sábado, 14 de agosto de 2010

Não coma do chão!



QIOUPWIUPUEIUQIWIPOQIUPOWIPQIWUIQUIOWYQIUYWUQYUWIIUOQW Foi mau aí, mas é que não tem como começar essa postagem sem dar uma boa risada!

Bicho... é que eu escuto esse tipo de frase todos os treinos! “Não coma do chão!”, “Não pegue isso!”, “Largue de ser nojento!”, “Parece uma criança!”. E o pior é que quem fala tem talvez um pingo de razão!

Dando um mergulho no passado a gente encontra um duddu miniatura, já com óculos de garrafa, estatura semi-franzina e serelepe como toda criança em seus 6 anos de idade. Reza a lenda (e a capacidade de memorização das mães é incrível!) que nessa idade era um tormento sair na rua comigo. Como a quantidade de doces que eu ingeria era rigorosamente controlada, meus pais não podiam bobear porque qualquer bolinha de cor diferente que eu visse no chão já ia pra boca. Vocês dariam risada se escutassem minha mãe dizer que eu descolava chicletes pisados no meio fio e depois os mastigava esbanjando felicidade. Muitas vezes dava até pra ouvir os “crec!” do meu dente mastigando aquela borracha cheia de areia.

Eu cresci, né? E com noções básicas de higiene, cinturãozadas dos pais e a pressão social (a mesma que inibe a movimentação livre das crianças) o velho hábito de comer coisas estranhas desapareceu.

E demoraram 14 anos para que o Parkour fizesse acordar aquele ser "nojento" reprimido...

Calma! Calma! Não estou falando que peguei o hábito de mascar chiclete com terra! Mas sim do fato do Parkour ter me reeducado a ouvir o que eu quero fazer e aprender a ignorar o que querem que eu faça. Essa é uma ferramenta poderosa e que só deve ser colocada em prática quando se têm bom senso pra discernir até que ponto você não prejudica as pessoas a sua volta.

O Parkour transforma a forma como você enxerga o mundo. E por mundo não estou falando da arquitetura das construções ou do senso de proteção à natureza. Estou falando da redefinição de valores. A reforma íntima que cada praticante sofre. O novo guia de “como devo viver em comunidade” e o novo grau de tolerância às diferenças.

Muitas vezes minha situação no final de um treino é deplorável. Cara suja, roupa suja, mãos pretas e abertas de calo, calça rasgada na bunda e uma camelback fudida e nojenta nas costas (isso pra não falar do fedor!). É o quadro perfeito de uma criatura pronta para ser marginalizada. Mas será que preciso dar tanta atenção ao que irão pensar de mim?

Em dias de chuva eu entro em ônibus lotados e ainda assim existem cadeiras vazias porque uma janela aberta deixou a chuva molhar os acentos. Quando isso acontece meu sorriso se estende de orelha a outra. Todos ignoram o molhado, eu vou como um míssel em direção a ele. Afinal, aquilo é somente água e não ácido.

E quando o biscoito que acabei de tirar do pacote cai no chão? Se ele não tiver caído em merda de cachorro ou em escarro de bêbado... Eu vou comer! “Ai que vergonha!”. Porque? Vergonha é desperdiçar comida quando tantas pessoas (e eu mesmo) estão com fome.

Em praças de alimentação é que eu faço a festa! O cara compra um lanche CARÍSSIMO porque os amigos todos fizeram o mesmo, e então não agüenta comer a metade. Ele se levanta e deixa pra trás aquele punhado de batata frita que irá diretamente para o lixo! Pelo meu kong precisão!!! O que me impede de sair do lugar e retirar gentilmente as batatinhas antes que a servente chegue primeiro? Não é nojento. É econômico! Mata a fome e diminui o desperdício. Não causei mal a ninguém e nem irei pegar uma doença terminal. Então porque não o fazer? Porque as pessoas ao meu lado irão notar? Porque pode ter um amigo meu de faculdade secretamente me observando? Eles que vão cuidar de sua própria vida!

