
Bicho... é que eu escuto esse tipo de frase todos os treinos! “Não coma do chão!”, “Não pegue isso!”, “Largue de ser nojento!”, “Parece uma criança!”. E o pior é que quem fala tem talvez um pingo de razão!
Dando um mergulho no passado a gente encontra um duddu miniatura, já com óculos de garrafa, estatura semi-franzina e serelepe como toda criança em seus 6 anos de idade. Reza a lenda (e a capacidade de memorização das mães é incrível!) que nessa idade era um tormento sair na rua comigo. Como a quantidade de doces que eu ingeria era rigorosamente controlada, meus pais não podiam bobear porque qualquer bolinha de cor diferente que eu visse no chão já ia pra boca. Vocês dariam risada se escutassem minha mãe dizer que eu descolava chicletes pisados no meio fio e depois os mastigava esbanjando felicidade. Muitas vezes dava até pra ouvir os “crec!” do meu dente mastigando aquela borracha cheia de areia.
Eu cresci, né? E com noções básicas de higiene, cinturãozadas dos pais e a pressão social (a mesma que inibe a movimentação livre das crianças) o velho hábito de comer coisas estranhas desapareceu.
E demoraram 14 anos para que o Parkour fizesse acordar aquele ser "nojento" reprimido...
Calma! Calma! Não estou falando que peguei o hábito de mascar chiclete com terra! Mas sim do fato do Parkour ter me reeducado a ouvir o que eu quero fazer e aprender a ignorar o que querem que eu faça. Essa é uma ferramenta poderosa e que só deve ser colocada em prática quando se têm bom senso pra discernir até que ponto você não prejudica as pessoas a sua volta.
O Parkour transforma a forma como você enxerga o mundo. E por mundo não estou falando da arquitetura das construções ou do senso de proteção à natureza. Estou falando da redefinição de valores. A reforma íntima que cada praticante sofre. O novo guia de “como devo viver em comunidade” e o novo grau de tolerância às diferenças.
Muitas vezes minha situação no final de um treino é deplorável. Cara suja, roupa suja, mãos pretas e abertas de calo, calça rasgada na bunda e uma camelback fudida e nojenta nas costas (isso pra não falar do fedor!). É o quadro perfeito de uma criatura pronta para ser marginalizada. Mas será que preciso dar tanta atenção ao que irão pensar de mim?
Em dias de chuva eu entro em ônibus lotados e ainda assim existem cadeiras vazias porque uma janela aberta deixou a chuva molhar os acentos. Quando isso acontece meu sorriso se estende de orelha a outra. Todos ignoram o molhado, eu vou como um míssel em direção a ele. Afinal, aquilo é somente água e não ácido.
E quando o biscoito que acabei de tirar do pacote cai no chão? Se ele não tiver caído em merda de cachorro ou em escarro de bêbado... Eu vou comer! “Ai que vergonha!”. Porque? Vergonha é desperdiçar comida quando tantas pessoas (e eu mesmo) estão com fome.
Em praças de alimentação é que eu faço a festa! O cara compra um lanche CARÍSSIMO porque os amigos todos fizeram o mesmo, e então não agüenta comer a metade. Ele se levanta e deixa pra trás aquele punhado de batata frita que irá diretamente para o lixo! Pelo meu kong precisão!!! O que me impede de sair do lugar e retirar gentilmente as batatinhas antes que a servente chegue primeiro? Não é nojento. É econômico! Mata a fome e diminui o desperdício. Não causei mal a ninguém e nem irei pegar uma doença terminal. Então porque não o fazer? Porque as pessoas ao meu lado irão notar? Porque pode ter um amigo meu de faculdade secretamente me observando? Eles que vão cuidar de sua própria vida!
O Parkour trabalha esse lado mais ogro e “irracional” do ser humano. Estou acostumado a ver sangue na minha canela, lidar com cascas de ferida, com pús nos calos, lama, lodo, bosta humana nos picos e por isso não tenho tempo e nem saco pra frescuras.
Quem me viu nos últimos 6 meses deve ter reparado que meu óculos está remendado no meio. Ele abriu em dois pedaços quando eu calculei um cat errado e bati a cara numa árvore. Mas seria justo comigo mesmo (e com meu bolso) gastar 500 reais em um óculos novinho sendo que esse ainda me serve? Bastou uns toques de Magyver do meu pai e voilá! Tô enxergando de novo! Aqui no trampo essa semana até começou uma campanha “vamos dar um óculos novo pro duddu”. OIUWUQIUWIPOQIOPWUIPOUQIUIWOIQOP
“Oi mosquinha você ficou grudada no meu pudim? Caiu no meu pão? Não tem problema! Eu retiro o pedaço que você tocou e como o resto.”
“Moço não vai querer mais a coca-cola de 600 ml? Eu tomo o resto pelo senhor pra que não se desperdice. Já economizo o dinheiro do meu próximo lanche.”
“Não tem copo? Olha... tem um descartável ali no chão... vamos dar uma lavada nele que ele fica novinho!”
A cada dia tenho mais raiva de quem tenta me obrigar a manter a etiqueta e as aparências.
E olha que eu sou limpo, viu? Vocês precisam escutar as estórias do Pop bebendo água empoçada da chuva como se fosse um cachorro na sarjeta... mas essa fica pra um outro dia. ;)




