terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A Política dentro do Parkour




Antes de começar a ler eu gostaria que você entendesse que o termo política ao qual me refiro é o conhecido como “a ciência da organização”; o modo como as coisas se estruturam e se estabelecem. Não estou falando somente de cargos públicos como os que existem nas Associações de Parkour de todo o Brasil e nem somente dos líderes que encabeçam qualquer grupo ou evento. Estou levando em consideração todos os processos que se estabelecem dentro de nossa atividade.

Como já estive a frente de uma pancada de projetos e atualmente presido duas associações (a brasileira e a sergipana) tenho algumas observações a fazer e, por esse motivo, todas as críticas que aqui serão feitas cabem também a mim mesmo.

O praticante de Parkour é a célula mais comum de todo esse processo organizacional. Ele deveria ser a pessoa que detêm o maior poder dentro do Parkour e, no entanto, não é o que se vê por aí. De uma maneira geral, e falando sem papas nas línguas, na maioria das vezes eu considero o praticante de Parkour um imbecil. Imbecil por não saber do poder que ele possui e por não tentar aprender a utilizá-lo. A prática que ele carrega no peito e nas camisas é o símbolo de uma transformação intelectual e social do ser humano. É uma revolução de dentro para fora e que culmina em um grito de autonomia. Ao menos deveria ser isso.

O que vejo constantemente, e a cada dia mais essa vertente cresce, é que os praticantes normalmente gostam de fingir que são livres. Pulam nas praças para exercer essa liberdade e esquecem que continuam prisioneiros de uma mente medíocre. Uma mente que aceita o que lhe é imposto de boca fechada. Uma mente que não é capaz de lutar pelo que acredita. Uma mente que todos os dias baixa os olhos para o que se vê de errado e se borram de medo de questionar ou contrariar as “mentes superiores”.

No Parkour, e fortemente no Brasil, vivemos em uma política onde os que brilham ao sol detêm o poder da palavra e controlam os passos de seus seguidores. Se o ícone do momento determinar que a nova tendência é usar sapato alto para se equilibrar em uma barra, você assistirá vários tombos de pessoas que preferem estar dentro da moda do que procurar entender se essa ordem tem algum fundamento.

Mas esses praticantes não são burros somente por isso. Eles são burros também porque antes de serem praticantes ruins eles são seres humanos socialmente ruins. Estão acostumados a serem ordenados por seus pais, seus professores, as autoridades, as leis, o governo e não conseguem se desprender da inércia e se tornarem capazes de entender o seu papel dentro deste círculo.

O Parkour para muitos não gera liberdade mental. Não se questiona o que faz; o porquê se faz; quem se é; e o que se quer.  A grande maioria prefere ser folhas ao vento. Prontas a manipulação daqueles que tiverem a coragem para levantar a voz (participar do próximo campeonato na gringa, assumir uma presidência, declarar-se líder de um grupo, abrir um site, dizer que inventou um movimento, se aventurar em programa de auditório, aceitar o papel em um comercial ou novela... etc.).

Esse nicho não é podre em sua totalidade. Existem (eu os conheço e você os conhece também) aqueles praticantes que encontraram uma nova vida dentro do Parkour. E quando isso acontece gera-se uma energia tão monstruosa que as pessoas comuns (e os praticantes medíocres a que me referi lá em cima) tornam-se pequenas a ponto de quase sumirem no chão. Esses caras gigantes, que sim, são os estandartes de ouro de nossa atividade. Eles carregam os valores e os ensinamentos de uma vida de dedicação em cada treino que comparecem. Em cada ida a padaria. Em cada atitude e ação que proferem.

Eu diria que eles são pessoas abençoadas. Porque viver sob a proteção dessa força só pode ser classificado como uma benção. Esses praticantes tornam-se líderes sem levantar a voz. Adquirem uma reputação praticamente inquestionável. E, a não ser por aqueles que não possuem sua bravura de espírito, todos parecem por ele simpatizar e admirar. Às vezes você nunca os viu pessoalmente. Às vezes nunca falou com ele diretamente. E talvez ele nunca saiba o quanto você é grato por ele ser quem ele é.

Eu sempre questionei um pouco a postura de alguns desses ícones. Apesar de eles serem meus ícones também; as pessoas que eu carrego como exemplos e o ombro amigo que me serve de âncora para o que eu quero me tornar; algo para mim não parece estar correto quando eles tomam certas atitudes excludentes.