O Parkour trabalha esse lado mais ogro e “irracional” do ser humano. Estou acostumado a ver sangue na minha canela, lidar com cascas de ferida, com pús nos calos, lama, lodo, bosta humana nos picos e por isso não tenho tempo e nem saco pra frescuras.

Quem me viu nos últimos 6 meses deve ter reparado que meu óculos está remendado no meio. Ele abriu em dois pedaços quando eu calculei um cat errado e bati a cara numa árvore. Mas seria justo comigo mesmo (e com meu bolso) gastar 500 reais em um óculos novinho sendo que esse ainda me serve? Bastou uns toques de Magyver do meu pai e voilá! Tô enxergando de novo! Aqui no trampo essa semana até começou uma campanha “vamos dar um óculos novo pro duddu”. OIUWUQIUWIPOQIOPWUIPOUQIUIWOIQOP

“Oi mosquinha você ficou grudada no meu pudim? Caiu no meu pão? Não tem problema! Eu retiro o pedaço que você tocou e como o resto.”

“Moço não vai querer mais a coca-cola de 600 ml? Eu tomo o resto pelo senhor pra que não se desperdice. Já economizo o dinheiro do meu próximo lanche.”

“Não tem copo? Olha... tem um descartável ali no chão... vamos dar uma lavada nele que ele fica novinho!”

A cada dia tenho mais raiva de quem tenta me obrigar a manter a etiqueta e as aparências.

E olha que eu sou limpo, viu? Vocês precisam escutar as estórias do Pop bebendo água empoçada da chuva como se fosse um cachorro na sarjeta... mas essa fica pra um outro dia. ;)

terça-feira, 15 de junho de 2010

Do Verde ao Amarelo



Muro verde. Não gosto desse frio na barriga. A respiração começa a ficar ofegante, o coração a pulsar mais rápido e quase consigo sentir a adrenalina sendo descarregada na corrente sangüínea. Faltavam poucos segundos pra eu sair em disparada. Basta que o skatista desça a rampa para eu poder sincronizar meus movimentos com o dele e a gente não colidir. “Poucos segundos” é também a minha meta do verde ao amarelo. Ele desceu! Eu corri!

A primeira passada no chão liso me fez saltar um rio de lava imaginária. A segunda atravessou uma fenda real. Sincronia boa de braços e pernas e quando dei por mim já voava em direção ao muro. Segurei de um jeito péssimo e por isso o cimento comeu um pouco de pele dos meus dedos. Precisei ajeitar o corpo e em seguida me lancei por cima do corrimão do half.

Droga! O cara do skate começou a voltar! Se eu mantenho o percurso em linha reta bato de frente com ele. Um obstáculo móvel seria legal. Acho que consigo desviar fácil, mas seria imprudente confiar somente nisso. Não sei com quem estou lidando e nem se ele é do tipo que pensa rápido. Melhor não arriscar. Vou pelo lado.

Desvio a corrida e consigo numa boa desmontar do half pro chão. Joguei com um pouco mais de força porque sabia que a chuva tinha feito lama com o gramado. Se sujasse o tênis teria que dobrar a atenção com a aderência. Aterrissei no cimento, bati as mãos no chão e continuei a correr. Bastaram uns 10 metros e atingi o corrimão estranho. Como ele fica no alto, passar por dentro é o caminho mais rápido. Passei.

Putz! Agora só tem chão. Já que é pra ser o mais rápido então vamos correr! O campo aberto convida a aumentar a velocidade. Corri com força. 100 metros ou 200. Minha matemática não tá mais funcionando pra isso. Grama molhada! Hora de reduzir! A pisada nela sujou meu tênis, mas não importa agora... falta pouco!

Por cima do banco. Evito usar o pé molhado. O toque com o chão já me deixa em posição de passar a arquibancada. Uso as mãos, atiro o corpo pra frente e mais um obstáculo ficou pra trás. Ah! Vou aterrisar com um pé só! O direito. Por ele ser mais forte dá pra continuar a correr!

