segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A Reapropriação Errada do Espaço



Uma das singularidades que o Parkour faz despertar em seus praticantes é a compreensão de que os espaços delimitados pelo cimento, construções e matéria orgânica não são mais inacessíveis.

Uma árvore pode ser escalada, um muro pode ser transposto, um corrimão pode ser saltado ou, por pura opção nossa, ele pode ser apenas ignorado. A movimentação e o controle que se adquire sobre ela faz de todo e qualquer praticante um “decriptador“ do espaço: um ser capaz de analisar, identificar e tomar posse de qualquer local ao seu bel prazer. Muitas vezes isso rende algumas situações peculiares como conversas com seguranças, invasão de espaços abandonados, debates filosóficos com outros cidadãos...

Esse jogo de caça; essa certeza de sua natureza, e por que não dizer, o propósito do Parkour em se apropriar do ambiente ao redor, é uma das coisas que mais apaixonam praticantes, sociólogos, arquitetos e admiradores da prática. Vivemos em um mundo onde os cadeados, as cercas, as delimitações e os limites territoriais nos prendem em um espaço isolado. O Parkour e os seus praticantes fazem essa realidade cair por terra e se negam, inteligentemente e de forma imponente, a se conformar com o papel que nos foi imposto: ratos presos em um laboratório gigante denominado sociedade.

Foi assim que sempre me senti dentro da prática e é essa aventura que vejo a cada dia se perder.

No contra-fluxo das minhas reflexões tenho sido bombardeado com as construções próprias para o Parkour. São academias especializadas, praças dedicadas, espaços imensos e com todo aparato imaginável. Mas são se resume a somente o luxo. Eles são também pneus empilhados, lixo reaproveitado, areia e suor dos praticantes em fazer daquele espaço algo que possa ser chamado de “seu”. Nasce no Brasil, o pico do gato, do cachorro, do papagaio... Não entendo porque não nomearam nenhum deles de o “Pico do homem”... Afinal de contas, os animais que estarão presos dentro dele seremos nós mesmos. Presos e vendados.

A necessidade humana de "ter o controle" e "ser o dono" parece ter nos atingido de cheio de uns anos para cá. As pessoas não parecessem mais se contentar com a posse mental. É preciso o domínio, a autorização e a burocracia. O “é meu.”

A que ponto já chegamos e aonde estamos nos dirigindo com isso tudo?

A cada 10 praticantes que você entrevistar a respeito do Parkour advinho que no discurso dos 10 você encontrará a palavra “liberdade”. Que liberdade seria essa presa dentro de um retângulo ou limitada por um papel?

Vejo a “visão tracer” a cada dia ser mais ignorada. Construções que antes do Parkour eram ignoradas por todos nós, infelizmente têm voltado a ser ignoradas. Estamos regredindo a passos largos e nos viciando ao luxo e ao ego.

Eu considero que no Parkour não deveria haver nem sequer a denominação de “pico”. Quando delimitamos, nos apropriamos. E eu não me considero dono de nada. O “pico”, para mim, nada mais é do que um espaço (em comum a todas as pessoas do planeta) propício a um número maior de movimentações, que comporta um número maior de pessoas e que pode ser utilizado para que eu desenvolva as aptidões de que preciso. Mas o Parkour não está fechado ou isolado a ele. O Parkour é uma ferramenta minha para ser utilizado em qualquer espaço ou situação que eu sinta vontade. Meu pico é o planeta.

Em 2006 criticamos as pessoas que vestiam a roupa do treino, se tornavam super-herois no final de semana, e na segunda-feira deixavam o parkour detrás da porta e voltavam a se mesclar na multidão. Agora as pessoas vestem sua fantasia, se dirigem para o seu palco, dão o seu show particular e voltam para casa realizados. É isso? Sinto que não fui convidado para esse carnaval.
O que mudou de lá pra cá?

A crítica velada nesse texto não tem intenção de ofender. Tem intenção de pensar e fazer pensar. Praticante de Parkour está acostumado a se iludir e achar que é a última bolacha do pacote, quando na realidade, em sua maioria, são os seres mais ignorantes que podemos encontrar: os que não sabem do que falam e ainda querem ter alguma razão.

