sexta-feira, 4 de março de 2011

Ajustando-se a necessidade



Postagem curta somente para deixar registrada as mudanças nos meus treinos:

1) Ir para o trabalho de bicicleta todos os dias.

Duas semanas atrás eu fui furtado no ônibus e com ele foi-se embora meu cartão de vale-transporte. Desde então tenho ido pro trabalho de bicicleta para economizar a passagem. Sempre reclamo que quanto mais eu faço flow mais eu vejo o quanto minha resistência é ruim. Então nada melhor do que implementar um exercício aeróbico diário pra me ajudar. São duas viagens duplas de ida e volta; o que deve me render pouco mais de 1 hora de pedalada. É pouco, mas continuamente é muito.

2) Passar a usar essencialmente meu lado esquerdo.

Faz muito tempo que venho adiando a cura pro meu problema de só usar meu lado direito e agora chegou a hora. Desde os últimos treinos tenho me mantido em alerta pra sempre dar prioridade a exigir sempre mais do meu lado esquerdo. Pra você ter idéia, apesar de conseguir climbar com as duas pernas, eu não consigo subir nem um muro de 3 metros se for batendo com a esquerda na parede. Pra mudar isso estabeleci algumas metas a serem cumpridas até o nordestino:

- Fazer kong já caindo direto na passada aterrisando primeiramente com a perna esquerda.
- Subir muro de 3 metros com a perna esquerda batendo na parede.
- Melhorar o speed e a passadinha (aquele speed rápido colocando a perna de leve no corrimão) pros dois lados.
- Aprender a fazer tic-tac com a esquerda.
- Perder o vício de quando bater tic-tac com a direita puxar a mesma perna direita pro muro/precisão.
-Iniciar minhas passadas com a perna esquerda sem precisar contar passos e sem me atrapalhar.
- Fazer cat-leaps caindo primeiro com a perna esquerda no muro (e climbar eficientemente depois).
- Fazer precisões não paralelas virando meu corpo pro lado esquerdo sem desequilibrar.
- Cravar precisões correndo saindo do chão com a direita (minha única movimentação em que a esquerda é prioridade por causa da flexibilidade que tenho ao levantar a perna direita).
- Aumentar o nível de flexibilidade de minha perna esquerda pra que ela se equipare a direita.

No início eu vou cair um bocado e minha movimentação será toda zuada. Na verdade já estou com um calombo na lombar porque cai de costas num cat-leap chegando no muro com a esquerda. Tô reaprendendo a usar meu corpo aos pouquinhos e esse é um projeto que pretendo continuar manter por um bom tempo (afinal, eu me eduquei pra dar prioridade ao lado direito durante 25 anos).

Comparado ao que estou acostumado, espero que eu tenha muita paciência pra suportar uma movimentação feia, ineficiente e sem potência. Mas que assim seja.

Neste final de semana eu completo 5 anos de Parkour. Meu presente pra mim mesmo é esse: Um duddu iniciante.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O corpo fala


Percebi que o ser humano quando gosta de algo, naturalmente desenvolve um código para identificar outras pessoas com esse mesmo padrão. Às vezes você reconhece essa paixão por símbolos óbvios e diretos: a faixa preta de uma arte marcial, o quarto pintado com a cor do time de coração, o bíceps de 42 centímetros e até mesmo aquela barriguinha que claramente veio do chopp com os amigos. Ás vezes se descobre por acaso, numa conversa de mesa de bar ou quando o assunto inesperadamente vem à tona. São sinais que disparamos (muitas vezes sem notar) e que acabam por “dar uma prévia” das características que constitui quem somos.

Na Grécia antiga, um guerreiro espartano era reconhecido pelo seu porte físico e pelo corpo esculpido, recorrente da alimentação controlada e do treinamento rigoroso. O regime de seleção que os bebês eram submetidos fazia com que praticamente todos eles, quando adultos, adquirissem o mesmo biótipo e comportamento (já que o sistema de ensino, treino e alimentação eram os mesmos para todos). Por esse motivo, acredito que um espartano seria capaz de reconhecer outro apenas com uma breve encarada.

Em se tratando de parkour, notei que existe um código de reconhecimento similar. E esse, até hoje, poucas vezes (ou nenhuma) falhou. Acontece que quando você se dedica muito tempo a subir muros, se pendurar em barras e ultrapassar blocos de cimento, ou então quando você absorve o que chamamos de “essência do parkour”, você se modifica, seu corpo se modifica e seu comportamento também. São três características que revelam muito o tipo de praticante que a pessoa é:

1 – Os calos da mão

Não adianta. Se eu for cumprimentar alguém e no aperto de mãos eu sentir aquela pele de bebê, lisinha, automaticamente eu não dou um real pela movimentação daquela pessoa ou pelo parkour que ela pratica. Pode me jurar de pé junto que treina cinco vezes por semana e que sobe muro de 7 metros. Dificilmente engolirei alguma palavra. Até hoje não encontrei um só praticante fanático por parkour que não tivesse calos grossos ou estourados na base dos dedos e na palma da mão.

