sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Thomas Couetdic & Kazuma



Uma pergunta que ouvi mais de uma vez no Encontro Brasil-França foi: “E aí? Você ainda odeia gringo?”.

Vamos colocar os pingos nos “i”. Eu jamais falei isso. Apenas não nutro, por pessoa alguma, senso de adoração. Um psicanalista poderia catalogar essa minha postura como “orgulho, inveja ou apatia”, mas asseguro que não se trata de nenhum dos três. É que desde pequeno aprendi a não ter ídolos. Aprendi a admirar as pessoas, sem precisar idolatrá-las. E um ídolo pra mim é algo meio divino, as pessoas o adotam como modelo da perfeição e se esquecem de que aquele é apenas outro ser humano, como ele mesmo.

E é assim que eu escolho começar uma postagem falando sobre o Kazuma e o Thomas.

Essa característica de não bajulação era muito presente no grupo com quem eu me encontrava e estabeleceu a conexão na medida certa que precisávamos para construir um elo saudável para a troca de experiências. Pra se ter uma idéia a lembrança mais forte que tenho do Thomas é ele dizendo: “Duddu, o Belle se casou, mas mesmo se não tivesse, você não teria chance porque ele não é gay.”. E a do Kazuma seria ele pegando na minha mão e a gente andando que nem duas amigas no recreio em pleno shopping.

Tenha calma... já vou postar o que você quer ler... mas o blog é meu então sente aí e espere... ¬¬

A maior parte do dia do Thomas é com uma peste de uma moeda na mão e fazendo-a sumir e reaparecer das mais variadas formas possíveis. O engraçado é que ele faz com tanta vontade de melhorar e te pede tanta opinião que você acaba adquirindo gosto pela coisa e aprende vários truques bacanas. Já o Kazuma é o homem das pernas mais bonitas que eu já vi. Menino, quando eu o chamei de “coxudo” e expliquei o que significava... PRONTO! Aí foi que ele começou a forçar mesmo! Parecia um desfile: de cueca, de toalha, de sunga, de toalha rasgada na bunda... hhuahuahuahuahuhuahuahuhu

Mas deixa tudo isso pra lá e vamos ao que interessa!

São duas pessoas ALTAMENTE OPOSTAS quando o assunto é Parkour. Eu buscava pelos pontos em comum e não os encontrava. Se definisse o Kazuma como um Tigre dentes-de-sabre, o Thomas seria um... um... gatinho do Shrek (bonitinho, fofinho mas que sabe cumprir perfeitamente o seu papel).

Eu sei que é tosco fazer comparações quando o assunto é Parkour mas é que era muito estranho! Pra não ficar citando os nomes deles alternadamente, eu vou escrever minhas impressões sobre cada um em blocos separados e você que se vire pra entender.

O Thomas é um cara muito tranqüilo. No início eu achava que ele estava com vergonha da gente porque ele ficava muito calado. Depois que já estávamos mais íntimos, eu pude ver que aquele era um traço de sua personalidade e que, por sinal, refletia em seu modo de treinar Parkour. Ele é extremamente calculista, perfeccionista e concentrado. E não pense que aquela mimosidade toda é sinônimo de fragilidade não... ele é muito forte! Forte ao ponto de durante os workshops conseguir fazer 2 vezes a quantidade de nossos esforços e sem cansar. O resultado não poderia ser outro: os treinos que o Thomas nos convidava a fazer exigiam mais equilíbrio mental do que físico.

Em Brasília ele me falou: “Não importa se é a primeira repetição ou a última, você tem que manter a mesma atenção e vontade. Tente esquecer o mundo a sua volta e se concentre no que você está ali pra fazer”. Estávamos em um grupo de 10 pessoas fazendo um treino de precisão. A meta era contabilizar 10 pontos, sendo que cada ponto só era ganho quando TODAS as 10 pessoas acertassem a precisão consecutivamente. A distância eu acredito que era cerca de 9 a 10 pés com desnível. Não era tão difícil assim, mas a pressão psicológica por saber que o grupo inteiro iria se prejudicar caso eu errasse me preocupava muito. Acho, inclusive, que eu fui um dos que mais falhei. Mesmo que todos ali soubessem que pouco importava “finalizar o jogo”, aquilo era um treino de “agora é minha vez, não posso falhar”. Meu psicológico vacilava às vezes.