Não concorde comigo, reflita.

E se puder, quando voltar pra casa depois do seu trabalho ou da sua escola, observe o mundo ao seu redor: a construção da cidade, a casa abandonada, as frentes das lojas, a praça que nunca visitou, o posto de gasolina em reforma, o viaduto que fica deserto de madrugada...

Retire a sua segunda venda.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

“Isso que vocês fazem é insignificante.”.




No treino de ontem estávamos no Pico 1055, um casarão abandonado que é incrível para o Parkour e que para ter acesso ou você precisa saltar o muro ou se esgueirar por uma brecha com arame farpado.

Eu já estava fazendo as últimas movimentações do dia quando ouvi uma voz de mulher no portão da entrada. Pensei que era a dona do casarão ou até a polícia que estava reclamando com os meninos, então saí correndo de onde estava e me coloquei em um ponto no último andar onde eu podia ser visto e saber o que estava acontecendo.

- ... eu estava com ele agora. Vocês não sabem o que é passar por isso. Tão lindo que nem vocês, com uma juventude toda pela frente. Ele é lindo! Vocês não fazem idéia do que estão fazendo não. Vocês podem brincar com outras coisas. Tem tanto esporte que é mais legal por aí e que é bonito de se ver. Tem o Tênis e aquele outro, como é o nome?, o Futevôlei que vocês estão fazendo agora! Eu não posso impedir vocês de pularem aí não. Mas eu que sou a mãe dele. Eu passei essa manhã toda na Santa Casa com meu filho. Você sabe o que é ter que dar comida na boca dele, escovar os dentinhos e ter que trocar a roupa? Um menino que tinha tanta vida. Hoje os colegas dele até o abandonaram, sabe? Antes chovia convites de festas, mas agora ninguém liga mais pra ele. E ele é tão lindo! Parece com esse moreninho, meu filho! Eu sei que é um esporte, mas esse aí que vocês estão fazendo só vai trazer sofrimento a sua família. Vocês não precisam disso. Isso que vocês fazem é insignificante. Por favor, nesse natal me dêem um presente: Pensem no que vocês estão fazendo, nas suas mães e porque vocês estão fazendo isso. Se vocês quebrarem as duas pernas, os dois braços, a bacia ou então as costelas, isso não vai ter problema! Há conserto pra isso tudo e vocês são jovens! Mas meu filho quando caiu bateu foi a cabeça. E vocês não sabem o que é a cabeça! Ela controla cada partezinha do seu corpo! A gente pensa que o nosso corpo é muito forte às vezes, mas é só preciso uma pancada na cabeça para você perder sua vida inteira. Ele não tem coordenação motora mais nenhuma! Às vezes eu acho que é pior do que morrer. Eu não tenho mais a minha vida. Só vivo em sessões de psicólogo com ele e de médico em médico. Mas eu amo tanto o meu filho e eu amo vocês também. Então por favor, pensem no que vocês estão fazendo.

O jeito mais rápido de descer era fazendo um salto do andar de cima pro de baixo. O movimento foi tão natural para mim que na hora não percebi que isso podia assustar ela ainda mais ou então ser encarado como um deboche a tudo que ela falou.

Mas eu desci. Mesmo sujo e suado. Me aproximei da grade, passei pelo buraco com o arame farpado e quando cheguei até ela perguntei se podia dar um abraço.

- Claro que sim, meu filho!

E ali mesmo ela começou a chorar.

Agradeci toda a preocupação comigo e com o restante dos meninos. Disse a ela que é difícil encontrarmos pessoas que cuidem umas das outras e que esqueçam um pouco da frieza e do ritmo frenético que a vida hoje nos impõe. Confirmei a ela também que o filho dela tem muita sorte de ter uma mãe com essa fibra e com esse amor.

Eu sempre sou o cara que irá defender e argumentar em favor do Parkour. Não tenho problema algum em gastar 30 minutos do meu treino explicando passo a passo do que faço e do porque estou fazendo. Chamar o que eu faço de “insignificante” seria praticamente um convite para uma discussão das boas...

