corpo trabalha sem parar, mais oxigênio você precisa respirar para supri-lo. O resultado dessa discussão foi que hoje em dia a maioria dos treinos dos praticantes são voltados para a movimentação em si (manobras com trabalho, principalmente, anaeróbico) e a parte da corrida é, muitas vezes, negligenciada. O ideal é que um tipo de treino jamais substitua o outro.

07 - Ramificações oriundas do parkour (Puro, Estético e Competições)

Assim como todo esporte ou atividade que compõe a chamada “cultura de rua”, inúmeras variantes surgirão com a o parkour disseminado a cada dia mais. Cada cabeça funciona de uma forma e busca um objetivo diferente. O cenário paraibano não é dominado por tricksters e free-runners, então o conceito de “parkour puro” é aceito com facilidade por lá. Estendamos a conversa para o cenário mundial e nacional para definirmos o que a propagação de cada idéia reflete no cenário da prática. O resultado obtido foi que “existe espaço para todos”. O que falta é cada nova vertente saber limitar-se ao seu espaço e não tomar posse do espaço do semelhante. Assim como o futebol de areia não participa da regulamentação do futebol de campo, cada “nova disciplina” deve buscar sua firmação sem apoiar-se ou atrapalhar a disseminação da outra. Do contrário, se as novas disciplinas não aprenderem a respeitar que, o que se faz é diferente do que o parkour em si prega, os puristas irão continuar a falar e a gerar discussões em defesa do parkour puro. A definição de parkour no debate ficou clara: objetividade, fluência e livre movimentação corporal com o propósito de ser o mais rápido e prático possível. Qualquer coisa pregada de modo a ferir esse conceito deveria ser chamada por outro nome.

A discussão sobre competição praticamente não existiu pela unanimidade de opinião: não é o foco do parkour, nunca será, e se alguém criar algo do tipo, deixou de ser parkour.

08 - Parkour em Lisses

O diretor da aliança francesa visitou Lisses na época em que o parkour surgia e deu umas palavrinhas de como isso se sucedeu. Disse que as crianças não tinham opção de diversão, a cidade era muito parada e os jovens facilmente ingressavam na marginalidade. A atitude dos fundadores do parkour foi de levar para aquela comunidade algo que eles poderiam fazer sem precisarem de um espaço construído pra eles, um apoio governamental ou mesmo aprovação dos pais. Comentou ainda que o parkour nasceu de forma espontânea para dar liberdade e aliviar a atmosfera “cinza” e monótona que cercava os jovens de Lisses.

09 - Necessidade de Intercâmbio

Ficou definido como algo imprescindível para a propagação do parkour e a própria melhora individual. O próprio pessoal da Paraíba se impressionou com a “cara nova” que os visitantes deram aos seus locais de treino e com as diferenças sutis de foco durante os treinos. A troca não acontece de um lado somente e da mesma forma, os visitantes puderam aprender com a forma de treino paraibano. O resultado foi tão satisfatório que, Eu, o Edi e o Ítalo conseguimos meio que arrastar alguns praticantes do Paraibano para o Nordestino.

Conversamos também sobre o crescimento que esses intercâmbios provocaram no parkour nordestino nos últimos dois anos e que a tendência é que eles aconteçam cada vez com mais freqüência.

10 - Impactos e Equipamentos de segurança

Reafirmamos a necessidade do tracer depender cada vez menos de suportes e equipamentos para se locomover e então o professor da UFPB levantou uma discussão sobre se não era negligência dos praticantes fazer descaso do uso de aparelhagem de proteção individual. Vários praticantes manifestaram opinião que iam desde o uso de cutuveleiras aos tênis da moda com amortecimentos exagerados. O resultado atingido foi de que o parkour necessitaria de proteção individual se os riscos oferecidos ao iniciante fossem os mesmos que são apresentados aos veteranos. Como o desenvolvimento físico e mental é gradativo e o processo de descoberta do parkour por parte do iniciante deveria ser constante e consciente (e essa consciência deve ser implanta no iniciante pelos veteranos), o uso de equipamentos passa a ser desnecessário. Um iniciante não deveria precisar de proteção individual contra impactos (por exemplo) justamente por não precisar se colocar em situações em que a gravidade dos impactos aponte para uma proteção auxiliar. O fortalecimento dia após dia, e o ganho de atenção meticulosa é que deve substituir qualquer apetrecho.