Cara, a concentração do Thomas é imensa! Naquela tarde treinamos essa precisão (somente ela) por cerca de 2 ou 3 horas... eu vou chutar que fizemos 500 precisões. Dessas 500 eu vi ele errar 2. DUAS! E isso quando estávamos no final. Quando o pé dele escorregou do murinho, ele olhou pra mim e disse: “Droga! Errei a primeira” e eu respondi: “Eu sei! (seu filho da puta!)”.

Fora isso ele é um cara que consegue se satisfazer com pouco. Quando visitamos a Lagoa, no RJ, ele enfezou em um percurso que envolvia 4 passadas em desnível. Era uma seqüencia um tanto arriscada mas que eu o vi repetir umas trocentas vezes. Cada hora ele fazia questão de incrementar algo: uma posição melhor de mão, um jeitinho mais legal de encaixar o pé... e nisso se a gente deixasse ele ia noite adentro.

Quando questionado sobre o Parkour Generations e Belle, a impressão que me ficou (embora ele não tenha dito com todas as letras) é que o trabalho deles com a PKGEN é praticamente o que todo mundo esperava que o Belle houvesse feito, e ele não fez. O Thomas não o criticava, ao contrário, falava muito bem dele e dizia que ele sabe viver sua vida. Não é porque ele é o “criador” do Parkour que é obrigado a dedicar a vida a isso. Ele tem outros objetivos, quer fazer outras coisas e ninguém tem nada a ver com isso. E é nesse ponto que o olho do Thomas brilha. Ele protege e defende a iniciativa do PKGEN com unhas e dentes. Dá pra notar que não é porque ele faz parte, mas porque o cara quer viver pra servir aquela causa e manter os princípios da atividade vivos.

Deixando o senhor Couetdic de lado, vou escrever agora sobre o senhor Rognoni.

Pra começar nunca o chame de Steve Rognoni. Ele é revoltado com o nome que os pais lhe deram e por isso quando ficou mais velho escolheu o seu próprio: Kazuma (extraído de um anime). Ah... nem falei que os dois são fanáticos por animes né? Pois são. Voltando: Se o Thomas é o cara “eu-quero-fazer-bem-feito” o Kazuma é o cara “foda-se-eu-quero-é-chegar”. Fazia muito tempo que eu não via alguém se jogar de cotovelo em um muro ou chapar o pé com toda a força no chão. As precisões dele pareciam que iam tirar o planeta de órbita, porém a força da perna do cara segurava qualquer impacto. O cara quando se movia parecia uma locomotiva: “o que tiver na frente eu passo por cima... ou derrubo!”.

Os workshops que passava se focavam mais nessa questão da agressividade. Normalmente ele nos fazia cansar no inicio e então, do nada, enquanto o grupo todo (ele inclusive) se encontrava no chão fazendo flexões, olhava pra gente com aqueles olhinhos puxados e dizia: “Vamos continuar fazendo as flexões, mas estão vendo aquele muro e aquela arvore? Quando eu der o sinal a gente corre, sobe o muro, salta de lá de cima, volta correndo, faz essa rotina 5 vezes seguidas, assim que terminar sobe de novo, salta pra arvore, volta pra cá, faz outra vez...” Você tá entendendo? Essa criatura queria nos matar! Eu só via o Zico urrando que nem um animal e o Thiago Lima se esborrachando no chão de tão exausto.

Mas havia um propósito. Ele nos disse que fazer um percurso em condição física normal é muito fácil, mas que Parkour lida com a movimentação continua mesmo em cima do desgaste físico. Se você aprende a se mover quando o seu corpo pede pra parar, aí sim você está fazendo algum progresso. Eu tive diversas vezes problemas em concentrar minha respiração e o que tanto o Kazuma quanto o Thomas berravam a todo momento era: “Você ainda consegue respirar, então você não está tão cansado! Diminua o seu ritmo, mas JAMAIS pare”. Cara, quando o Kazuma via você parar... ele corria e te dava uns empurrãos ou te enchia de soco e beliscão (Lissescão como ficou conhecido)! oO

Esse espírito guerreiro de manter a movimentação, não importa o esforço empregado, foi uma das maiores lições que aprendi e que faço questão de recordar a cada novo treino que faço.