2 – Cicatrizes e escoriações

Em algumas atividades cicatrizes são enxergadas como troféus ou resquícios de batalhas que se enfrentou. No parkour normalmente está associada ao tracer que durante uma movimentação foi idiota ou negligente. Mas não sejamos hipócritas: todo mundo que treina com afinco e scom dedicação diária acumula cicatrizes: seja na canela (precisões), seja no punho (cat-leaps) ou no joelho (kongs). Obviamente existem cicatrizes e cicatrizes. Há aquelas vindas do erro e da queda, e há aquelas vindas do treino bruto, condensado e constante (similar ao calejamento das mãos). Esse tipo de sinal, às vezes, deixa o entendimento ambíguo: ou o cara é um cara que treina já há muito tempo e passou por “n” situações dentro do parkour, ou então ele é somente um retardado que descobriu a menos de um ano e já acumulou todos os tipos de cortes, arranhões, fraturas e lesões possíveis. Normalmente a prova dos noves é o terceiro e último quesito que observo:

3 – Comportamentos no espaço que ocupa

Depois de um tempo, os tracers se tornam cidadãos super interessantes e bizarros. Ande lado a lado com um deles e, inevitavelmente, você o verá desviar a atenção pros corrimãos das fachadas das lojas ou pro topo dos prédios próximos uns dos outros. Como a cidade é o nosso parque de diversões, tudo nela nos chama a atenção e serve como local de treino. Isso pra não falar de quando a gente não se contém e anda na rua se equilibrando nos meio-fios, saltando as fendas das calçadas ou fazendo passadas nas riscas do chão.

Quando se anda em grupos, mesmo fora de horário de treino, as reações normalmente são as mesmas: “Dá pra fazer aquela precisão!”, “Êta cat-leap distante!”, “Um dia eu vou treinar aí!”. Se as vezes você não verbaliza, você pensa. É como um bando de tarados andando numa cidade onde todas as mulheres são absurdamente gostosas.

Vale lembrar que não adianta enrolar a si mesmo: o tempo de treino que uma pessoa tem não é contado a partir do momento que ela conheceu o parkour, mas sim com o quanto ela se dedica a ele e treina regularmente. Um ano treinando três vezes por semana é mais do que três anos treinando somente aos domingos.

Sei que preconceito é algo feio e que devemos evitar ao máximo possível. Mas, pra mim, não existe meio-tracer ou semi-praticante: Ou você é ou então você morre de inveja de quem treina de verdade e fica sorrindo de orelha a orelha tentando se enturmar.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Desabafo de um futuro ex-míope

Eu sei que o final de dezembro e o início de janeiro é o momento onde todo mundo acredita que o novo ano será o ano de suas vidas. São traçadas as mais variadas (e loucas) metas e que muitas vezes, por um motivo ou outro, não são cumpridas em tempo hábil. Há ainda os casos isolados, mas freqüentes, onde a preguiça e a comodidade reinam e quando dezembro chega novamente nem sequer lembramos dos votos e promessas que fizemos.

Nunca fui uma pessoa de contar tempo e nem de me empolgar com esse tipo de prática. Mas eu seria ignorante de não perceber quando a maré está pra virar. E por uma cadeia de acontecimentos recentes eu me asseguro e afirmo: Esse ano será o meu ano!

E o maior dos acontecimentos dele (e dos últimos 23 anos em minha vida) acontecerá agora na próxima segunda-feira, dia 24 de Janeiro: Minha cirurgia de refração!

Contextualizando, eu sou míope desde os dois anos de idade. Não sei ao certo se já nasci com miopia ou se os inúmeros problemas que passei nos primeiros anos de vida foram os responsáveis por ela. O que interessa é saber que hoje tenho 25 anos, 9 graus em de miopia e 1 grau de astigmatismo em cada olho. Pros que não entenderam nada, isso é considerado um caso tão avançado que os médicos me indicam que seja feito mapeamento ocular anual por que sou candidato a descolamento de retina (um “acidente” que pode me deixar cego ou com a visão mais comprometida ainda).