TUM! Um barulho abafado. O menino no muro amarelo chutou alguma coisa em minha direção. Pé torto da porra! O amigo dele tá do outro lado e ela tá vindo na minha cara! Só deu tempo de ajeitar o pé no chão e desviar a bola com a mão esquerda. Apesar da força que ela vinha eu só precisei de um toque sutil. Parecia até cena de jogo... em câmera lenta! Três passadas no chão... outra na parede... e tô no topo! Muro amarelo. O outro lado.

Ficção não! Realidade!

Passo a passo da minha mente durante um dos melhores flows que já fiz na minha vida. Para fins de recordação: Praça da Juventude, Bairro Augusto Franco no dia 13 de junho.

Terminei a corrida rindo muito por causa da bolada! Ah... como essa sensação de “imparabilidade” é boa! Dei a volta no muro e o menino quando me viu começou a rir junto! “Foi mau aí, veio!”. Ele não fazia idéia de quanto eu estava agradecido a ele naquele momento.

Do verde ao amarelo em poucos segundos.
O tempo que gastou lendo esse texto dá pra fazê-lo de novo indo e voltando.

Futebol? Parkour.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Parkour como uma fase



Em pouco mais de quatro anos, o Parkour me deu acesso aos mais variados tipos de pessoas. Umas duraram meses em minha vida; outras somente horas; algumas só vi uma única vez e as mais insistentes estão ainda hoje ao meu lado. Cada uma delas chegou de mansinho, vindas do seu próprio mundo particular; às vezes com objetivos bem definidos e outras vezes sem nem saber o porquê de estarem ali.

Tive o prazer de ser espectador da trajetória de várias dessas pessoas, ouvir suas histórias, conhecer um pouco da realidade em que vivem e o desprazer de me frustrar ao ver grande parte delas sumir dos treinos e da minha convivência. Nunca fui um defensor do lema “Parkour não é para todos!”. Mesmo que faça todo sentido do mundo, meu positivismo (e um pouco de teimosia) sempre se recusa a aceitá-lo.

Em postagens anteriores já falei o quanto me sinto culpado quando alguém decide parar de treinar. Aquele velho código de ética chato que me deixa com a sensação de que não dei o meu melhor pra fazê-lo compreender o quanto esse mundo é incrível e infindável.

Desde que o Tim Pisteur (um cara que fez muito pelo Parkour mundial e que tinha mais de 10 anos de treino) anunciou que ia abandonar de vez a atividade, essa postagem estava engasgada na minha mente. Enfim resolvi tomar vergonha na cara e dar vida a ela.

A nova cadeia de pensamento que estou desenvolvendo pra mim mesmo consegue me satisfazer como tracer e como ser humano. Consiste em apenas aceitar o Parkour como uma fase (opcional) do desenvolvimento humano. Nessas horas eu sinto orgulho de mim mesmo por não ter dormido as aulas de psicologia na faculdade. Pra quem não conhece Jean Piaget, um mestre na arte do estudo do desenvolvimento humano, esse cara foi quem estabeleceu e estruturou as 4 fases básicas pelas quais todo ser humano passa:

01 - Desenvolvimento sensório-motor (de 0 a 2 anos)
Acredito que trata-se de um dos momentos mais foda de nossas vidas. É quando somos bombardeados com informações visuais, estímulos sensoriais e percebemos que existe um mundo lá fora: estranho, independente de nossa vontade e que devemos aprender a lidar com ele e suas regras. Tudo que fazemos até então é apenas existir e aprender. Um alienígena sedento por informações em um planeta desconhecido.

02 - Desenvolvimento cognitivo: pré-operatório (de 2 a 7 anos)
É onde a coisa começa a ficar séria. A criança se dá conta de que tem voz ativa (começa o processo mais eficiente de educação) e aprende a selecionar as experiências de acordo com a sua vontade. Ela descobre o que é o prazer e a frustração, e então começa a usar de artifícios para ludibriar e manipular os acontecimentos a sua volta. O que importa verdadeiramente é a satisfação dos seus desejos e vontades. É basicamente nesse estágio que o ser humano começa a manifestar as características (boas e más) que irão compor sua futura personalidade e é justamente aí onde os educadores devem orientar efetivamente.