O Kazuma, apesar de ministrar alguns workshops, não faz parte do Parkour Generations. Na verdade, de grupo nenhum. O PKGEN meio que tomou as rédeas do Parkour mundial nas mãos e disse: “Nós iremos guiar vocês pelo caminho da luz”. Já o Kazuma é daqueles que defende que as próprias pessoas devem encontrar esse caminho e não uma instituição o apontar. Ele tem o sonho de construir um Parkour Park em uma fazenda e anunciar: “Tracers do mundo todo, aqui vocês podem treinar sem serem incomodados! Venham! Se hospedem! Passem o tempo que quiser! E tragam dinheiro pro churrasco!”. Eu fiquei de cara quando ele falou isso. O cara é um fofo. Pelo que descrevi é meio fácil concluir que ele não é muito fã do ADAPT né? (Enquanto o Thomas defende o programa ferrenhamente).

Ah eu vou parar de escrever por aqui... tem um bocado de outras coisas mas eu num sou fi di rapariga pra escrever tudo não. Quando a gente se vê de novo você liga um USB na minha testa.

Ah... e eles não fedem e bebem muita água!
Bjos

sábado, 1 de agosto de 2009

De Volta Ao Real




Eu estava sentindo falta... falta mesmo. Até podia ter atualizado o blog antes, mas acho que o turbilhão de informações que minha cabeça recebeu ultimamente ia criar posts altamente desconexos e que até mesmo eu quando os lesse daqui a algum tempo não iria compreender.

Do dia 06 até o dia 26 de Julho, eu estive na maior viagem que já fiz em minha vida. Saca só o trajeto:

Aracaju – Salvador
Salvador – São Paulo
São Paulo – Rio de Janeiro
Rio de Janeiro – Belo Horizonte
Belo Horizonte – Brasília
Brasília – São Paulo
São Paulo – Salvador
Salvador – Aracaju

Nem eu sei como suportei. O estresse tanto físico quanto mental era evidente do meio da excursão pro final e tudo que eu pensava era em voltar pra casa.

Em contrapartida vivi momentos maravilhosos. Como se não bastasse o fato de poder visitar os maiores picos do parkour brasileiro, o GT estava unido novamente (com exceção do Jarbas). Eu acho incrível como moramos tão longe uns dos outros e nos damos tão bem pessoalmente. A sensação é de que não houve intervalo de um encontro pro outro; meio que um “pause” que é apertado quando nos separamos e é reapertado quando nos reencontramos.

Durante a viagem, ainda tivemos como companheiros de jornada o Kalebe, o Vítor, o Luiz Martinez e os franceses Thomas e Kazuma. Como pode ver, eu tive uma oportunidade de ouro pra aprender com tanta gente com tanto pra passar adiante.

O roteiro começou com o “Encontro Brasil-França”, depois passamos três dias no Rio de Janeiro, seguimos pra Belo Horizonte e ficamos um dia por lá, e depois partimos pro evento “Partour” que aconteceu em Brasília.

O “Brasil/França” foi uma surpresa pro GT porque a aceitação do público ao evento foi maciça. O espaço tornou-se até minúsculo para a quantidade enorme de pessoas que compareceram (estimo que umas 400). O Kazuma e o Thomas se incomodaram um pouco (tá... não foi só um pouco) com a quantidade de praticantes e infelizmente o esperado Workshop só rolou para aqueles que estavam no pé deles.

Eu fico feito um passarinho que caiu do ninho nesses eventos. Não sei pra onde olho, não sei com quem eu falo, não sei pra onde vou. São muitas pessoas que eu gostaria de passar horas conversando ou treinando, mas o tempo é minúsculo pra tudo que tenho vontade. Então sempre volto pra casa com essa sensação de “ainda não foi o suficiente”.

Mas é uma sensação indescritível ter ao alcance de um abraço todas aquelas pessoas que significam algo pra mim. Esse encontro, em particular, marca minha trajetória por ter me dado acesso à pessoas que à muito tempo eu queria conhecer. Destaco, em especial, o Kako no meio delas.