Alguns deles, aos meus olhos, são pilares de várias gerações de praticantes, e, no entanto, algumas vezes eles fazem questão de não fazer parte de qualquer processo organizacional. Eles se acomodam em suas vidas e sofrem calados ao observar que a atividade que amam esta sendo corroída e destruída por pessoas que não a compreenderam e não sabem muitas vezes o mal que fazem. Hoje entendo que isso não é uma covardia, mas a opção de quem optou em educar através do exemplo. Apesar de todos os pesares, ele sempre estará ali, como uma rocha, esperando qualquer praticante ou interessado que opte, como ele optou, a trilhar o caminho das pedras.

Eu questiono essa postura somente porque eu não me vejo com tal nobreza de espírito. Considero que é fácil demais fazer a minha parte sem olhar pro lado, focar nos meus treinos e deixar o mundo fazer o que quiser com o que eu aprendi a amar. Eu aprendi sozinho que o que me foi dado de bom grado deve estar acessível a todos os que queiram seguir os mesmos passos que eu trilho dia a dia. Quando esses gigantes do Parkour deixam de manifestar sua opinião, deixam de militar mais diretamente pelo que acreditam e se fecham em seu universo particular, eles perdem boa parte do brilho que deveriam ter pra mim. Porque eles optaram por abandonar a atividade que os abraçou nas mãos de quem não a merece; sendo que ela é ainda um bebê, tão jovem, imatura e nem caminha com as próprias pernas ainda. Ela precisa de toda ajuda e carinho deles e eles parecem, muitas vezes, não compreender isso.

Mas o Parkour conta ainda com pessoas que enfrentam batalhas diárias em favor dele. São aqueles que citei no primeiro parágrafo: os que se dedicam a ensinar, a organizar, a estruturar, a cobrar dos setores públicos um reconhecimento.  Eles são instrutores, líderes, presidentes, simpatizantes de causa e pessoas com energia para colocar em ação.

Quando essa pessoa, coincidentemente, é um praticante, a coisa é linda. Temos boa vontade aliada ao conhecimento de prática. É a fórmula certa para que se construa algo sólido e único. Infelizmente esse ser mágico só se manifesta em um, a cada mil praticantes. Cá pra nós, o praticante de Parkour comum só gosta de trabalhar se for em prol do seu próprio treino. E nem isso muitas vezes anda acontecendo.
O senso de coletividade real e o interesse que a prática cresça e esteja disponível para todos não é o consenso da maioria. Essa ausência dos “praticantes apaixonados pelo Parkour no poder” deixa aberto o espaço para todas as pessoas que tem disposição e vontade de trabalhar e que não necessariamente estão nas ruas.

Entramos em uma sinuca de dois bicos e colocamos nossa atividade em uma espada que corta dos dois lados. As decisões que forem tomadas por esse tipo de organizador, nem sempre irão refletir os interesses dos praticantes. Existem alguns exemplos que posso utilizar para esclarecer melhor:

Um instrutor de Parkour pode ter sempre o melhor estudo, o melhor preparo teórico e a melhor didática de instrução. Porém, se ele não foi um praticante, se ele não viveu o que um praticante vive e se ele não sofreu e se alegrou com o que os praticantes sofrem e se alegram todos os dias, como ele será capaz de transmitir adiante esse conhecimento? Sei que em várias áreas isso é possível. Técnicos de futebol que nunca pisaram em campo. Técnicos de ginástica que não sabem dar um mortal. Porém, o Parkour não se trata de um esporte defendido em cima de um conjunto de regras claras. Muitas vezes nem o próprio praticante tem autonomia de interferir na movimentação alheia, simplesmente pelo fato de se tratar de corpos diferentes com mobilidade motora diferente e adaptação aos obstáculos de forma diferente. Como você irá compreender que o calo aberto na mão de seu aluno dói, mas que aquela dor é uma dor que se ele compreender o significado ele é capaz de abstraí-la e voltar a treinar, se você mesmo nunca abriu esse mesmo calo? Como você pedirá para ele continuar e ser firme em seus objetivos se você nunca passou se quer próximo do pensamento que está tentando fazê-lo compreender? Não digo que é impossível termos ótimos instrutores que não são praticantes, mas eu acredito que qualquer praticante, de respeito, entenderá sempre infinitamente mais do que qualquer um desses mestres da teoria.