03 - Desenvolvimento cognitivo: operações concretas (de 9 a 11 ou 12 anos)
É a fase onde começamos a prestar atenção nas diferenças de opinião e a avaliar o que faz ou não coerência no mundo. A criança passa a defender seu ponto de vista sem necessariamente o impor. Nasce o senso crítico e com ele a capacidade de produzir e buscar informação. Nos tornamos capazes de dialogar uns com os outros, a ceder voluntariamente em situações de erro e a termos nosso valores morais melhor definidos e organizados.

04 - Desenvolvimento cognitivo: operações formais (de 11 ou 12 anos em diante)
Agora que já passamos por um processo enorme de aquisição de valores, chega o momento de darmos passos por conta própria. Com todo esse aprendizado a criança é agora capaz de refletir por si mesma, estabelecer idéias que são suas e buscar meios de concretizar seus objetivos. A capacidade mental é desenvolvida ao ponto de criarmos conclusões e preconceitos sobre assuntos, baseados apenas em nossas vivências pessoais. E é por isso que o período de amadurecimento é o momento de questionamento de valores e de, muitas vezes de forma egoísta, achar que nossas idéias são capazes de transformar o mundo e fazer dele um lugar melhor.

Apesar dos períodos estarem delimitados por idade, é óbvio que os números só devem ser considerados como uma base. Pessoas diferem uma das outras e cada situação biológica é diferente. Da mesma forma que há casos de crianças que começaram a andar com 7 meses, existe de crianças que só andaram com 2 anos.

Mas e onde o Parkour entra no meio disso tudo? Muito simples. Peço que volte os últimos parágrafos e releia os 4 enunciados novamente. Só que ao invés de pensar no desenvolvimento de uma criança, pense no seu trajeto de vida dentro do Parkour. Substitua todas as palavras referentes à “criança” pela palavra “tracer”. E então retorne até este ponto.

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Compreendeu?

Muitas vezes passa despercebido aos olhos dos praticantes, mas o Parkour tem essa capacidade incrível de ensino, descoberta, aprendizado e nova compreensão de mundo. Da mesma forma que um feto passou 9 meses preso, limitado e no conforto de seu mundo particular, éramos nós, praticantes, antes de conhecer a atividade. O Parkour te joga em um universo novo e estranho, onde você terá outros pais, mães, irmãos, mestres e amigos. Eles irão te estender à mão, dar apoio, palavras de incentivo e ficar ao seu lado, mas em nenhum momento poderão dar os passos por você. Alguns os escutarão, outros se farão de surdos. E da mesma forma que uma educação básica ineficiente pode criar um ser humano “ruim”, a orientação, ou melhor, a falta dela nos primeiros momentos junto ao Parkour, pode criar tracers “ruins”.

Agora me explica: porque ficar frustrado, com raiva ou revoltado com alguém que parou de treinar? A sensação deveria ser de vitória. Afinal de contas, aquela pessoa se propôs a uma aventura nesse novo mundo, encarou desafios, e os vencendo ou não, ela aprendeu alguma coisa. A experiência de vida não pode ser apagada e o mínimo de valores ou idéias que foram apresentados a ela, estarão presentes pelo resto de sua vida. E indo mais além, quem sou eu ou você para julgar o quanto de aprendizado já foi o suficiente? Podemos sim ter uma opinião e criticar atitudes, mas jamais obrigar alguém a ter o nosso mesmo pensamento ou menosprezar aquele que já completou uma parte de sua jornada.

Para alguns, estar envolvido com o Parkour se tornou sinônimo de viver, mas vale lembrar que a vida continua a existir para milhões de outros que não fazem à mínima idéia do ele é e do que pode representar. E cá pra nós, a vida por si só já é o maior dos obstáculos e que muitas vezes flow nenhum é capaz de deixar pra trás.

Então é isso. Da próxima vez que for lidar com um iniciante, trate-o como uma criança em seus primeiros anos de vida. E assim como fazem os bons mestres, seja um exemplo de caráter, conduta e boa informação para que ela possa um dia fazer o mesmo por alguém.