Em Belo Horizonte... os Pkmaxianos! São pessoas incríveis, onde eu deposito um carinho enorme. Em minha vivência, eles servem não somente como referência para o Parkour, mas também como seres humanos. Eu lamento do fundo da alma estar tão cansado no dia que passamos em Minas. Não estava bem, minha cabeça doía, meu corpo estava fadigado das mais de 10 horas de carro e sem dormir. Isso pra não reclamar do esgotamento físico proporcionado pelo workshop do Thomas no dia anterior. Então, até peço desculpas aos mineiros pelo “Duddu Zumbi” que aportou na terra deles. Lá, eu, Bacon, Gustavo e Leo ficamos hospedados na casa do Arthur. Foram momentos de muita conversa, risadas e comilanças (meu deus, me senti um rei!). Arteba, meu querido, valeuzão por tudo de coração!

Rumo a Brasília, pegamos estrada pela noite e foi uma canseira sem fim, cerca de 12 horas novamente em um carro e com o Kalebe cantarolando as músicas mais chatas do planeta enquanto eu tentava dormir. Eu estava com tanto sono e anestesiado que nem os beliscões do Kazuma me causavam mais dor. Pegamos o evento já na metade então só deu pra aproveitar o segundo dia.

Cara, eu precisava desse dia em Brasília! Fomos recebidos de braços abertos pelo BRTracer e eu não fazia idéia de como os brasilienses eram legais. É que todo contato que tive anteriormente com eles, me passava uma impressão meio fria, inflexível, rígida e sem sentimento. Com exceção do Miih e do Alex Pires, eu tinha impressão que aquela cidade era um criadouro de pessoas chatas. Engano gigantesco.

A começar pelo Santigas, que se revelou pra mim (ui!) uma pessoa extremamente legal. O jeito caladão dele sempre me causou aquela sensação de “não sou bem-vindo aqui” e por isso eu antes mantinha uma certa distância. Burrice. O cara é um amor de pessoa e eu realmente fiquei impressionado de como não tinha percebido antes. Valeu de coração por tudo meu velho!

Eu podia citar de um por um: O Leandro que eu não conhecia e que de cara me apaixonei! O Miih... mas esse nem vale a pena falar nada (s2). O famoso Breno que tanto eu ouvia falar (melhoras no pé, rapaz!). O Manoel que é um monstro fofinho! O Maurício, que é um cara que um dia eu vou perder a amizade por jogar um pedra na cabeça! O Belém... ah o Belém... o cara que sempre que encontro arruma um jeito de colocar perguntas em minha cabeça que perduram por semanas, meses e tem algumas que até estão completando aniversário em Setembro (hauhauauauhu!).

Eu revi o Butuí! O Beto! O Pedrinho Thomas! O outro Pedrinho! Os meus amados Renatto, Racir e Pedro de João Pessoa! A Poli! O Alex! Conheci o Bernardo! Ah cara... vou parar por aqui! Se eu te esqueci não é porque você não é importante é porque eu tô com sono... A Sofia!! Tá vendo que é sono, mesmo? Eu jamais esqueceria a Soso...

De volta a Sampa, o Thomas pegou o avião dele e eu o meu. Eu teria ainda mais 5 dias em Salvador até voltar pra casa. Lá, eu fui com o Gustavo na Coordenadoria de Esportes falar sobre o Encontro Brasileiro e já deixamos algumas coisas encaminhadas. No final de semana pude participar de mais um Acamparkour. Dois dias acampados numa faixa de terra que divide o Rio do Mar. São momentos de muito relaxamento mesclados com muito treino exaustivo e “cortante” por dentre os mangues. São horas que valem cada minuto! E só tenho a agradecer ao Guga, ao Fred, ao Joe e ao Fallux (mesmo esse faltando o acampamento todas às vezes) pelos momentos fodas que eu passo naquela terra.

Pois é isso. Estou de volta a minha casa. Treinando que nem um cavalo. Esperando as aulas da faculdade começarem. Em busca de um emprego. E vivendo a minha vida.

Cada vez que o Parkour se manifesta no meu dia, seja em lembrança, seja em treino, seja em internet... eu sinto que ele contribui significativamente pra me tornar a pessoa melhor que irá acordar em minha cama no próximo amanhecer.

E essa sensação é impagável.