Da mesma maneira se encaixa os organizadores de grupos. Aqueles que estão a frente de projetos, palestras, os teóricos do Parkour, os donos das associações nacionais e os que batem no peito para apresentar seus eventos em prefeituras e órgãos públicos. Que maravilha que eles têm força e atitude para correr atrás disso tudo! Mas será que eles também não executam outro papel que deveria ser dos praticantes? Freqüentemente vejo pessoas tomarem decisões, de sua cadeira acolchoada, que irão interferir diretamente nos treinos de quem estará se arrombando nas ruas.

Eu não consigo entender essa lógica a não ser que transformemos o Parkour em um órgão público ou na casa da mãe Joana, onde as pessoas podem meter a mão e fazer dele o que tiverem vontade. Como um organizador desse calibre irá manter vivo os valores que os praticantes acreditam, se eles muitas vezes não sabem quais são eles? Como um organizador desse calibre tomara a decisão de plantar uma barra no chão, sendo que não é ele quem irá colocar a mão nela todos os dias? Como um organizador desse calibre poderá entender o que de fato é importante para aqueles que executam a prática todos os dias nas ruas, se eles mesmos não estão nessas ruas? Eles não sentem a rua. Eles não sentem os treinos. E eles não respiram o espírito que o praticante respira.

Existem características que eu desenvolvi com a prática do Parkour que eu não consigo expressar em palavras. Eu tento, mas elas não são fieis ao sentimento. Quando eu encontro um praticante, treino ao seu lado, ele entende isso tudo sem que precisemos falar uma única palavra. Ele vive meus dilemas e as minhas angústias. Ele passa pelos mesmos perigos e se alegram com as mesmas pequenas vitórias.

Um organizador do Parkour, em qualquer setor que seja, sem o coração de um praticante de Parkour, é uma arma apontada ao acaso e que pode contribuir com um bem enorme para a atividade (uma vez que os próprios praticantes muitas vezes não contribuem com nada, não querem saber de nada, e não passam de mortos-vivos fingindo que adquiriram o controle remoto de suas vidas), mas eles também podem ser a depredação de nossa atividade, pois eles não sentem o que sentimos, não sofrem o que sofremos e não entendem e nem compreenderão jamais o que de fato para nós é importante. Mas eles tomam nossas decisões. E as decisões do futuro de nossa atividade.

Eu não sei a solução para esse impasse. Quer dizer, eu sei, mas ela é utópica. Se tivesse o poder, eu gostaria de expulsar de todos os cargos políticos existentes no Parkour aquelas pessoas que não estão nas ruas enfrentando os muros. E em seu lugar eu colocaria os próprios praticantes no comando. Mas isso somente se eu pudesse ter certeza de que esses praticantes seriam os de coração e que aprenderam a edificar todo o seu mundo ao redor dos ensinamentos que aprenderam. Não os mortos-vivos!

A política é um fenômeno existente em todas as esferas da sociedade. Não é coisa de quem somente teoriza. Se você nunca parou para pensar sobre ela, você merece a vida que você tem e você não tem direito algum de reclamar quando as coisas não saírem da forma como você esperava. O que você fez para evitar um futuro que não te agrada? Você é um parasita que sobrevive em um mundo que não merece.

A primeira lição que um praticante de Parkour deveria aprender é a ser um guerreiro. A ser forte, a ter princípios e a lutar. Quando uma vez foi dito que “ O Parkour é uma arma camuflada” todo mundo achou a frase genial e saiu pregando aos 4 ventos. Um bando de espartanos do filme “300”! Mas poucos descobriram que essa é uma arma que espera em silêncio ser sacada para defender a própria atividade. Portanto, das duas uma: ou aprendemos agora a levantar nossas vozes em prol do que acreditamos, ou então vamos todos nos silenciar na vergonha de um destino que ajudamos a criar por omissão.

Se optássemos pela primeira opção, acho que teríamos um mundo melhor e um Parkour muito mais bonito do que já é.

Corra, Pop, Corra (Rotina de Treino)


Praticamente todas as semanas alguém vem me pedir orientação ou ajuda sobre rotinas de treino. Como normalmente estou a minha vida inteira fazendo alguma rotina maluca, vou começar a divulgar esses projetos de treinos para que outros possam criar os seus próprios ou então adaptá-los a sua realidade.