Piaget não conheceu o Parkour.
Mas algo me diz que ele foi um excelente tracer.

sábado, 24 de abril de 2010

O Parkour e o Egoísmo - Episódio Final


Fiquei um tanto surpreso com a repercussão da última postagem e por várias pessoas terem me apresentado alguns fatos isolados que se enquadram no propósito desse assunto. Definitivamente minhas dúvidas e incertezas são mais comuns do que pensava e partilhadas por outras pessoas na mesma situação.

Anteriormente já deixei claro o quanto estou feliz com o Parkour na minha cidade. Como uma semente que precisava de tempo para se desenvolver, parece que finalmente as pessoas pararam de enxergar a atividade como um esporte radical de final de semana e resolveram serem mais ativas. A mudança é evidente e não podia me matar mais de orgulho. Não tenho mais do que me queixar: hoje tenho excelentes parceiros de treino.

Em contrapartida, junto com esse “progresso intelectual” veio uma nova geração: recém-chegados que desembarcaram nesse novo Parkour Aracaju de melhores qualidades física e mental. E eis então que vejo o ciclo se repetir. Aprendi que essa espera é necessária para maturação e que cada pessoa tem seu próprio “tempo para despertar”. São novos praticantes cujas sementes estão sendo plantadas agora e que, se persistirem, irão se tornar meus futuros bons companheiros. Mas como devo proceder quando essas pessoas não querem esperar a árvore crescer para saborear os frutos?

Descobrimos um pico novo. Uma imensa casa abandonada, sem boa parte do telhado e que as coisas mais legais a se fazer estão acima de 5 metros de altura. Um erro de cálculo, a desatenção no momento crítico pode custar caro a todos nós. Nós. É essa a palavra que norteia esse texto.

Como dito na postagem passada, para existir uma boa disseminação do Parkour é necessário determinado sacrifício ou abnegação das pessoas. Não se deixe impactar com o sentido da palavra. Deixar de treinar para auxiliar alguém ou encorajar um amigo com palavras são sim pequenos atos de sacrifício. Às vezes não notamos, mas a doação ao próximo existe naquele momento e muitas vezes é preciso anular a nossa “vontade real” em beneficio da atividade ou do grupo com quem treina.

O “zumbido” que se encontra em minha cabeça e que atualmente perturba meus treinos está justamente quando as pessoas tornam-se egoístas e param de pensar no coletivo.

Lembra da casa que falei lá em cima? Agora, olha pra essa foto:




O menino ”voando” tem apenas 13 anos e treina a somente 6 meses. Inclusive, eu, pessoalmente, quem me encarreguei de conversar com os pais e cultivar neles um voto de confiança para a prática. Como fazê-lo entender que deveria partir dele a compreensão de que uma queda, naquela situação, significa um possível extermínio e o “caça as bruxas” do Parkour em nossa cidade? Eu tenho algum direito de interferir em seu livre arbítrio? Afinal de contas, em caso de um acidente serão quatro anos de luta jogados fora em quatro segundos.

Esse exemplo de descaso é extremamente comum. Nesse mesmo local costuma comparecer outra criança: menos de 10 anos de idade e que treina a mais ou menos um ano. Sempre ela está acompanhada dos irmãos mais velhos (inclusive, um maior de idade). Existe alguma maneira de eu conseguir manter o foco do meu treino quando pessoas se arriscam a minha volta?

Entendeu agora porque intimamente eu gostaria de aprender a ser um pouco mais egoísta? A solução do meu problema seria muito mais rápida se eu ignorasse minha responsabilidade, ligasse o “foda-se” e pudesse treinar normalmente.

Para poder usar o pico com tranqüilidade já cheguei ao cúmulo de ir treinar lá sozinho. A todo tempo me sentia como se estivesse fazendo algo de errado porque eu sabia que, se houvesse avisado ao grupo, eles teriam me acompanhado. Mas foi muito bom usar pela primeira vez aquele espaço como eu gostaria: com calma e sem receber de 5 em 5 minutos aquele choque na espinha quando alguém sem o devido preparo decidia se aventurar em algo com muito risco.