Mas nesse dia, eu não tive coragem. Eu sequer teria direito a fazer isso. Ela é uma mãe. E com uma mãe ferida, em desabafo e em manifestação pura de amor e afeto com o próximo, você não argumenta e nem tenta estar certo. Pode ser o assunto que for e você pode se achar correto como for.

Diariamente o Parkour me proporciona situações, ensinamentos e me dá motivos para pensar, questionar e aprender. Mesmo que ali eu estivesse por ele, neste dia o grande professor surgiu em forma dessa mãe: Dona Edineuza.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Um treino qualquer com Finha


O treino está marcado pra 15:00. E as 15:00 em ponto eu e ele chegamos.

- E aê?
- E aê.

Sem brincadeira, essas foram nossas únicas palavras durante toda a tarde.

Nas duas horas seguintes, embora os dois estivessem sempre no mesmo lugar, os únicos sons que conseguíamos ouvir eram os dos pés nos muros, o amortecimento das precisões, as raspadas, as passadas e os tombos. O engraçado é que não rolava em nenhum momento o pensamento de que "estou treinando sozinho". Não havia tempo pra isso.

O espaço era gigante (o centro de criatividade), mas aquele clima de silêncio e concentração fazia o treino render tanto que nos contentávamos com somente o básico e as repetições. Somente o correr e o passar.

Nesse momento não pude deixar de refletir: "Quantos não já teriam reclamado do lugar? Quantos não teriam a criatividade suficiente de inovar a cada minuto? Quantos não já teriam enjoado do que fazíamos ali?". Tudo se dava de forma bastante natural e transmitia a mensagem que guiava o treino dos dois: ser simples e ser Parkour.

Mesmo quando decidíamos trocar de ambiente, não haviam palavras. Um saia da vista do outro e o que ficou para trás logo em breve trazia as mochilas dos dois.

Quando o calor se tornou insuportável, decidimos quase que ao mesmo tempo tirar as camisas. Revelamos o óbvio: corpos lavados em muito suor.

De vez em quando compartilhávamos um mesmo percurso ou movimentação. Não era nem sequer aquela competição saudável de um instigar o outro. Era apenas uma mente alerta sugando experiência de uma outra mente alerta. Não existia o certo. Não existia o errado. Só existia o treino.

Eu sou sempre muito reclamão. Pra mim quase nunca alguma coisa está boa. Mas todas as vezes que treino com Finha volto pra casa muito feliz e com a sensação de dever cumprido.

Acredito que a palavra que define tudo isso é muito respeito:

Respeito que tenho por ele.
Respeito que ele tem por mim.
Respeito que temos ao que ambos buscamos.
Respeito ao espaço que estamos ocupando e as pessoas a nossa volta.
E respeito esse que deveria estar presente  nos treinos de todos. Sempre.

A todos bons parceiros de treino, meu muito obrigado e meu respeito.

domingo, 18 de novembro de 2012

Um Chamado à Luta (Tradução do Texto do Blane)

O novo texto do Blane "A Call To Arms" me tocou tanto que eu passei mais de um dia pensando no assunto até que decidi pedir a ele autorização para traduzir. Isso precisava ser lido por todos. Gastei algumas horas lapidando o vocabulário o mais que pude para que o mesmo sentimento com que ele escreveu pudesse ser entendido pelos brasileiros.

Inspirem-se, utilizem do texto e o repassem (em seus blogs, inclusive) sem moderação. Às Armas!

Agradecimentos ao Bronze pela tirada de dúvidas em alguns pontos.

 

Um Chamado à Luta (A Call To Arms)
Por Chris "Blane" Rowat
Tradução: Duddu


Desde quando uma travessia de 30 metros com uma criança pendurada em suas costas tornou-se menos importante do que um salto de 18 pés entre dois pontos e com uma aterrissagem grotesca? Estou pouco me lixando para suas passadas gigantes e barulhentas, pois há gente por aí com 43 anos, o dobro da sua idade, duas vezes mais forte e que cai de 2 metros e não faz o menor barulho.