O "Corra, Pop, Corra" é um treino que construí para meu amigo Adriano Diamarante (o Pop), de Maceió. Ele me pediu um treino onde:

- Queimasse calorias (Treino Aeróbico)
- Ganhasse velocidade e força de explosão (Pliometria)
- Aplicasse o seu ganho diretamente ao Parkour (Treino Funcional)

O resultado foi um treino muito bom, puxado, capaz de ser levado até o final por praticamente qualquer pessoa que se esforçar e um treino excelente para o Parkour. Eu mesmo o tenho utilizado pelo menos 3 vezes por semana. E além de tudo é um treino curto. Menos de uma hora de duração e você terá treinado muito, numa ótima intensidade e notará um ganho de força, condicionamento físico, resistência e explosão em pouco tempo. Tenho feito ele antes de praticamente todo treino de Parkour. Como aquecimento.

O Pop estava semi-gordo quando começou e agora já está em forma de tanque de guerra!

Como elaborei o treino para ele, já o tenho todo documentado. Vou conversar com ele pra ver se ele não quer gravar umas cenas para que eu possa criar um vídeozinho como o do Caba Macho. Assim terei mais um treino físico pra indicar quando vocês vierem aqui me enche... perguntar sobre esse assunto.

Bjo pra todo mundo!

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Corra, Pop, Corra!


·        Alongamento livre: cerca de 10 min

Braços, mãos, cotovelos, ombros.
Cintura.
Joelhos, tornozelos, pés.


·        Corrida: 20 min

Dentro da corrida, marque dois pontos (início e chegada) e faça um pique sem pausa. Se estiver sem pontos de referência, conte 10 segundos no pique. Quando acabar, volte pro ritmo normal (sem parar de correr de jeito nenhum). Espere sua freqüência cardíaca e respiração normalizar e quando estiver pronto decida quando irá fazer o próximo pique.

Dentro dos 20 min da corrida, você tem que realizar 4 piques.

Finalizou, recupere o fôlego por no máximo 3 minutos.


·        Quadrupedia com saltos (200 passos no quadrupedal + 40 precisões seguidas)

Faça 50 passos de quadrupedal. Quando terninar, levante e, sem parar, realize 10 precisões seguidas quicando no chão. Fechou a décima precisão, retorne, sem parar, para mais 50 passos no quadrupedal. Finalizou a segunda rodada de quadrupedal, sem parar, realize novamente as 10 precisões.

Realize a rotina completa acima 2 vezes.

Descanso máximo de 2 minutos entre uma série e a outra (Tente relaxar o máximo os braços e as pernas nesses dois minutos, balançando-os).



·        Box Jumps com Flexões

Ache um banco com altura na sua cintura. Realize 10 precisões para cima dele e 10 aterrisagens ao descer, começando em repouso com os pés juntos. Realize-as com calma, porém sem pausa.

Acabou a série, caia no chão para fazer 10 flexões tradicionais o mais rápido que puder. Continue na posição de flexão e conte 10 segundos. Fechou, desça pra flexão e se sustente quase tocando o queixo no chão. Conte mais 10 segundos. Acabou, apóie os antebraços no chão e contabilize 40 segundos em prancha. Fechou o tempo, realize mais 10 flexões o mais rápido que puder.

Retorne para as precisões.

A rotina acima deve ser executada 3 vezes.

Descanso máximo de 2 minutos entre uma série e a outra (Tente relaxar o máximo os braços e as pernas nesses dois minutos, balançando-os).


·        Suspensão com abdominal em barra

Se pendure em uma barra (ou um muro). Contabilize 10 segundos em suspensão. Sem descer, eleve 10 vezes as pernas dobradas em direção ao peito (ou o mais alto que conseguir – sem pausa e o mais rápido que puder). Finalizou, contabilize mais 10 segundos em suspensão.

Realize essa rotina por 3 vezes.


·        Alongamento livre: sem definição de tempo

Estiramento dos músculos principais. Bastante importante para evitar dores no outro dia.


DICAS:
Não se encha de água durante o treino.
Não pare para conversar.
Se quiser, elabore uma playlist e deixe rolando no mp4. Ajuda a relaxar.


·        Sobre a alimentação:

Evite:
Gema de ovo.
Carnes gordurosas.
Frituras em óleo.