Para ter idéia de como minha visão é sem os óculos basta imaginar que eu sou incapaz de identificar pessoas que estejam mais distantes do que meio metro. Se for com um metro, eu ainda sou capaz de te reconhecer, mas só se já tiver gravado a forma do seu corpo, do seu rosto ou a cor da roupa que está usando. Ler a distância? Nem outdoors com fontes gigantescas e nem aquele “M” gigante que fica em cima dos Mc Donalds (de qualquer distância)...

Mas esses ainda são pormenores na vida de um míope. Para mim, o grande problema sempre foi à perda de qualidade de vida e a dependência. Quando perco meus óculos, ou eles quebram, eu me torno um ser parasita. Simplesmente não há condições de me orientar, locomover ou viver sem ter alguém que me providencie todas as referências que me faltam. Alguns de vocês que lerem esse texto convivem comigo e já devem ter passado por uma ou outra situação ao meu lado. Pois saiba que além de ser embaraçoso e incômodo, normalmente eu sinto muita vergonha.

Outro, e tão importante quanto, problema na vida de um míope, é a limitação do mundo e do espaço a sua volta. Atividades que para todos são normais e corriqueiras, para nós, não passam apenas de vontades não realizadas. Coisas muitas vezes simples como usar um óculos escuro, assistir cinema 3D, mergulhar com óculos de natação e cair cansado no sofá e dormir sem se preocupar.

Isso pra não comentar do valor estético: óculos para muitos são acessórios de aprimoramento de beleza, para mim são artefatos do enfeiuramento. Convenhamos, tem que ser mais míope que o míope para achar que um óculos onde a lente tem a espessura do seu dedo deixa o cara “bonito”. Todos os anos era uma briga sem fim com os oftalmologistas e óticos: “Moço, pelo amor de deus faz essa lente ficar fina!”. Os processos para isso custavam cerca de 500 reais (só nas lentes) e ainda assim o resultado final me causava mais revolta do que alívio.

Já falei tão mal de tudo e ainda nem entrei na prática de atividades físicas, né? Uma vez, durante o campeonato sergipano de ginástica, me senti extremamente humilhado porque a banca de arbitragem não me deixou executar meu salto sobre o cavalo com meus óculos. Sem eles eu literalmente entrei no cavalo e me estabaquei sem honra e sem dignidade do outro lado. O que me irritava e fazia a lágrima descer é que eu era favorito ao título nesse dia. Depois de uma confusão, meu técnico conseguiu que meu segundo salto fosse feito com óculos e, como contaria a nota do maior, consegui sair de lá com o ouro no peito. Mas como podem ver, nem ele foi capaz de apagar a “ferida” internalizada naquele dia.

Hoje no Parkour eu tento levar minha condição de míope sem estresse e na brincadeira. Desde o primeiro dia tive a idéia de ir num armarinho e comprar elásticos de roupa para prender meus óculos no rosto, e por esse motivo que tenho liberdade para correr e girar o rosto bruscamente sem que ele saia voando por aí. O que incomoda enormemente e atrapalha minha movimentação é que eu não tenho visão periférica! Só enxergo e considero os elementos ao meu redor que estão dentro do meu campo de visão (que é determinado pelo tamanho da minha lente). Ou seja: cerca de metade de minha visão continua prejudicada mesmo com os óculos. Todas as margens (superior, inferior, lateral esquerda e direita) inexistem. Pra enxergar completo, ou saber o que está acontecendo ao redor, eu preciso virar o rosto. Isso é muito ruim porque prejudica os cálculos que precisamos fazer nas precisões, nas passadas, nos laches. Prejudica até mesmo o meu correr, pois eu corro enxergando o que está à frente e detalhes laterais exigem que eu vire o pescoço pra tomar conhecimento.

E ainda tem o problema de o óculos dar uma “tremidinha” na cara durante um salto ou uma movimentação mais pesada... hahahahahuhauhhua! Já pensou você no meio da precisão de barra pra barra e sua visão embaçar completamente e voltar milésimos de segundo depois? Pois é. Enfrento isso com certa freqüência e te digo que é horrível, assustador e frustrante (principalmente quando te faz errar a movimentação ou se machucar).

Mas o momento de lamentar está acabando. São somente mais cinco dias até a cirurgia e pra quem já esperou 23 anos isso é fichinha de suportar.

Eu queria falar um pouco de como ela será, da minha expectativa, do pré e pós-operatório, mas essa postagem já ficou maior do que deveria. Acredito que o mais importante com ela já foi alcançado: colocar em palavras aqui o quanto estou ansioso por isso e o quanto esse passo significa pra mim. É uma das mudanças mais drásticas da minha vida e, ao mesmo tempo em que estou com medo, estou também excitado pelo que me aguarda e de como será o meu novo mundo depois dessa segunda-feira.