As coisas que deveriam importar para o Parkour, não mais importam - e as coisas que hoje são largamente consideradas como impressionantes não são mais quando você as analisa com calma. Nossos valores estão sendo corrompidos.

Algumas vezes, tento olhar para o Parkour de forma neutra, como se eu nunca tivesse ouvido falar sobre ele antes.

O que eu acharia dele se eu tivesse ainda 17 anos e o descobrisse agora, ao final de 2012? Imagino que acharia bem legal e que provavelmente iria mergulhar nesse mundo também. Só que, diferente do que eu vi nove anos atrás, ele não iria me impressionar tanto como fez.

Se você terminar de ler esse artigo e se convencer a respeito dos valores que eu acredito dentro do Parkour, então você irá também se convencer de que se eu não me esforçar para espalhá-los eles irão desaparecer.

Os novos iniciantes irão somente enxergá-lo como uma atividade de pular de locais altos e não como uma prática extremamente versátil e acessível para qualquer um com o desejo de encarar desafios, conhecer e melhorar a si mesmo.

O que eu vi no Parkour em 2003, aos 17:
  • Uma elite de poucos com qualidade de movimentação e atenção aos detalhes em cada movimento que fazia e que esse nível era somente alcançado através de milhares de horas de deliberada prática e treinamento.
  • O espírito de um guerreiro insaciável com seu treinamento e com garra para encarar qualquer desafio, seja ele físico, técnico ou mental.
  • Uma comunidade em crescimento, positivista e inspirada por todos aqueles que vieram antes dela.
  • Um sistema de treinamento e uma comunidade que dava valor a todos os aspectos do Parkour de forma igualitária, e uma consciência coletiva interessada em um Parkour que durasse a vida inteira e não somente alguns meses.
O que eu vejo em 2012, aos 26:
  • Um crescimento em massa do número de praticantes ao redor do mundo.
  • Big jumps.
  • Péssimas aterrissagens.
  • Competições.
  • Uma preciosa minoria tentando se manter de pé sobre os velhos valores e duvidando de suas razões em fazer isso…
  • ...e ultimamente, uma mudança do que é creditado como sendo Parkour.
E é justamente com essa pouca minoria que luta e sobre essa mudança de valores que eu me preocupo.

Eu sou responsável por deixar essa mudança acontecer sem encará-la, tanto quanto é responsável todos aqueles da “minha geração”.  Nós todos ficamos de lado, deixamos o Parkour evoluir, ser modificado e se alastrar pela Internet sem que disséssemos: “Espere um minuto, isso é bom... mas e todas aquelas outras partes do Parkour por qual eu me apaixonei? Onde estão?” 

Eu tento sempre ensinar meus alunos com esses valores em mente e eu sei que um bocado de homens e mulheres também fazem o mesmo por aí. Mas acontece que não é suficiente mantermos esses valores que nos cuidamos com tanto carinho presentes somente em nossas aulas em algumas cidades ao redor do mundo. Temos que mostrar isso em larga escala se quisermos mantê-los vivos. E mais importante do que isso, precisamos nos preocupar em deixar nossos testemunhos para que eles possam ser encontrados por todos aqueles que vierem a se interessar pelo Parkour em busca de algo mais do que big jumps.

Nos últimos anos que se passaram, ao invés de nos mantermos firmes e acreditar nos ensinamentos que passamos a admirar quando conhecemos o Parkour, dia a dia, vídeo a vídeo, nosso sistema de valores foi corrompido. Mesmo aqueles poucos que ainda hoje acreditam que Parkour é para todos, pode sentir que está regredindo, que não é tão bom quanto o cara novo, porque ele consegue fazer um salto que você não acha que consegue, ou talvez você nem tenha vontade de fazer.

Mas se você se lembrar dos valores que te trouxe a prática, então você não irá se importar em saltar tão longe quanto o “cara novo”. Lembra do que uma vez você aprendeu? O que é um salto, grande ou pequeno, sem uma boa aterrissagem? Quando foi que melhorar suas subidas de muro, suas flexões, seus agachamentos, seu quadrupedal ou então aumentar o seu recorde de ficar pendurado (se cair você morre!) se tornou menos prazeroso do que aumentar a distância de seus saltos?