Passe a beber mais água durante o dia.
Use e abuse de clara de ovo e leite de gado (de preferência o desnatado).

Meia hora antes do treino prepare uma vitamina simples usando o que tiver em caso (ex: mamão, leite, nescau, clara de ovo, aveia, banana, abacate, grãos...).

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A Reapropriação Errada do Espaço



Uma das singularidades que o Parkour faz despertar em seus praticantes é a compreensão de que os espaços delimitados pelo cimento, construções e matéria orgânica não são mais inacessíveis.

Uma árvore pode ser escalada, um muro pode ser transposto, um corrimão pode ser saltado ou, por pura opção nossa, ele pode ser apenas ignorado. A movimentação e o controle que se adquire sobre ela faz de todo e qualquer praticante um “decriptador“ do espaço: um ser capaz de analisar, identificar e tomar posse de qualquer local ao seu bel prazer. Muitas vezes isso rende algumas situações peculiares como conversas com seguranças, invasão de espaços abandonados, debates filosóficos com outros cidadãos...

Esse jogo de caça; essa certeza de sua natureza, e por que não dizer, o propósito do Parkour em se apropriar do ambiente ao redor, é uma das coisas que mais apaixonam praticantes, sociólogos, arquitetos e admiradores da prática. Vivemos em um mundo onde os cadeados, as cercas, as delimitações e os limites territoriais nos prendem em um espaço isolado. O Parkour e os seus praticantes fazem essa realidade cair por terra e se negam, inteligentemente e de forma imponente, a se conformar com o papel que nos foi imposto: ratos presos em um laboratório gigante denominado sociedade.

Foi assim que sempre me senti dentro da prática e é essa aventura que vejo a cada dia se perder.

No contra-fluxo das minhas reflexões tenho sido bombardeado com as construções próprias para o Parkour. São academias especializadas, praças dedicadas, espaços imensos e com todo aparato imaginável. Mas são se resume a somente o luxo. Eles são também pneus empilhados, lixo reaproveitado, areia e suor dos praticantes em fazer daquele espaço algo que possa ser chamado de “seu”. Nasce no Brasil, o pico do gato, do cachorro, do papagaio... Não entendo porque não nomearam nenhum deles de o “Pico do homem”... Afinal de contas, os animais que estarão presos dentro dele seremos nós mesmos. Presos e vendados.

A necessidade humana de "ter o controle" e "ser o dono" parece ter nos atingido de cheio de uns anos para cá. As pessoas não parecessem mais se contentar com a posse mental. É preciso o domínio, a autorização e a burocracia. O “é meu.”

A que ponto já chegamos e aonde estamos nos dirigindo com isso tudo?

A cada 10 praticantes que você entrevistar a respeito do Parkour advinho que no discurso dos 10 você encontrará a palavra “liberdade”. Que liberdade seria essa presa dentro de um retângulo ou limitada por um papel?

Vejo a “visão tracer” a cada dia ser mais ignorada. Construções que antes do Parkour eram ignoradas por todos nós, infelizmente têm voltado a ser ignoradas. Estamos regredindo a passos largos e nos viciando ao luxo e ao ego.

Eu considero que no Parkour não deveria haver nem sequer a denominação de “pico”. Quando delimitamos, nos apropriamos. E eu não me considero dono de nada. O “pico”, para mim, nada mais é do que um espaço (em comum a todas as pessoas do planeta) propício a um número maior de movimentações, que comporta um número maior de pessoas e que pode ser utilizado para que eu desenvolva as aptidões de que preciso. Mas o Parkour não está fechado ou isolado a ele. O Parkour é uma ferramenta minha para ser utilizado em qualquer espaço ou situação que eu sinta vontade. Meu pico é o planeta.

Em 2006 criticamos as pessoas que vestiam a roupa do treino, se tornavam super-herois no final de semana, e na segunda-feira deixavam o parkour detrás da porta e voltavam a se mesclar na multidão. Agora as pessoas vestem sua fantasia, se dirigem para o seu palco, dão o seu show particular e voltam para casa realizados. É isso? Sinto que não fui convidado para esse carnaval.
O que mudou de lá pra cá?