Ainda não tenho discernimento para proceder nesse tipo de situação. As soluções que passam na minha cabeça são todas muito agressivas e com certeza eu estaria ferindo o direito das pessoas que treinam comigo se as colocasse em prática (o que confirmaria egoísmo de minha parte, mesmo que bem intencionado).

Muito obrigado por terem conversado comigo no msn sobre o assunto. Eu até adiantei o “problema” para algumas pessoas e ouvi algumas sugestões. É um assunto um tanto delicado. Não somente o meu, mas sim, ter que lidar com pessoas que ainda não compreendem que as atitudes delas durante o treino repercutem diretamente na qualidade de imagem que o Parkour tem na sua cidade.

Seria tão legal e mais fácil se cada pessoa pensasse nisso antes de executar certas ações...

Confesso que agora estou um pouco apreensivo porque meus parceiros de treino recentemente descobriram a existência do meu blog. HUAUHAUHUAUHAUHAUHAUHA

Tudo bem Uilian, Wallace, Léo e Victors?
Espero que ninguém se sinta demasiadamente exposto ou ofendido com algo.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Parkour e o Egoísmo - Episódio I



Às vezes me questiono se o egoísmo é necessariamente algo tão ruim. Há pessoas que não sentem remorso em passar por cima de tudo e de todos para atingir os seus objetivos. E há aquelas que se desprovêem e se privam de prazeres em favor do semelhante. Defesas existem para as duas correntes: filosóficas, psicológicas e até mesmo biológicas. Estou cansado de me deparar com a conclusão de que o instinto humano de auto-satisfação é soberano e que somos todos egoístas por natureza. Não tenho interesse em entrar nessa discussão, mas solucionar a pergunta que me atormenta: “Como achar uma solução racional e coerente quando a falta de egoísmo direcionado prejudica minha satisfação pessoal?”.

Eta bixiga deixa eu dar uma pausa.

A pergunta é no mínimo estranha e eu espero que ela torne-se mais clara nas próximas linhas.

O Parkour aflorou em mim um senso de coletivismo que até então inexistia. Não que eu fosse um super egoísta, mas é que sempre fui meio lobo solitário e o principal responsável pelo sucesso das coisas que me envolvia. Um bom exemplo vem dos meus dias na ginástica olímpica: era comum repassar minhas séries até a exaustão; me fuder até que ela ficasse com o mínimo de falhas. Mas embora eu jamais negasse ajuda aos meus colegas, eu sentia que não tava nem aí pro desenvolvimento deles ou da minha equipe. O que eu queria de verdade era uma nota alta e uma medalha no meu peito ao final da competição.

Um proposito fixo e meios para executa-lo. Nota 10 em coerência!

Mas então entrou na minha vida essa peste de disciplina francesa e deu um sacolejão no meu senso individualista. Além do desafio de re-educar meu corpo para um novo propósito, o Parkour fez nascer em mim algo que eu pensava que Deus tinha esquecido me dar: A responsabilidade e o comprometimento de fazer parte da construção de algo que é mais importante que o meu umbigo.

Nos primeiros meses eu parecia um camelo do Saara diante de um galão de água de 10 litros: quase me afogo sugando o máximo de Parkour que as pessoas ao meu lado podiam oferecer. As lições as vezes demoram a chegar. O passar do tempo me fez descobrir que aquela sensação de ser a pessoa mais feliz do mundo que eu vivenciava ao subir muros e pular bancos, era também reproduzida quando eu ajudava um iniciante, traduzia algum texto, legendava um vídeo ou simplesmente explicava pra alguém o que era aquela coisa que eu tanto gostava.

Com a compreensão de mundo que tinha na época... isso é coisa de retardado!

Quem é que se sente feliz passando 36 horas na frente de um computador legendando um diabo de documentário que já tinha entendido de cabo a rabo? E realmente deve ser bem divertido usar as poucas horas de lazer que se tem na semana para realizar um cabrunco de treino fixo onde aparecem 1 ou 2 iniciantes e você fica que nem um retardado ensinando a criatura a ANDAR de forma coordenada. Puta merda! Tem umas peças-raras que quando vai no primeiro treino não consegue nem isso! E eu lá: “Vai... tenta! Você consegue! Braço direito! Perna esquerda! Respira!”.