Eu já vi em alguns treinos em grupo as pessoas fazerem piada com o cara que estava lá atrás se fudendo com um colete de peso e tentando fazer suas barras ficarem mais fortes. Quando foi que o que estava sendo executado por ele tornou-se uma parte inferior do Parkour?

Os desafios físicos não são algo novo no mundo do Parkour. Ao menos desde que ele existe, os desafios físicos são parte inerente a ele. Na verdade, como alguns de vocês irão se lembrar, muito antes dos saltos chamarem a atenção, os desafios físicos ERAM o Parkour.

Hoje não são mais. Os desafios físicos (e até mesmo, o treino físico) são atualmente espécie em extinção.



A ênfase mudou com o passar dos últimos anos e o Parkour não é mais o terreno perfeito para se testar do que a pessoa é feita fisicamente, tecnicamente, mentalmente... e emocionalmente.

Não é mais um desafio de saber se você é capaz de correr de uma cidade pra outra e se aventurar a retornar antes do pôr-do-sol. Não é mais um desafio para saber se você consegue empurrar um carro velho numa ladeira com os amigos que você riu e chorou durante o dia. E não é mais sobre conseguir entender o valor de se saltar para uma árvore molhada em caso de um dia você tiver que resgatar um desses amigos que ficou preso nela.

Agora é amplamente visto como um palco para talentos, uma oportunidade para as pessoas mostrarem ao mundo como eles conseguem saltar mais distante do que os outros. Ou então como eles estão dispostos a viajar metade do mundo para fazer o mesmo salto que viu outro cara realizar num vídeo do ano passado.  Só que agora ele chega lá e faz de side-flip.

Eu vejo competições onde o “Melhor Atleta de Parkour” e os “Campeões Mundiais” gastam 37 segundos de corrida tentando fazer qualquer coisa mais impressionante do que o cara que se apresentou antes dele. Isso tudo antes do tempo acabar ou dele ficar sem fôlego. 37 segundos de uma perfomance medíocre? Eu tenho treinado com homens e mulheres que poderiam durar 37 minutos naquela mesma intensidade.

Quem deixou essa babaquice ganhar espaço sem resistência? Quando foi que isso se tornou o foco? Quando foi que fazer um salto mais longe que alguém se tornou algum valor para o Parkour? Quando foi que visitar um pico pra repetir os mesmos movimentos que alguém já fez se tornou a meta? Eu detesto admitir, mas fomos nós que deixamos essa merda crescer. Permitimos isso quando passamos a duvidar de nós mesmos e passamos a cogitar a possibilidade de um big jump ter alguma importância.

Aqui esta o vídeo de Jesse Owens saltando 26 pés (algo próximo a 8 metros) em 1936, Berlin, Alemanha.
 

Esse é um salto enorme mesmo para os padrões e a metodologia avançada de treino que temos hoje em dia. E esse salto não é só distante, mas muito, mas muito mais distante do que qualquer salto já realizado por qualquer praticante de Parkour entre dois pontos. Então porque a comunidade do Parkour (e, de fato, o mundo) fica impressionada quando alguém pula 18 pés entre dois muros e desmorona como se ali tivesse alguma caixa de areia como a de Jesse no vídeo? É porque eles são “corajosos” o suficiente de fazer isso em uma fenda? Em muitos casos o medo de cair só é derrotado pelo pensamento em ficar imortalizado no Youtube diante de milhares de pessoas vestidas em seus pijamas. É isso que você entende por “coragem”? Se for, então, por favor, feche essa página agora porque não há nada aqui pra você.

Mas se tem uma razão pessoal e válida para fazer um salto que carrega um risco para provar algo a si mesmo e então ultrapassar sua própria compreensão e responder as suas dúvidas; agir quando tudo dentro de você quer sair dali e ir para casa com intenção de provar SOMENTE algo a si mesmo; então isso é que é coragem e determinação. E esses são alguns dos valores que verdadeiramente foram construídos no Parkour. Os mesmos valores que a cada dia desaparecem diante de seus olhos. Ficar eufórico e se esforçar o máximo que puder para provar seu valor diante de alguém que esta do outro lado da internet, ou porque seu amigo já fez aquilo uma vez, somente revela imprudência e alguém com vida curta dentro do Parkour.