11 – Alongamentos e Aquecimento

Muita gente no evento tinha dúvidas sobre a eficácia de alongamentos, aquecimentos e se havia necessidade real de fazê-los antes dos treinos. O professor explicou que somente o fato de você provocar um estimulo ao seu corpo já faz com que seu cérebro se prepare pros exercícios que virão. O sistema muscular é ativado e descargas energéticas são disparadas internamente. O aquecimento, principalmente, serve pra aumentar a irrigação de sangue no músculo (pois esse vai precisar de toda fonte de oxigênio disponível) e o alongamento, principalmente, lubrifica as articulações (que serão prejudicadas se estiverem secas ao receber os impactos). Fora isso, o alongamento estende o músculo para que as fibras se desentrelacem, e não provoque danos com o rigor das contrações. Algumas pessoas argumentaram que leram em textos que alguns estudos mostraram diminuição na performance muscular após alongamento durante o treino. O professor disse que existe uma corrente em estudo dessa teoria, mas que ela se restringe a somente diferenciar os benefícios e prejuízos de se treinar alongamentos estáticos sem aquecimento prévio, e vice-versa. O resultado da conversa é que é imprescindível alongamento e aquecimento antes dos treinos para evitar lesões e ter um aproveitamento muscular assegurado.

12 - Percursos Planejados / Percursos Programados

Esse debate foi realizado logo após traçarmos o que consideramos ser parkour. Os praticantes foram questionados até qual ponto seus treinos são “de parkour” e quando eles passam a se tornar “para o parkour”. Após diversas opiniões, concluímos que a grande maioria dos praticantes treina “para o parkour’. Esses treinos, em sua maioria, são de repetição, tentativa e erro, análises de técnicas e percursos pré-estabelecidos. O parkour em si lidaria com uma situação de deslocamento real e natural, com direito a terrenos diferentes, situações inusitadas e onde a única garantia do praticante seria a habilidade de moldar sua movimentação aos obstáculos que surgissem.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Ainda Em Recuperação

Essa postagem não é feliz e meu punho ainda hoje não sarou.

Já são 2 meses desde o vagabundo do tic-tac no RJ e a dor continua. Hoje menos, mas com melhora ao passo de tartaruga. O diagnóstico do ortopedista foi "entorse grave" e o tratamento levaria de 3 a 5 semanas em semi-imobilização. Uma entorse ocorre quando você força uma articulação à uma movimentação que ela não foi projetada. Mas, como boa anta que sou, eu não me submeti ao tratamento.

Também ele queria que eu fizesse o que? De Novembro a Janeiro é a epoca de acontecerem os encontros e eventos pelos quais esperei o ano todo; e o homem de branco lá queria cortar uma asa minha???? Era o certo. E por isso eu sou uma anta.

Me coloquei na posição de "eu consigo imobilizá-lo mentalmente" e o tiro saiu pela culatra. Vou explicar. Eu saia para os treinos com o pensamento de "só irei treinar perna", mas sempre aparecia um landing errado, uma corrida exagerada, um obstáculo inesperado, e lá estava eu, metendo a mão machucada na parede ou chão.

Isso prova o quanto eu ainda tenho que aprender sobre meu próprio corpo. Sou total dependente do meu lado direito e sem ele sou apenas uma marionete sem as cordinhas. Não tenho o domínio de movimentação que costumava ter e isso me fez questionar muito o meu processo de adaptação (que nesse caso eu achei que seria muito legal e não foi).

Estamos a 2 semanas do encontro paraibano e 3 semanas do encontro nordestino. Daqui pra lá programei muitas sessões de gelo e anti-inflamatórios. Ah... e já que eu descobri que não sou uma pessoa regulada, vou diminuir os treinos de parkour e somente focar na manutenção de minha condição física.

Claro que fica aquela sensação de "não estou evoluindo" mas um certo baiano me disse uma vez que tenho uma vida inteira pela frente.

Bjo Gusta.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Socorro, eu quero ir pra BH! [2]

A minha antiga empresa (a que estava fechando e tals) foi arrombada ontem a noite.

Fui chamado por ela e pela policia hoje porque eu havia sido o ultimo chefe do setor de informatica deles. Minha sala tinha 7 computadores, levaram os dois que eu chamaria de "o coração da empresa" (servidor do programa de banco de dados e o servidor de internet). Tá tudo parado. O caos. Eu não tenho dúvidas de que sou apontado como suspeito. Vejamos:

- O cara escalou uma parede de uns 4 metros. (Todos sabem que faço parkour).
- O cara passou pelo buraco do ar-condicionado. (O que diz que tem minha estatura e é magro).
- O cara arrombou todas as portas do andar, menos a do CPD. (Eu aidna conservo a minha chave).
- Dentre 7 computadores ele escolheu os de maior estrago. (Quem sabe disso mais do que eu?)

Minha sorte é que ele deixou marcas de mão e pés e com isso eu me livro fácil com o teste de digitais. Passei boa parte do dia por lá e com certeza eles vão me chamar novamente e novamente. Minha mãe disse que se der a louca em mim e eu viajar pra BH de última hora isso só piora minha situação, porque irão me chamar pra depor ou sei lá o que e eu estarei fora do estado.

Não sei ainda o que pensar nem que decisões tomar.