Espero te ver em breve depois dela. Te ver... vendo.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Medroso não, previdente!



Embora não pareça eu não tenho medo de altura. Tenho sim, medo de me machucar, o que transforma tudo numa situação completamente diferente.

Quem já me viu treinar alguma vez, pode facilmente ter percebido que não sou bem um tracer dominado pela adrenalina, fascinado pelo mais distante ou ansioso pra fazer o que existe de mais alto. As duas coisas que mais me fizeram apaixonar pelo Parkour foram às corridas desenfreadas e os flows ininterruptos. E pra ser bastante sincero, acredito que a alma da atividade seja essa mesmo. Então, obviamente, eu tenho sempre em mente, em cada movimentação que executo, a obrigação interna de trabalhá-la para ser mais veloz sempre e sempre.

Outra característica minha que pude notar com os anos é que, embora eu faça algumas coisas muito bem, não sou bem um especialista em determinação (talvez já tenha sido um dia). Hoje eu treino de tudo, sei um pouquinho de cada tipo de técnica e por isso, nos flows, consigo sempre me virar muito bem com as armas que disponho.

Mas me ver nas alturas é algo muito raro. E isso acontece basicamente por ação do meu instinto de conservação. Na minha mente, não se trata de uma questão de correr riscos, mas sim de não atentar o cão com reza e não dar chance de acontecer o que eu não posso controlar! Eu faço. Eu sei. Eu consigo. Mas não faço e ainda continuo tendo a certeza que sei e que consigo. E o pior é que todas as vezes que faço algo que não ache desnecessário ao meu objetivo com o Parkour, eu fico com aquela sensação de “Tá legal, Eduardo... e provou isso pra quem? Você já sabia que conseguia... correu o risco de acontecer algo de ruim por quê?”.

Existem situações no Parkour onde qualquer deslize (seu, do material, do acaso, das pessoas a sua volta, da atmosfera ao seu redor, da bomba que explodiu ao fundo...) pode te trazer uma conseqüência drástica pro resto da sua vida. E eu amo demais viver! Demais mesmo! Meu salto pode ser perfeito, eu posso estar perfeito naquele momento, mas tudo de ruim ainda assim pode acontecer e eu gosto demais de minha vida pra colocá-la a disposição do deus-dará.

Meu parkour é rasteiro. Eu quero correr e passar tudo rápido, basicamente. Nunca senti necessidade (e nem vontade) de saltar de um telhado pro outro ou cravar aquela precisão de 6 metros de altura. Porque na verdade eu sempre tenho medo de me machucar. Eu sempre treino Parkour com muito medo. É tanto que se já treinou comigo você sabe o quanto eu testo tudo! É mMedo de que o galho esteja podre, medo de que o muro não esteja firme, medo de o que não pude testar antes se torne meu inimigo, medo de que a barra que parece segura tenha conseguido me enganar... E eu consigo facilmente continuar essa lista.

Enquanto treino minha mente avalia todo o espaço ao redor e tenta calcular todos os riscos em que me encontro exposto. Tudo aquilo que não contribua para que eu atinja o meu objetivo de ser um cara extremamente rápido, normalmente é descartado. E tudo aquilo que possa me colocar em um risco onde a falha do universo (não a minha) possa me machucar, também é descartado.

Eu sei que não posso ser controlador total do meio em que me encontro e que isso é uma trava psicológica que eu devo romper. Mas às vezes me pergunto: Devo mesmo, e por quê? Não sou eu o cara que acha ruim quando dizem que Parkour é uma atividade arriscada?

Estou seguro em dizer que as habilidades que tenho hoje já me satisfazem. Claro que tenho muito a lapidar. Muito a compreender sobre mim mesmo e muito mesmo a me disciplinar. Meus treinos atuais têm se dedicado a isso: aumentar ainda mais minha velocidade, ficar mais forte, ter mais fôlego pra agüentar flows por mais tempo e realizar minhas movimentações de forma aceitável aos meus padrões de segurança e ego. O resto pra mim são anexos (entenda por isso: coisas não tão primordiais, mas que ainda assim fazem e farão parte dos meus treinos).

Não precisa se preocupar pois embora pareça essa não é uma postagem de comodismo e sim um reconhecimento de quem eu sou no Parkour, quais os valores que me orientam e pelos quais eu vou lutar pra alcançar. Definido tudo isso: hora de trabalhar!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Anteriormente em... e Futuramente em...

Oi. Sabe quem sou eu? Aquele cara da foto ali do canto e que costumava postar aqui de 15 em 15 dias... Mas acontece que eu comecei a ser melhor remunerado por outros blogs e só agora que eu fui lembrar que isso aqui ainda existia.Tá. Óbvio que eu tô mentindo.