PS: A vivência com o Thomas e o Kazuma merece um post especial, por esse motivo me abstive de comentar sobre eles. Assim que minhas idéias se ordenarem novamente, eu volto pra tentar colocar em palavras o que consegui absorver.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Um passo certo com o tênis certo


A foto ficou boa, né? Se não gostou, por favor... Minta! Eu até coloquei umas pétalas de flor pra ela ficar bem enfeitada e colorida! Isso tudo porque esta é uma postagem de celebração! Eu tenho vários motivos pra comemorar, e quem me conhece sabe que eu extrapolo na gayzice quando estou feliz. Ah... E eu também falo pelos cutuvelos! Então “senta que lá vem história” (imagine uma espiral de preto e branco rodando no seu monitor):

Em outubro do ano passado o Rinoceronte Diamarante, mais conhecido como Pop, me presenteou com esse tênis da foto: Um rainha VL-2500. O novo vício (leia: moda) do Ibyanga era utilizar essa peste de tênis. Eu era um dos únicos que não havia aderido. O fato é que ele apesar de ter uma aderência foda, não amortece bosta nenhuma e eu estava acostumado com meus Olympikus Tube, Mizunos e Asics (não pense que sou rico, tudo é herdado do meu irmão). A absorção deles era assombrosa! Pra ter uma idéia tem um que você até pode colocar umas pastilhas extras de amortecimento... vai ver o tênis é projetado pra saltar de prédio mesmo.

Voltando ao Pop e ao tênis da foto... ele me deu esse tênis de presente. Eu sei que você já leu isso, mas eu quero repetir porque significa muito pra mim. Acontece que eu não conseguia treinar com essa coisa no meu pé. Eu tentava e depois de uns 10 minutos o pé reclamava. Meu calcanhar sofria muito e teve até uma vez que eu bati tão forte que fiquei sem conseguir encostar o pé no chão durante 1 semana.

Toda vez que eu ia pra Maceió eu levava o tênis. Eu queria mostrar pro Pop que eu valorizava o presente e que estava treinando com ele. Tudo mentira... porque quando eu voltava pra Aracaju eu jogava essa bosta pra longe e voltava pros meus amortecedores.

Um dia ele veio pra cá, pegou o tênis em suas mãos, deu graças novamente, e disse: “Que triste... eu dou meu tênis pro cara e ele não usa. Se você não quiser eu pego de volta! Esse solado não tá gasto e isso é sinal de que você não treina com ele”. E era verdade. Afinal, eu só usava o tênis pra enganá-lo e ele não ficar triste.

Aquela época coincidiu com a vinda do idiota do Gustavo pra cá, e como eu já relatei naquele post-carta-de-amor, eu resolvi mudar o modo de encarar meus treinos e impactos. Treinei descalço por um tempo e naturalmente esse tênis se tornou um amigo. Acho que hoje poderia escrever um livro sobre ele. Aprendi lições valiosas como:

- Controlar e confiar no mecanismo natural de absorção de impactos do meu corpo.
- Eu amo meu calcanhar.
- Meu dedão do pé é quem me equilibra no balance.
- Aprender o limite entre o “eu consigo” e o “vale a pena?”.

Quando você o calça a impressão é que colocou uma camada fina de borracha pra proteger seu pé contra vidros e espinhos. Mas somente isso. Você sente cada pedra, cada desnível, cada mudança de terreno e cada dedo tocando o chão. Eu tive que aprender a me livrar daquela superficialidade toda dos tênis fodões e notei de imediato que a falta do conforto reduziu meu nível de “monstruosidades”.

Passei a fazer coisas menos impressionantes e a focar em “besteiras” corriqueiras do treino de qualquer tracer. Eu não fazia mais nada admirável por sua grandeza, mas contabilizava pequenas vitórias em cada precisão de 8 pés amortecida com segurança. Na verdade isso é algo muito monstruoso, eu que antes não dava o devido valor.

O Fred de Salvador quando veio aqui em casa me perguntou: “Você não guarda os seus tênis antigos não? Pois eu guardo. Sinto prazer em lembrar de como cada um deles me ajudou a evoluir e de quanto eu mesmo evolui.”.

Pois esse rainha é o meu primeiro troféu.
EU ACABEI COM ELE, POP!
USEI ATÉ O FINAL!


Sei que você está tão orgulhoso de mim quanto eu mesmo.
Não vejo a hora de comprar outro!

Feliz Aniversário Adriano Pop Diamarante.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Parkour Aracaju no Cinform




É tão legal quando um jornalista tenta entender o que você quer transmitir não é? Todo mundo quando cede uma entrevista na hora de conferir o resultado fica com as pernas bambas. O medo de terem distorcido sua palavra é gigantesco. Esse tipo de reportagem é aquela que eu acho extremamente saudável pro parkour, sem contar que é uma mão na roda pra apresentá-lo à comunidades locais.