Eu gostaria de acreditar que a maioria das pessoas que estão lendo esse texto irão concordar que Parkour deixa de ser Parkour sem algum desses valores. Valores como coragem, decisão, fortalecimento, força, disciplina, dedicação e longevidade. Valores como humildade e altruísmo. Integridade.

Existem diversas maneiras que podemos ajudar a mudar positivamente o futuro de nossa prática e o melhor ponto de partida, e o jeito mais fácil, é não permitir que esses valores sejam perdidos.

Podemos inspirar a próxima geração de praticantes e permitir que eles compreendam que Parkour é muito mais do que realizar saltos impressionantes apenas fazendo com que nossas opiniões não adormeçam.

Comente nos vídeos, faça upload do seu próprio, escreva artigos, ensine, converse, viaje e treine da maneira que você acredita que o Parkour deveria ser treinado. Deixe as pessoas verem esse lado aonde quer que você vá. Represente e seja.

Esses valores não precisam ser manifestados como os desafios que mencionei anteriormente, mas ultimamente a única maneira que podemos significativamente crescer é encarar e se adaptar para superar essas adversidades. Isso pode ser feito da mesma forma que você encara um salto, quando ele te amedronta porque você crê que vale a pena enfrentar o seu medo e testar sua habilidade.




Pode ser de forma técnica. Ou talvez seja repetindo uma precisão correndo para um corrimão fino e tentando aterrissar perfeitamente 3 vezes consecutivas. 10 vezes em seguida. 50.

Ou talvez seja um desafio físico afinal. Você pode simplesmente escolher um dos seus exercícios favoritos e fazer um teste pra saber até quando você agüenta refazê-lo. Testar quantas repetições você consegue executar em dez minutos ou quanto de peso você consegue erguer depois de 6 meses de treinamento dedicado.


Na verdade, não importa qual será o desafio. O que importa é que você se desafie com freqüência a fim de realmente se conhecer e saber do que você é feito. Esse confronto e disposição para encarar obstáculos é o coração da fera que o Parkour é, e que infelizmente, a cada ano que passa ele bate cada vez mais devagar. Mas é essa exposição regular a desafios, tal quais esses que montamos, que irá disseminar esses valores nas pessoas.

O que as pessoas parecem não perceber é que um garoto de 19 anos que consegue saltar 18 pés, depois de um ano de treinamento, muito provavelmente não estará mais aqui nos próximos.

Poucas pessoas permanecem mais do alguns poucos anos nesse jogo, seja por conta de um machucado, perda de interesse ou qualquer outro dos incontáveis motivos. Então, ainda que o que ele faça seja impressionante, sim... o que você está treinando para fazer, 'ser e durar', pelos próximos 10, 20 anos... e mais, ainda forte, progredindo, treinando e se divertindo com o Parkour... Isso é muito mais impressionante para mim. Estes são os valores e os objetivos que me impressionaram e que existem naquela pequena elite que mencionei anteriormente. Estas são as coisas que eu não verei perdidas nos anos que estão por vir.
                                                                                                 
Não peça desculpas a respeito dos valores que você acredita e, mais importante ainda, não permita que o Parkour os perca se você acredita neles! Parkour vai se desenvolver e se tornar o que ele tiver que se tornar diante dos olhos de todos, mas se mantenha firme no que você considera importante porque você não está sozinho!

Não o deixe morrer ou então a próxima geração poderá jamais ver ou experimentar o que você viu e fez quando você descobriu o Parkour. Deixe o desafio e a longevidade moldar seu treinamento, seu objetivo e suas motivações. Estabeleça seus próprios desafios, mesmo se alguns deles parecerem impossíveis, pois mesmo neles você aprenderá um bocado. Lembre-se que o desafio não é um desafio se você não sabe como realizá-lo.  Pegue um envelope, faça um convite à dúvida e a sua descrença e transforme esses velhos inimigos em seus aliados. Encare hábitos que parecem ser insuperáveis, freqüentemente, e então você crescerá como pessoa.