Não fui contratado por nenhum outro blog e muito menos eu tinha esquecido desse daqui. E seria meio difícil isso acontecer uma vez que toda hora alguém me lembra que estou em atraso com as postagens. Muito obrigado por isso, viu? Fico muito feliz em saber que o meu aprendizado de certa forma acaba servindo para o de quem lê também. (Taci, Bjo!)

Então essa postagem não terá um tema fixo. Vou somente prestar contas pelo meu sumiço e esperar que o meu perdão venha com as novas atualizações que, por incrível que pareça, foram sendo anotadas por mim em um bloco de notas durante todo esse tempo.

Começando pelo www.pulodogato.parkour.com.br. Para as pessoas não ligadas ao Parkour esse site e nada é a mesma coisa. Mas saibam que o Pulo do Gato foi o grande vilão do meu sumiço. Trata-se de uma empreitada iniciada por mim e pelo Jean Wainer e que desde fevereiro desse ano (mais ou menos quando eu sumi) trás o máximo de informação possível para praticantes de Parkour.

Falando sério, sem brincadeiras ou hipérboles: só quem está por detrás tem noção de como assumir uma responsabilidade no nível do PdG é desgastante! Já houve casos de eu correr pra atualizar o blog durante uma viagem, ou então acordar assustado por ter esquecido do prazo para entrega do Saut de Cast (podcast semanal do site). Olha... é algo que assumi de coração e por amor ao Parkour. Não me arrependo um único dia, mas reclamo e reclamarei eternamente pra caralho! Dá uma passada lá de vez em quando e reclama do que não gostar pra me fazer feliz!

Projetos dentro do Parkour é o que não faltam. Esse ano fica marcado na história do Parkour Sergipe porque em 5 anos tivemos o maior boom de organização. Levantamos aos trancos e barrancos e mediante muita conversa e pontapés a Associação Sergipana de Parkour. Tudo está crescendo de forma bem gradativa. Sem apressarmos nada e prefiro que seja assim para que a gente aprenda realmente a melhor forma de conduzir as variadas opiniões e tomemos os melhores rumos. O site também já está no ar (www.aspk.org.br), mas como puderam notar ainda o estamos deixando 100% funcional. Não sei definir quem teve mais importância pra mim em 2010 se a ASPK ou o PDG... Tenho muito orgulho de fazer parte disso.

Falando rapidamente da vida parkouriana esse ano teve Encontro Amiguense de Parkour (fodasticamente organizado pela ASPK), várias visitas sem que fossem necessários encontros (onde vieram para minha casa pessoas por quem eu devoto a parte colorida do meu coração), encontros variados (como o carioca, baiano, virada esportiva...). Vixe! Cada um com seu valor especial e que me proporcionou momentos únicos.

Ultimamente estou focado em trabalhar em cima do 4º Encontro Nordestino de Parkour, que acontecerá aqui em Aracaju dos dias 21 a 24 de abril e que, se depender de nosso trabalho, será uma das melhores edições realizadas do evento (digo isso porque eu estava também por trás das outras três...).

E pra fechar o assunto “Parkour”... eu perdi o Encontro Brasileiro desse ano.... pois é! P-E-R-D-I!

Fico até envergonhado de conversar com os Omnis e com meus amigos que tinham minha presença nele como certa. Acontece que é um dos eventos mais esperado por todos e que nesse ano teria um gosto ainda mais especial: A reviravolta que aconteceu no Parkour do Rio de Janeiro. O encontro carioca foi uma escola de aprendizado pra mim e eu esperava aprender ainda mais no brasileiro. Os Omnis são simplesmente fodas. Os cariocas que eu não conhecia antes são fodas. E, só por ter perdido a oportunidade de estar mais uma vez com essas pessoas, eu já estou me chicoteando diariamente.

Mas eis o bom motivo: Não pude ir pro evento porque tive que gastar o meu dinheiro com exames para minha cirurgia de miopia!

Você leu certo! Vou deixar mesmo de ser semi-cego!

De última hora meu médico me solicitou dois exames em cada olho que somavam 500 reais. A quantia desfalcou meu bolso e me impediu de comprar as passagens do brasileiro (que estavam entre 800 e 1000 reais). Confessa vai! Foi um bom motivo não foi? Tenho certeza que os omnis e meus amigos irão me perdoar quando me virem pulando lindamente por aí (não... não irei fazer plásticas também... imbecil!).