Apesar de parecer fugir a "minha lógica", isso é (e deveria ser com mais frequência) normal dentro do Parkour. Existe um monte de gente lá fora que se sente da mesma forma: se doam, se preocupam e se propõe a ajudar “estranhos”.

Na tentativa de compreender racionalmente o porquê da minha mudança, eu atribuí o fato à condição de “não quero ser mais egoísta”. Não que eu esteja sendo severo demais comigo e retirando os meus méritos. Mas é que consigo lidar melhor com esse tipo de situação quando não me enxergo como um cara bonzinho, e sim alguém que esta pagando por um serviço. Criei a fantasia de que o Parkour é aquele desconhecido que fez um bem pra mim e eu tenho a obrigação de retribuir. Assim mesmo. De forma fria, crua e calculista. A paranóia chega ao ponto de eu me sentir um filho da puta mal agradecido quando só sugo coisas boas da atividade e não devolvo nada de útil pra ela. Inclusive, hoje, eu acho essa “troca de favor” essencial para o crescimento da prática. Afinal, se não fosse pelo interesse e dedicação dos que vieram antes de mim, não existiria um duddu-tracer pra digitar besteira nesse espaço.

Acabei me estendendo mais do que pretendia e não tocando na raiz do meu problema:

“Como achar uma solução racional e coerente quando a falta de egoísmo direcionado prejudica minha satisfação pessoal?”.

Acabou o expediente no trampo e eu tenho que ir pra casa. Ao menos consegui deixar aí em cima a contextualização do meu "problema" e espero que na segunda postagem dessa blog-novela eu consiga concluir minha idéia e mostrar o que de fato esta me incomodando.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Eu faço parte do Parkour Aracaju.


Nós conseguimos!


Você não faz idéia do quanto eu esperei para fazer uma postagem desse tipo! Sobre o Parkour da minha cidade... O motivo da minha felicidade? É que aqui em Aracaju nós temos um pico chamado “Parque dos Cajueiros”; um parque aquático que foi abandonado a 17 anos atrás. A ação do tempo fez com que ele ficasse totalmente inutilizado pelos aracajuanos normais, mas pra gente, os anormais do Parkour, aquele lugar sempre esteve bem vivo.

Além da vasta vegetação, o parque tem uma área de casinhas abandonadas (foda pras pessoas que querem perder medo de altura) e um labirinto coberto pelo matagal. Desde que comecei a treinar sempre tive olho gordo pra esse labirinto, mas o mato descontrolado e a presença de muitas plantas tóxicas (como urtiga) fazia a nossa relação ser praticamente platônica. O pouco que dava pra “arriscar” ficava comprometido pela má conservação do espaço.

Pausa.

Desde o começo do ano eu estava com as camisas do One Giant Leap, mas sem querer entregar de mão beijada pra galera. É que assim... O povo daqui é que nem burro empacado! Só se mexe na base do cacete! Então minha idéia era segurar a entrega das camisas até surgir uma oportunidade de chantageá-los com algo. Sei lá... Podia ser um treino extremamente pesado onde todos tivessem que participar e suar a camisa; ou uma ação social... mas eu não conseguia me decidir pelo que fazer. Até que uns dias atrás alguém surgiu (valeu Pedra!) com a idéia de ouro: “Porque não usar a camisa para fazer o pessoal limpar aquela área do labirinto?”.

Bicho... Depois que ele deu a idéia, era somente nisso que eu conseguia pensar!

Esperei todo mundo que treina em Aracaju voltar das férias e então lancei o desafio:
“Quer sua camisa do OGL? VENHA BUSCAR NA LIMPEZA!”