Se você quiser repetir aquele pequeno salto, aquele com um ângulo complicado, para uma parede coberta de limo. Se você pretende treiná-lo até chegar o dia em que você poderá realizá-lo com os olhos fechados... então meu caro amigo, você não está sozinho! Eu quero repetir esse salto com você! Mas vamos fazer 50. Só pra ter certeza. E um a mais por aqueles que não podem se juntar a nós. Isso fará a nós dois um bem maior do que aquele salto por cima do telhado carregando uma câmera.

Nós somos uma minoria agora, mas juntos nós somos ainda uma influência sobre aqueles que dizem que praticam Parkour. Ainda podemos fazer nossa mensagem ser ouvida por todos aqueles que conhecerão o Parkour agora, e nos próximos anos.  

Este é um chamado à luta para aqueles que ainda se consideram a vanguarda do Parkour. A hora é agora. Faça a diferença mostrando, compartilhando e sendo todos os outros lados do Parkour que conhecemos e amamos. Os lados que muitos de nós estamos vendo ser esquecidos enquanto a nossa prática cresce.




Blane

domingo, 28 de outubro de 2012

Guia de Viagem do Tracer




Originalmente esta seria somente uma postagem normal no blog. Mas acontece que ela foi tomando proporções maiores, a necessidade de detalhar um ou outro tópico surgiu e no final eu já estava era com um monte de páginas escritas!

Então, pra eu não ter que ficar respondendo sempre  as mesmas perguntas sobre "duddu, como faz pra viajar?", eu resolvi condensar algumas dicas em uma espécie de livrinho. Ele traz os pontos chaves das minhas viagens e de como eu me acomodei a me organizar para elas.

Para quem nunca viajou "a serviço do Parkour" essa é uma boa desculpa hora pra começar. Se você já viaja, espero que alguma coisa dentro dele possa te ser útil.

Vou colocar o link para download aí embaixo porque eu sei que você jamais iria ler se eu colocasse linha a linha por aqui. ¬¬

Bjos a todos e venham para o nordeste e me convidem também para suas casas! *_*

Guia de Viagem do Tracer - 1ª E-Pretendo-Que-Única-Edição

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O Tropeço





Tinha ido à padaria comprar um lanche. Naquele momento retornava para a empresa com um copo de café numa mão e uma sacola de pão na outra. Ouvia música no fone de ouvido, mas não prestava atenção nem na letra e nem na melodia. Na verdade, não prestava atenção em nada e também não ouvia quase nada. Era apenas mais um cara extremamente relaxado executando uma ação simples no piloto automático. De repente, no instante seguinte... POF! Nem tentei entender o que havia se colocado entre meu pé e o chão. O reflexo instintivo determinava apenas que o café não caísse.

E dessa ação, cotidiana para bípedes e quadrúpedes, surge o inquérito para esse texto: Quem é o culpado pelo meu tropeço?

Comecei a caminhar com nove meses de idade. Isso me concede 26 anos e 3 meses de experiência nesse ofício. A essa altura já deveria ser um atleta profissional. A verdade é que se analisarmos os 10 últimos tropeços que dei, cada um deles foi ocasionado por uma variável: o centímetro a mais de um degrau, o desnível em uma calçada que parecia ser plana, a pedra que estava no lugar errado na hora errada...

- Epa epa epa! O que temos aqui? Então quer dizer que estou tentando convencer a mim mesmo que existe uma culpa para a pedra, para o desnível e para o degrau? Você está tentando nos convencer que eles três, seres inanimados, são mais culpados do que a nossa escolha em ir por aquele determinado caminho? Que petulante você é!

- Não. Não é isso. Estou identificando para você, sua anta, que você não falhou com sua habilidade de caminhar nas últimas 10 vezes que tropeçou. Nós apenas fomos confrontados com uma situação não esperada e que foi negligenciada por nossa (sua) falta de atenção.