Estou às vésperas da cirurgia e me cagando de medo. Vou utilizar o método PKR e pelo que já andei lendo sobre a cirurgia (não tive coragem de ver o vídeo) trata-se de uma cirurgia mesmo, com direito a tudo de ruim que uma cirurgia tem. E eu que achava que só iriam aplicar colírio no meu olho, mandar olhar pra luzinha e então já voltava pra casa com olhos de águia...

Minha vida no trabalho está ótima. Enfim foi instaurada a normalidade e não tenho muito do que reclamar. E minhas férias serão depois de abril. Se preparem pra me ver sumir de novo nesse período, pois eu espero viajar o mês inteiro!

Minha vida na faculdade está ótima também: perdi todas as matérias do período 2010/2. Isso significa que me formarei somente no final de 2011. Mas pudera também... eu simplesmente NÃO CONSEGUIA ficar acordado nas aulas chatas de Estágio Supervisionado, daí resolvi ficar dormindo em casa mesmo. =x

Se tenho metas para 2011? Várias! E dentre elas:

- Colocar em prática os projetos em andamento da ABPK.
- Terminar toda a parte de organização da ASPK e mantê-la funcionando perfeitamente.
- Alavancar ainda mais o GT, o Ibyanga, o Parkour Nordeste, o PdG e o Portal Parkour.
- Me operar dos 9 graus de miopia que me perseguem desde os dois anos.
- Começar aula de canto.
- Passar em um concurso público.
- Aprender a dirigir (embora eu já tenha carteira).
- Concluir minha faculdade.
- Ter mais paciência com gente burra.
- Assistir o máximo de musicais em São Paulo e no Rio de Janeiro.
- Melhorar meu físico ao ponto de ter vergonha do meu estado atual.
- E escrever novamente no mês de dezembro uma postagem repleta de comemorações.

No mais gostaria de agradecer a todas as pessoas que fizeram parte de meu 2010. Seria impossível listar todas elas aqui, pois tem gente que me faz um bem diário e eu nem mesmo os conheço!

Mãe, Pai, Rick, Cíntia, Nick, Gigi, Carol, Gabriel, Vó, Guga, Léo, Fábio Gomes, Pi, Pop, Bata, Inha, Pri, Túlio, Pipou, Jarbas, Jean, Beto, Cida, Solange, Uilian, Wallace, Lipe, Ícaro, JJ, JC, Raxaman e alguns que eu esqueci, mas que sabem que mereciam esse mesmo destaque... meu ano não seria o mesmo sem vocês!

Que venha 2011!

PS: E eu prometo que essa não será ainda a última postagem de 2010.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Amiguense de Parkour



Durante a elaboração desse encontro nos fomos questionados: “Porque um nome tão feio e com erro de português?” e ouvi ainda conselhos do tipo “Com um nome melhor vocês conseguem mais patrocínios.”. A explicação:

Em 2008 aconteceu a primeira edição. Nessa época eu fazia mais treinos fora do estado do que aqui em Sergipe. As pessoas que tinham começado a treinar comigo subitamente encontraram coisas mais importante pra fazer; e os até então “atuais” não levavam os treinos a sério e só apareciam de vez em nunca. Não havia comprometimento e por isso eu viajava quase todos os finais de semana.

Por esse motivo, não me lembro se o Edi ou o Bata, teve a brilhante idéia: “Você viaja tanto pra treinar nos nossos picos, agora é nossa vez de ir todo mundo treinar nos seus. Se vire!”. Me desesperei quando esses idiotas convidaram gente de 3 estados pra vir pra vir pra Aracaju.

Eu era sozinho, não tinha estrutura e não fazia idéia de como me organizar. Mas a vontade de ter essas pessoas por perto e na minha cidade era superior ao medo de dar tudo errado. Corri que nem um doido e arrumei uma casinha pra alugar que serviu de abrigo pra todo mundo (no café, pão com mortadela... e no almoço, pão com mortadela). HUAUHHUAHUAAHUHUHUA!

O encontro foi inesquecível, mas até o último dia ele não tinha um nome (encontro é apenas uma desculpa para rever os amigos). Numa das muitas conversas eu soltei: “Isso aqui tá mais pra um encontro amiguense”. O nome pegou e no ano seguinte eu já escutava a cobrança de pessoas que nem tinham vindo pro primeiro: “Quando terá de novo um Amiguense de Duddu?”.

Dois anos se passaram. As pessoas amadureceram, o Parkour Aracaju e o evento também. Na terceira edição que aconteceu no último final de semana, disponibilizamos:

- Alojamento com colchões, banheiro e ar condicionado para todos os participantes (inclusive os de Aracaju);
- Almoços e camisas gratuitas;
- Água acessível nos alojamentos e treinos;
- Ônibus fretado para transporte dos tracers pro treino de madrugada;
- Autorizações para treinos em todos os picos que precisamos;
- E fomos buscar pessoalmente cada um na rodoviária.