A crítica velada nesse texto não tem intenção de ofender. Tem intenção de pensar e fazer pensar. Praticante de Parkour está acostumado a se iludir e achar que é a última bolacha do pacote, quando na realidade, em sua maioria, são os seres mais ignorantes que podemos encontrar: os que não sabem do que falam e ainda querem ter alguma razão.

Não concorde comigo, reflita.

E se puder, quando voltar pra casa depois do seu trabalho ou da sua escola, observe o mundo ao seu redor: a construção da cidade, a casa abandonada, as frentes das lojas, a praça que nunca visitou, o posto de gasolina em reforma, o viaduto que fica deserto de madrugada...

Retire a sua segunda venda.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

“Isso que vocês fazem é insignificante.”.




No treino de ontem estávamos no Pico 1055, um casarão abandonado que é incrível para o Parkour e que para ter acesso ou você precisa saltar o muro ou se esgueirar por uma brecha com arame farpado.

Eu já estava fazendo as últimas movimentações do dia quando ouvi uma voz de mulher no portão da entrada. Pensei que era a dona do casarão ou até a polícia que estava reclamando com os meninos, então saí correndo de onde estava e me coloquei em um ponto no último andar onde eu podia ser visto e saber o que estava acontecendo.

- ... eu estava com ele agora. Vocês não sabem o que é passar por isso. Tão lindo que nem vocês, com uma juventude toda pela frente. Ele é lindo! Vocês não fazem idéia do que estão fazendo não. Vocês podem brincar com outras coisas. Tem tanto esporte que é mais legal por aí e que é bonito de se ver. Tem o Tênis e aquele outro, como é o nome?, o Futevôlei que vocês estão fazendo agora! Eu não posso impedir vocês de pularem aí não. Mas eu que sou a mãe dele. Eu passei essa manhã toda na Santa Casa com meu filho. Você sabe o que é ter que dar comida na boca dele, escovar os dentinhos e ter que trocar a roupa? Um menino que tinha tanta vida. Hoje os colegas dele até o abandonaram, sabe? Antes chovia convites de festas, mas agora ninguém liga mais pra ele. E ele é tão lindo! Parece com esse moreninho, meu filho! Eu sei que é um esporte, mas esse aí que vocês estão fazendo só vai trazer sofrimento a sua família. Vocês não precisam disso. Isso que vocês fazem é insignificante. Por favor, nesse natal me dêem um presente: Pensem no que vocês estão fazendo, nas suas mães e porque vocês estão fazendo isso. Se vocês quebrarem as duas pernas, os dois braços, a bacia ou então as costelas, isso não vai ter problema! Há conserto pra isso tudo e vocês são jovens! Mas meu filho quando caiu bateu foi a cabeça. E vocês não sabem o que é a cabeça! Ela controla cada partezinha do seu corpo! A gente pensa que o nosso corpo é muito forte às vezes, mas é só preciso uma pancada na cabeça para você perder sua vida inteira. Ele não tem coordenação motora mais nenhuma! Às vezes eu acho que é pior do que morrer. Eu não tenho mais a minha vida. Só vivo em sessões de psicólogo com ele e de médico em médico. Mas eu amo tanto o meu filho e eu amo vocês também. Então por favor, pensem no que vocês estão fazendo.

O jeito mais rápido de descer era fazendo um salto do andar de cima pro de baixo. O movimento foi tão natural para mim que na hora não percebi que isso podia assustar ela ainda mais ou então ser encarado como um deboche a tudo que ela falou.

Mas eu desci. Mesmo sujo e suado. Me aproximei da grade, passei pelo buraco com o arame farpado e quando cheguei até ela perguntei se podia dar um abraço.

- Claro que sim, meu filho!

E ali mesmo ela começou a chorar.

Agradeci toda a preocupação comigo e com o restante dos meninos. Disse a ela que é difícil encontrarmos pessoas que cuidem umas das outras e que esqueçam um pouco da frieza e do ritmo frenético que a vida hoje nos impõe. Confirmei a ela também que o filho dela tem muita sorte de ter uma mãe com essa fibra e com esse amor.

Eu sempre sou o cara que irá defender e argumentar em favor do Parkour. Não tenho problema algum em gastar 30 minutos do meu treino explicando passo a passo do que faço e do porque estou fazendo. Chamar o que eu faço de “insignificante” seria praticamente um convite para uma discussão das boas...