Tropeços podem ser evitados. Mas isso demanda foco, análise e concentração. Filho da puta do Parkour... novamente se intrometendo em meu dia: A energia que gastei com a passada que gerou o meu tropeço é a mesma contabilidade errada de energia que fiz ao falhar em subir um muro. Em miúdos, se pouco se dá, pouco se tem. E se você pouco tem explosão pra subir um muro, vai ter que o usar o cotovelo ou descer covardemente dele.

O tropeço da minha caminhada é o mesmo obstáculo dos meus percursos. A diferença é que quando corro do ponto A ao B, minhas atenções pertencem exclusivamente ao que estou fazendo. Não existe confiança ilimitada e nem soberba da minha parte em achar que sou um especialista no que faço e, portanto, impassível de cometer um erro.

Afinal de contas? Será que alguém caminha sem ter certeza de que vai caminhar?

Culpado! Guilhotina na cabeça e veredicto assinado! Assumo de forma livre e consciente que o tropeço foi gerado não pela pedra, pela calçada ou pelo degrau, mas por minha audácia em achar que já caminho tão bem e que por isso não precisaria mais dispor de minha atenção para este fim.

É esse mesmo alerta que devo redirecionar a todas as áreas da minha vida. Excelência é diferente de perfeição. Buscarei ser um ser humano excelente.

522 palavras só por causa de um tropeço... somos mesmo um doente, Eduardo...AOIUQPWIPUwiIQPUUOIPWOQPIPIUWUOPIw

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Aprendizados Para o Ensino I



Até onde você pode exigir de seus alunos numa aula de Parkour?

Ontem fui um dos instrutores do GTreino, grupo de edificação e proteção aos valores do Parkour ao qual pertenço. Após apresentados, dividimos os grupos (4 de aproximadamente 10 pessoas) e revezamos os alunos em estações especificas puxadas por cada um de nós.

Meu treino consistia de uma série de desafios: desafios de velocidade, tempo, limitação e persistência. Estabeleci metas individuais e em grupo e incentivei-os a cumpri-las. Quando o último dos grupos chegou as minhas mãos, eles já estavam alerta do que ia acontecer porque viram três grupos antes serem incentivados por meus gritos e nego correndo pela vida.

Ao apresentar a última parte do treino disse:

- Bom. Vocês tem 15 segundos, contados por mim, para realizar o seguinte trajeto: corre, sobe muro, corre, sobe muro, passa arvore, sobe degrau, corre, desce muro, desce muro e volta. Se serve de consolo até agora ninguém conseguiu completar nesse tempo.

Eles se empolgaram. Era tudo bem em cima de parkour+velocidade+flow e notei que eles não tinham muito costume de treinar assim... sob pressão. O melhor sucedido terminou em 16 segundos e morrendo. Como viram que estavam dando de tudo e não surtia efeito para diminuir desse tempo, um corajoso jogou a bola pra mim (e foi em seguida super-apoiado pelos demais):

- Duddu, você consegue?

Notei que a pergunta não era movida somente por curiosidade. Eles não sabiam que eu tinha ido sozinho, mais cedo, testado tudo que iria pedir pra eles e estabelecido meus próprios limites para servir de base para criar a oficina.

- Consigo.

Daí a galera toda começou a contar meus 15 segundos. Terminei em 14 e pouquinho e isso porque escorreguei numa peste de uma folha (em um dos meus testes eu bati 13).

O que percebi: Não vejo problema algum em você dar aula e ensinar o que não é capaz de fazer. Até porque chega um momento onde o discípulo supera o mestre. Mas se você exigir de seus alunos algo que eles considerem "impossível", eles irão desacreditar no treino que você propõe.

Quando me viram concluir o trajeto, sem morrer e com folga, o rosto deles dizia claramente "Caralho, dá pra fazer mesmo. Eu só não consigo ainda!". E isso torna-se perspectiva pros treinos futuros deles.

É extremamente importante elaborar o treino com antecência ou ao menos ter noção do que será feito (e os desvios que podem ocorrer no "durante"). Do contrário, você pode ferir o bom senso dos praticantes e acabar criando uma descredibilidade tanto para você quanto para ele.