No dia marcado, cheguei lá de carro carregando 3 pás, 1 facão, 1 machadinha, 1 enxada e 1 balde. É que eu sabia que muitos não teriam como carregar esses materiais num ônibus. Fiquei preocupado quando deram 3 horas (o horário marcado) e só haviam 4 pessoas no local. O trabalho era imenso. O sol estava bem quente e a preguiça parecia que ia nos vencer. Mas começamos de forma tímida e já dizendo “se não der pra terminar a gente volta amanhã...”. Rapaz... Eu nem sei como pegar numa enxada direito, mas a necessidade se provou ser o melhor dos professores. Ficamos os cinco lá, lutando contra o mato e suando que nem panela de cuzcuz. E confesso que mais de uma vez eu pensei “O bando de preguiçosos não veio né? Só de raiva vou fazer uma fogueira com as camisas que sobrarem!!!”.



Mas isso não seria preciso (e é claro que eu sou bonzinho demais pra tanto!). A cavalaria foi chegando aos poucos: Três. Um. Quatro. Cinco. Teve um momento que eu parei o trabalho para contabilizar... E JÁ ERAMOS DEZENOVE. O trabalho evoluía a passos largos e enquanto limpávamos eu escutava pelos cantos “VELHO, VEM VER O QUE DÁ PRA FAZER AQUI!”.

Por vezes eu largava as ferramentas para registrar algumas fotos e não acreditava que enfim estávamos restaurando um pico fodastico e que eu sonhei durante muito tempo em treinar. Em pouco mais de 3 horas de trabalho ele estava pronto. A vontade de explorar cada canto do labirinto era tanta que marcamos o treino do dia seguinte pra lá. Antes de voltar pra casa eu passei na guarita da Policia Ambiental para avisar o que fizemos. Eu sei que deveria ter feito isso antes de começar a limpeza, mas esqueci completamente. Conversei com os guardas, eles viram as ferramentas em nossas mãos e deu pra notar no rosto deles um semblante de “Porra... esses meninos existem?”.

Tem 4 anos que eu pratico Parkour aqui em Aracaju. Que eu vejo iniciante começar e iniciante desaparecer. Que eu vejo todos os amigos que criei descobrirem algo mais legal para fazer. Pra você ter uma idéia... do meu primeiro treino não restou mais ninguém. Então pra mim, essa limpeza tem um gostinho especial: É a concretização de uma responsabilidade que eu pensei que jamais iríamos alcançar.

Foi a primeira vez que eu vi o Parkour Aracaju se empenhar ao redor de uma causa. Sempre era Duddu, Duddu, Duddu e eu que me arrombasse sozinho. Essa demonstração de "carinho" com o parkour me deu confiança para pensar em projetos maiores para minha cidade, confiante de que serei amparado por essas pessoas quando precisar.

Se alguns estavam ali somente pela camisa? Não importa.

Pra mim o que conta é que eles tiveram uma experiência em equipe e viram que “fazer a sua parte” realmente faz a diferença. Cada mato que Josué (10 anos de idade) tirava do labirinto tinha o mesmo valor e importância que o que eu (22) retirava. Nosso esforço em conjunto é que fez a atitude dar certo.



Eu realmente não poderia estar mais feliz ou orgulhoso.
Brigadão meninos!

PS: A partir desse sábado, todos os sábados as 3 horas tem treino fixo marcado nesse local. Com isso a gente pretende descobrir tudo que o novo pico pode proporcionar e estabelecer um ponto de encontro para ajudar os iniciantes.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

E o ano realmente começou!

Oi meu blog!!!
Nossa! Como eu tava com saudades disso daqui!

Mais de um mês sem postar nada e pode acreditar que não era por falta do que escrever! Assuntos houveram aos montes, o problema estava na falta de tempo mesmo! É que esse começo de ano está sendo cheio de novidades, mudanças e muito trabalho! Tem tanta coisa que eu preciso desabafar, tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo:

- A ansiedade e preocupação com o Encontro Nordestino;
- Os 10 dias junto ao Aaron (depois conto quem ele é);
- Os planos para se levantar a ABPK;
- A criação do "Pulo do Gato";
- O novo emprego;
- Os novos treinos em Aracaju...

Ah velho! É bom estar de volta!
Vou tentar conter minha ansiedade e tratar cada assunto com o seu devido valor.

No mais, que eu seja-bem-vindo!