E tudo isso apenas pelo prazer de receber elas em nossa casa. Desde antes da organização do evento dissemos: “Só se preocupem com o dinheiro da passagem e com as demais alimentações.”. O resto, a gente banca.

Sergipe é o menor estado do Brasil e ainda assim conseguimos com nossa iniciativa trazer 35 pessoas de fora pra treinar e conviver. Estatisticamente isso é muito!

O Amiguense não é um encontro exclusivo da panela. É um encontro que tem como objetivo tratar todos os participantes como amigos e deixar bem claro: “Venha! A gente faz questão de ter você aqui com a gente!”. E isso não é da boca pra fora. Dos 35 visitantes eu já conhecia 30. São amigos encontrando amigos e fazendo novos amigos. E é claro que isso regado a treinos de Parkour até o seu corpo dizer que não agüenta mais (que foi justamente o que aconteceu com a maioria).

Depois de tudo isso eu não posso acabar a postagem sem tocar na ferida de muitos:

Não gosto de gringos-showman porque isso claramente desvia o foco dos treinos para a “estrela” e serve como catalizador de moda-cabeça-de-bosta pro evento.

Não gosto de mídia porque ela torna o ambiente tenso e inibe a espontaneidade dos participantes. Quando é utilizada com bom senso ela é uma mão na roda e ajuda a melhorar a condição do Parkour na cidade e no Brasil. Mas não é isso que normalmente vemos acontecer.

Não gosto de cobrar taxas porque isso claramente limita a chance de mais pessoas vir ao evento. Treino com pessoas maravilhosas e que não tem dinheiro nem pra pagar o ônibus pra sair de casa pra treinar, imagine o que falar de um amigo que mora em outra cidade e que já tem que se preocupar com a saída de seu estado.

Um bom encontro de Parkour, pra mim, reside na felicidade e na descontração durante todo o evento. É você abrir as portas e um sorriso para que todas as pessoas, sem restrição de poder aquisitivo, naturalidade ou qualquer outro meio de segregação, possa participar e doar um pouco de si ao evento.

Diferente do que muitos argumentam, é possível sim fazer um encontro de qualidade, bem organizado e com objetivo único e exclusivo de reunir praticantes, treinar pra caralho, ser feliz pra caralho e com tudo isso acontecendo gratuitamente.

Acabamos de provar isso (novamente) no último final de semana. E olha que o patrocínio que arrecadamos (batendo de porta em porta e recebendo vários “nãos”) não seria suficiente pra pagar nem a ida de um gringo até o aeroporto.

Como já dito milhões de vezes nesse blog, essa é apenas a minha opinião. Não sou "o" certo. Não sou contra o que fazem os organizadores de eventos de Parkour (até porque a grande maioria eu conheço e são grandes amigos). E muito menos estou dizendo que me recuso a ir a eventos que não se enquadrem em meus termos.

Se prestar atenção lá em cima eu disse que “não gosto”. Apenas isso.

Muitas vezes prefiro ir pro encontro Pirapozinho de Parkour anunciado no blogspot dos meninos, do que pro Brazilian-Senegal International Parkour Meeting. Não diminuindo o mérito de um em função do outro, mas afirmando claramente onde eu me sentiria melhor adaptado.

Enquanto puder, eu vou continuar fazendo meu 110% pelos encontros que realizar, pelo Parkour e pelos tracers. E estou muito feliz em ver que existem pessoas dispostas a fazer o mesmo.


Obrigado a todos por mais um Amiguense inesquecível!

sábado, 14 de agosto de 2010

Não coma do chão!



QIOUPWIUPUEIUQIWIPOQIUPOWIPQIWUIQUIOWYQIUYWUQYUWIIUOQW Foi mau aí, mas é que não tem como começar essa postagem sem dar uma boa risada!

Bicho... é que eu escuto esse tipo de frase todos os treinos! “Não coma do chão!”, “Não pegue isso!”, “Largue de ser nojento!”, “Parece uma criança!”. E o pior é que quem fala tem talvez um pingo de razão!

Dando um mergulho no passado a gente encontra um duddu miniatura, já com óculos de garrafa, estatura semi-franzina e serelepe como toda criança em seus 6 anos de idade. Reza a lenda (e a capacidade de memorização das mães é incrível!) que nessa idade era um tormento sair na rua comigo. Como a quantidade de doces que eu ingeria era rigorosamente controlada, meus pais não podiam bobear porque qualquer bolinha de cor diferente que eu visse no chão já ia pra boca. Vocês dariam risada se escutassem minha mãe dizer que eu descolava chicletes pisados no meio fio e depois os mastigava esbanjando felicidade. Muitas vezes dava até pra ouvir os “crec!” do meu dente mastigando aquela borracha cheia de areia.