Mas nesse dia, eu não tive coragem. Eu sequer teria direito a fazer isso. Ela é uma mãe. E com uma mãe ferida, em desabafo e em manifestação pura de amor e afeto com o próximo, você não argumenta e nem tenta estar certo. Pode ser o assunto que for e você pode se achar correto como for.

Diariamente o Parkour me proporciona situações, ensinamentos e me dá motivos para pensar, questionar e aprender. Mesmo que ali eu estivesse por ele, neste dia o grande professor surgiu em forma dessa mãe: Dona Edineuza.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Um treino qualquer com Finha


O treino está marcado pra 15:00. E as 15:00 em ponto eu e ele chegamos.

- E aê?
- E aê.

Sem brincadeira, essas foram nossas únicas palavras durante toda a tarde.

Nas duas horas seguintes, embora os dois estivessem sempre no mesmo lugar, os únicos sons que conseguíamos ouvir eram os dos pés nos muros, o amortecimento das precisões, as raspadas, as passadas e os tombos. O engraçado é que não rolava em nenhum momento o pensamento de que "estou treinando sozinho". Não havia tempo pra isso.

O espaço era gigante (o centro de criatividade), mas aquele clima de silêncio e concentração fazia o treino render tanto que nos contentávamos com somente o básico e as repetições. Somente o correr e o passar.

Nesse momento não pude deixar de refletir: "Quantos não já teriam reclamado do lugar? Quantos não teriam a criatividade suficiente de inovar a cada minuto? Quantos não já teriam enjoado do que fazíamos ali?". Tudo se dava de forma bastante natural e transmitia a mensagem que guiava o treino dos dois: ser simples e ser Parkour.

Mesmo quando decidíamos trocar de ambiente, não haviam palavras. Um saia da vista do outro e o que ficou para trás logo em breve trazia as mochilas dos dois.

Quando o calor se tornou insuportável, decidimos quase que ao mesmo tempo tirar as camisas. Revelamos o óbvio: corpos lavados em muito suor.

De vez em quando compartilhávamos um mesmo percurso ou movimentação. Não era nem sequer aquela competição saudável de um instigar o outro. Era apenas uma mente alerta sugando experiência de uma outra mente alerta. Não existia o certo. Não existia o errado. Só existia o treino.

Eu sou sempre muito reclamão. Pra mim quase nunca alguma coisa está boa. Mas todas as vezes que treino com Finha volto pra casa muito feliz e com a sensação de dever cumprido.

Acredito que a palavra que define tudo isso é muito respeito:

Respeito que tenho por ele.
Respeito que ele tem por mim.
Respeito que temos ao que ambos buscamos.
Respeito ao espaço que estamos ocupando e as pessoas a nossa volta.
E respeito esse que deveria estar presente  nos treinos de todos. Sempre.

A todos bons parceiros de treino, meu muito obrigado e meu respeito.

domingo, 18 de novembro de 2012

Um Chamado à Luta (Tradução do Texto do Blane)

O novo texto do Blane "A Call To Arms" me tocou tanto que eu passei mais de um dia pensando no assunto até que decidi pedir a ele autorização para traduzir. Isso precisava ser lido por todos. Gastei algumas horas lapidando o vocabulário o mais que pude para que o mesmo sentimento com que ele escreveu pudesse ser entendido pelos brasileiros.

Inspirem-se, utilizem do texto e o repassem (em seus blogs, inclusive) sem moderação. Às Armas!

Agradecimentos ao Bronze pela tirada de dúvidas em alguns pontos.

 

Um Chamado à Luta (A Call To Arms)
Por Chris "Blane" Rowat
Tradução: Duddu


Desde quando uma travessia de 30 metros com uma criança pendurada em suas costas tornou-se menos importante do que um salto de 18 pés entre dois pontos e com uma aterrissagem grotesca? Estou pouco me lixando para suas passadas gigantes e barulhentas, pois há gente por aí com 43 anos, o dobro da sua idade, duas vezes mais forte e que cai de 2 metros e não faz o menor barulho.



As coisas que deveriam importar para o Parkour, não mais importam - e as coisas que hoje são largamente consideradas como impressionantes não são mais quando você as analisa com calma. Nossos valores estão sendo corrompidos.

Algumas vezes, tento olhar para o Parkour de forma neutra, como se eu nunca tivesse ouvido falar sobre ele antes.