Sugiro que as pessoas usem e abusem desse artificio. Jornal impresso é muito lido e normalmente serve otimamente para divulgar que a atividade existe em seu estado (me alegro muito em saber que a maioria dos oficiais militares lêem jornal impresso). E se vocês derem a sorte de pegar um jornalista como o Ben-Hur (velho, brigadão por tudo!) o resultado não tem como ser melhor.

domingo, 7 de junho de 2009

Sims e Nãos




Você sabe a diferença de um para o outro?
Nunca havia procurado uma resposta pra essa pergunta.

Em minha cabeça, o "não" sempre foi a escolha sábia e o "sim" a cômoda. No ensino médio eu não precisava ter uma justificativa para marcar que o item era "verdadeiro", mas precisava estar muito seguro e com as idéias muito bem alinhadas para dizer que ele era "falso".

E o que falar de influência externa?
Numa conversa entre amigos é muito melhor para sua imagem optar em concordar com o que ele diz, mas é preciso muita bravura pra dar a sua cara ao tapa e dizer "não acho", "não concordo" e "não quero" para ele.

Acho que é por ter dado minha cara a tapa muitas vezes que meu grupo de amigos é seleto. As pessoas simplesmente não gostam de receber "nãos" e eu sempre fui uma pessoa que sentia um certo prazer em distribui-los. Ser criticado, e principalmente quando você espera um elogio é algo que pode destruir um relacionamento. Minha família, com o tempo desenvolveu um escudo contra mim:

"Só pergunte a opinião do duddu se não for se chatear com o que ele pode vir a te dizer".

Por diversas vezes eu vi minhas irmãs, antes das festas, perguntarem "como estou vestida?" pra todo mundo... menos pra mim. (É que como eu tenho intimidade eu uso adjetivos como "mendiga, palhaça, pata choca, mulher de vila..."). huahuahuaua!

Mas é com prazer que em todas vezes que algo de importante estava pra acontecer com elas, eu as via se dirigir a mim e falar:
"Duddu, preciso de sua opinião/conselho".

Isso não é uma forma de egoísmo?
Eu escolho sempre ser verdadeiro comigo mesmo e não necessariamente pensando na pessoa.

No parkour é comum pedirem minha opinião sobre uma movimentação ou um video. E quando eu não conheço muito bem a pessoa, eu já cheguei ao cúmulo de perguntar:
"olha, você quer que eu fale o que vai te agradar ou o que eu estou pensando?".

Se responde que quer o primeiro eu falo tudo que achei legal, se responde o segundo eu falo tudo que achei legal e despejo a lista (normalmente grande) de coisas que achei ruim.

Foi essa a forma que aprendi a lidar com essa caracteristica humana de sempre buscar a aprovação. Pelo menos assim eu não me sinto "mentiroso" (e quem me conhece sabe o quanto odeio essa palavra).

Eu não sabia que tinha tanto a falar sobre esse assunto!
E olha que nem cheguei ao meu objetivo inicial!

Como visto acima o "não" pra mim sempre foi um amigo. Ele é o reflexo externo de meu senso crítico, de quem eu sou mentalmente e absolutamente. Mas tanta negatividade podem trazer consequências... er... negativas.

Nos últimos meses ocorreram uma sucessão de fatos que me fizeram repensar meu comportamento. A quantidade de "nãos" que eu chego a dizer diariamente me assusta. E com a ausência de um simples "sim" eu deixei, em 23 anos, de passar por experiências que teriam sido valiosas.

Convite pra ir com amigos a um show que não gosto.
Convite para se encontrar com amigos que eu não via a anos.
Convite para ficar bêbado com amigos do lado.
Convite para sair com aquela menina que dava mole e eu nem ligava.
Convite para ir com amigos a um puteiro.

Como eu posso, verdadeiramente, viver diariamente uma disciplina que me incentiva a enfrentar obstáculos, se eu usava o "não" para me esquivar deles?

Eu não estou dizendo que passarei a dizer "sim" a tudo. Mas é que muitas vezes perdemos essas oportunidades por comodidade. Não queremos sair de nossa rotina ou contrariar o nosso dilema interno de "eu gosto disso e não gosto daquilo". Como vou saber se gosto de algo sem ter provado?