Eu cresci, né? E com noções básicas de higiene, cinturãozadas dos pais e a pressão social (a mesma que inibe a movimentação livre das crianças) o velho hábito de comer coisas estranhas desapareceu.

E demoraram 14 anos para que o Parkour fizesse acordar aquele ser "nojento" reprimido...

Calma! Calma! Não estou falando que peguei o hábito de mascar chiclete com terra! Mas sim do fato do Parkour ter me reeducado a ouvir o que eu quero fazer e aprender a ignorar o que querem que eu faça. Essa é uma ferramenta poderosa e que só deve ser colocada em prática quando se têm bom senso pra discernir até que ponto você não prejudica as pessoas a sua volta.

O Parkour transforma a forma como você enxerga o mundo. E por mundo não estou falando da arquitetura das construções ou do senso de proteção à natureza. Estou falando da redefinição de valores. A reforma íntima que cada praticante sofre. O novo guia de “como devo viver em comunidade” e o novo grau de tolerância às diferenças.

Muitas vezes minha situação no final de um treino é deplorável. Cara suja, roupa suja, mãos pretas e abertas de calo, calça rasgada na bunda e uma camelback fudida e nojenta nas costas (isso pra não falar do fedor!). É o quadro perfeito de uma criatura pronta para ser marginalizada. Mas será que preciso dar tanta atenção ao que irão pensar de mim?

Em dias de chuva eu entro em ônibus lotados e ainda assim existem cadeiras vazias porque uma janela aberta deixou a chuva molhar os acentos. Quando isso acontece meu sorriso se estende de orelha a outra. Todos ignoram o molhado, eu vou como um míssel em direção a ele. Afinal, aquilo é somente água e não ácido.

E quando o biscoito que acabei de tirar do pacote cai no chão? Se ele não tiver caído em merda de cachorro ou em escarro de bêbado... Eu vou comer! “Ai que vergonha!”. Porque? Vergonha é desperdiçar comida quando tantas pessoas (e eu mesmo) estão com fome.

Em praças de alimentação é que eu faço a festa! O cara compra um lanche CARÍSSIMO porque os amigos todos fizeram o mesmo, e então não agüenta comer a metade. Ele se levanta e deixa pra trás aquele punhado de batata frita que irá diretamente para o lixo! Pelo meu kong precisão!!! O que me impede de sair do lugar e retirar gentilmente as batatinhas antes que a servente chegue primeiro? Não é nojento. É econômico! Mata a fome e diminui o desperdício. Não causei mal a ninguém e nem irei pegar uma doença terminal. Então porque não o fazer? Porque as pessoas ao meu lado irão notar? Porque pode ter um amigo meu de faculdade secretamente me observando? Eles que vão cuidar de sua própria vida!

O Parkour trabalha esse lado mais ogro e “irracional” do ser humano. Estou acostumado a ver sangue na minha canela, lidar com cascas de ferida, com pús nos calos, lama, lodo, bosta humana nos picos e por isso não tenho tempo e nem saco pra frescuras.

Quem me viu nos últimos 6 meses deve ter reparado que meu óculos está remendado no meio. Ele abriu em dois pedaços quando eu calculei um cat errado e bati a cara numa árvore. Mas seria justo comigo mesmo (e com meu bolso) gastar 500 reais em um óculos novinho sendo que esse ainda me serve? Bastou uns toques de Magyver do meu pai e voilá! Tô enxergando de novo! Aqui no trampo essa semana até começou uma campanha “vamos dar um óculos novo pro duddu”. OIUWUQIUWIPOQIOPWUIPOUQIUIWOIQOP

“Oi mosquinha você ficou grudada no meu pudim? Caiu no meu pão? Não tem problema! Eu retiro o pedaço que você tocou e como o resto.”

“Moço não vai querer mais a coca-cola de 600 ml? Eu tomo o resto pelo senhor pra que não se desperdice. Já economizo o dinheiro do meu próximo lanche.”

“Não tem copo? Olha... tem um descartável ali no chão... vamos dar uma lavada nele que ele fica novinho!”

A cada dia tenho mais raiva de quem tenta me obrigar a manter a etiqueta e as aparências.

E olha que eu sou limpo, viu? Vocês precisam escutar as estórias do Pop bebendo água empoçada da chuva como se fosse um cachorro na sarjeta... mas essa fica pra um outro dia. ;)