E na "pior" das hipóteses, em todos os 5 exemplos que eu coloquei ali em cima, por pior que o local ou a noite fosse, eu estaria ao lado deles: amigos.

É uma nova experiência que coloca meu corpo e mente a prova. Não vou jamais fazer algo que vá me prejudicar integralmente. Eu sou o meu bem mais precioso. Mas a todas oportunidades que a vida e meus amigos fornecerem, se eu estiver certo que não trará um mal irreparável, eu vou me jogar de cabeça.

As vezes tenho medo de escrever abertamente desse jeito no meu blog porque são transformações pessoais e experiências que eu compartilho sem saber aonde irão me levar. É uma exposição? Sim, é. Mas eu não me sinto (ainda) incomodado com ela.

Então, por favor, nunca tome o que ler aqui como verdade. Eu vou errar muito e vou acertar outras vezes. Dessa vez eu apenas quero ter certeza de que deixei a porta aberta para que as coisas aconteçam.

Agradeço, em especial, ao Edi, Pop, Leleo, Bata, Ítalo, Diogo, Jean, Ísis, Bacon, Gustavo, Fred, Cintia, Monique, Ingrid, Kako, Fábio Gomes, Sayuri e ao Jim Carrey.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

"No Pain, No Gain"




Lendo o título do tópico, eu pensaria: “Agora ele vai contar o quanto tem treinado pra evoluir”. Mas não. Esse é um daqueles posts chatos que não se focam em meu treino físico, mas sim no que anda passando por minha cabeça.

Eu odeio clichês. Não suporto papagaismos e só falto morrer quando modas como “Isso é Mara” ou “Ronaldo” ganham o boca-a-boca ao meu redor. Pra mim isso é o resultado de uma mente que se deixa influenciar facilmente sem apresentar o mínimo de senso crítico.

No Parkour não é diferente. Logo a princípio, antes mesmo de ser apresentado aos aspectos da prática que realmente me apaixonariam por ela, eu aprendi que:

Eu tenho que sofrer.
“No Pain, No Gain”

Eu tenho que ser útil.
“Etre Fort Pour Etre Utile”

Eu tenho que me cuidar.
“Etre et Durer”

Claro que pra pessoas que não tem uma direção a seguir, esse mundo de frases feitas se torna uma bíblia. Eu, particularmente, nunca dei bola; sempre entrou por um ouvido e saiu pelo outro. No máximo, incorporei algo do conteúdo que achei útil, mas isso sem a supervalorização da frase.

Duas delas são oriundas do método natural de Georges Hébert. O cara era um visionário e o seu pensamento de “ser forte, ser útil e durar” ajudou a nortear tanto o rumo da educação física moderna quanto os princípios do parkour em si.

Porém, eu me recordava de já ter visto a “No Pain, No Gain” em algum lugar. Quando a ouvi no parkour, fiz uma pesquisa e constatei que ela é o pilar para várias outras atividades físicas como: halterofilismo, fisiculturismo, bodybuilding, circo, ginástica artística e rítmica e qualquer outra onde a busca por resultados seja a propulsão para se treinar.

Semana passada, durante a aula de “Literatura Norte-Americana III”, um cara chamado Benjamin Franklin disse:

“A indústria não precisa de um desejo, e aquele que vive de esperança é o que morre mais rapidamente. THERE ARE NO GAINS, WITHOUT PAIN”.

O Caminho Para a Riqueza (1758)


O cara foi filho de um vendedor de velas que tinha 17 filhos e que por isso o pai só pôde lhe pagar dois anos de educação. Com certeza esse cara tinha uma infinidade de experiência para compartilhar por ter saído desse cenário social e se tornado o criador do “American Dream” e o pilar da independência americana.

Mas, o que me chamou muito a atenção foi o desvirtuamento que a frase de Benjamin sofreu com o tempo. O “pain” a que ele se referia não tinha muito a ver com “dor, sofrimento, repetições infinitas e cansaço físico” a que hoje nos referimos. É comum em atividades como o halterofilismo você se deparar com atletas que vão parar em hospitais por conta do esforço empregado. oO

Eu acho que a intenção de Franklin era inspirar as pessoas a deixar a preguiça de lado e construir um mundo melhor pra si mesmo com as próprias mãos; e não entrar em um processo doentio em busca de resultados (onde em muitas vezes se perde o prazer de cada passo que constitui essa busca). E por isso, termos como “dedicação, vigília e prontidão”, ao meu ver, seriam uma tradução melhor para “pain”.

Ao que remete ao parkour, a desvirtuação da frase é ainda um pouco pior. Eu já me deparei com tracers que se cortam, quebram ossos, batem canela por falta de prudência e quando você olha pra eles, com um sorriso amarelo, eles soltam a pérola: “Velho, é assim mesmo, no pain, no gain”. Quanta irracionalidade desse fi du cabrunco!

Por isso que sou ferrenhamente defensor dos “tracers pensantes”. Não me importa se pensam igual a mim, me importa que pensem! Essa política de muito copiar e pouco se analisar pra enfim tomar um partido, me irrita.

No twitter, o Rachacuca recentemente postou algo como “Deixe para xingar o despertador depois de ter se levantado para o desligar”. É esse o significado do “No Pain, No Gain” que eu acredito me ser útil.

Quanto ao sofrimento em demasia ou a idiotabilidade de se justificar falhas com frases, eu deixo para aqueles que precisam provar algo a alguém. No mais, o objetivo do meu treino é ser agradável a mim.

Com todo respeito aos masoquistas de plantão:

Busquem frases para justificar sua busca e resultado, eu buscarei me respeitar e me divertir.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

“Meu Pé, Meu querido Pé!”


Um ginasta perfeito é um ginasta que crava sua movimentação. Eu nunca fui um bom cravador. Por mais que treinasse, eu só conseguia terminar o movimento sem ser despontuado se plantasse o calcanhar no chão. Ou era isso, ou então eu dava um passinho pra frente (desconto de 0,10 por passada). No parkour, as precisões trouxeram de volta meu problema com cravamento. E agora? E agora que arrume um outro otário pra chapar o calcanhar no concreto! Não tem mais o fofinho do colchão não, meu filho!

Na última viagem pra Salvador, a gente começou um treino depois da meia-noite. Eu estava alegremente brincando com meu mais novo vício: passadas (saltitos iguais aos do Bambi, imaginando que o chão são corrimãos). E então Fred e Fallux resolvem parar pra assistir a belissima cena que isso deveria ser. Ficamos durante um bom tempo os três analisando minha movimentação, até que o Fallux perguntou: “você não usa o tornozelo?”.

Vou fazer uma pausa aqui pra explicar o que aconteceu com a minha cabeça. Sabe o filme que dizem passar na nossa mente quando vamos morrer? Pois nessa hora, eu vi um mosaico de vários movimentos meus que estão na lista de “preciso melhorar”. E em todos eles eu notei que não uso o calcanhar:

Mortais de costas. Precisões. Amortecimentos. Passadas. Enfim, qualquer coisa que necessite de absorção de impacto ou geração de impulsão com os pés.

Nós três ficamos meio com cara de “????” porque isso é como caminhar... TODO MUNDO FAZ NATURALMENTE! Menos o abestalhado que tá digitando...

No outro dia, Fred e Fallux separaram um tempinho pra trabalhar exercícios de fortalecimento de pé comigo. Pra minha surpresa eu descobri que sou um Sr. Calça Frouxa! Minha resistência não chegava à metade da deles e minha flexibilidade na articulação do tornozelo é quase inexistente. Fizemos caminhadas usando somente a ponta do pé, depois só o calcanhar (sem tocar os dedos no chão), depois com a lateral esquerda, direita...

Eu suava. Fazia caretas. Até derramar uma lágrima eu derramei (e olha que sou homem!)! Não sei se todo mundo tem tanto problemas pra andar desses jeitos como eu, mas é que doía muito mesmo. Só que era aquela dor de “está forçando muito, porra!”. Isso me fez ver que o fortalecimento dessa área com certeza ajudará na minha movimentação. Estou regularmente trabalhando em cima disso. \o/

Minha saída para a precisão antigamente:



Minha saída para a precisão agora:



Eu ainda não tenho força pra sustentar o impacto do peso do meu corpo em cima do tornozelo, e nem aprendi ainda a usar conscientemente o tornozelo na hora da precisão. Mas quando eu lembro de usar, eu notei que vou muito mais alto, mais longe e mais suave. É só uma questão de hábito e treinamento. Nada que muito suor e trabalho mental não dêem conta.

Agradeço enormemente aos debiloides lá de cima pela ajuda e preocupação. :)