O que eu acharia dele se eu tivesse ainda 17 anos e o descobrisse agora, ao final de 2012? Imagino que acharia bem legal e que provavelmente iria mergulhar nesse mundo também. Só que, diferente do que eu vi nove anos atrás, ele não iria me impressionar tanto como fez.

Se você terminar de ler esse artigo e se convencer a respeito dos valores que eu acredito dentro do Parkour, então você irá também se convencer de que se eu não me esforçar para espalhá-los eles irão desaparecer.

Os novos iniciantes irão somente enxergá-lo como uma atividade de pular de locais altos e não como uma prática extremamente versátil e acessível para qualquer um com o desejo de encarar desafios, conhecer e melhorar a si mesmo.

O que eu vi no Parkour em 2003, aos 17:
  • Uma elite de poucos com qualidade de movimentação e atenção aos detalhes em cada movimento que fazia e que esse nível era somente alcançado através de milhares de horas de deliberada prática e treinamento.
  • O espírito de um guerreiro insaciável com seu treinamento e com garra para encarar qualquer desafio, seja ele físico, técnico ou mental.
  • Uma comunidade em crescimento, positivista e inspirada por todos aqueles que vieram antes dela.
  • Um sistema de treinamento e uma comunidade que dava valor a todos os aspectos do Parkour de forma igualitária, e uma consciência coletiva interessada em um Parkour que durasse a vida inteira e não somente alguns meses.
O que eu vejo em 2012, aos 26:
  • Um crescimento em massa do número de praticantes ao redor do mundo.
  • Big jumps.
  • Péssimas aterrissagens.
  • Competições.
  • Uma preciosa minoria tentando se manter de pé sobre os velhos valores e duvidando de suas razões em fazer isso…
  • ...e ultimamente, uma mudança do que é creditado como sendo Parkour.
E é justamente com essa pouca minoria que luta e sobre essa mudança de valores que eu me preocupo.

Eu sou responsável por deixar essa mudança acontecer sem encará-la, tanto quanto é responsável todos aqueles da “minha geração”.  Nós todos ficamos de lado, deixamos o Parkour evoluir, ser modificado e se alastrar pela Internet sem que disséssemos: “Espere um minuto, isso é bom... mas e todas aquelas outras partes do Parkour por qual eu me apaixonei? Onde estão?” 

Eu tento sempre ensinar meus alunos com esses valores em mente e eu sei que um bocado de homens e mulheres também fazem o mesmo por aí. Mas acontece que não é suficiente mantermos esses valores que nos cuidamos com tanto carinho presentes somente em nossas aulas em algumas cidades ao redor do mundo. Temos que mostrar isso em larga escala se quisermos mantê-los vivos. E mais importante do que isso, precisamos nos preocupar em deixar nossos testemunhos para que eles possam ser encontrados por todos aqueles que vierem a se interessar pelo Parkour em busca de algo mais do que big jumps.

Nos últimos anos que se passaram, ao invés de nos mantermos firmes e acreditar nos ensinamentos que passamos a admirar quando conhecemos o Parkour, dia a dia, vídeo a vídeo, nosso sistema de valores foi corrompido. Mesmo aqueles poucos que ainda hoje acreditam que Parkour é para todos, pode sentir que está regredindo, que não é tão bom quanto o cara novo, porque ele consegue fazer um salto que você não acha que consegue, ou talvez você nem tenha vontade de fazer.

Mas se você se lembrar dos valores que te trouxe a prática, então você não irá se importar em saltar tão longe quanto o “cara novo”. Lembra do que uma vez você aprendeu? O que é um salto, grande ou pequeno, sem uma boa aterrissagem? Quando foi que melhorar suas subidas de muro, suas flexões, seus agachamentos, seu quadrupedal ou então aumentar o seu recorde de ficar pendurado (se cair você morre!) se tornou menos prazeroso do que aumentar a distância de seus saltos?

Eu já vi em alguns treinos em grupo as pessoas fazerem piada com o cara que estava lá atrás se fudendo com um colete de peso e tentando fazer suas barras ficarem mais fortes. Quando foi que o que estava sendo executado por ele tornou-se uma parte inferior do Parkour?

Os desafios físicos não são algo novo no mundo do Parkour. Ao menos desde que ele existe, os desafios físicos são parte inerente a ele. Na verdade, como alguns de vocês irão se lembrar, muito antes dos saltos chamarem a atenção, os desafios físicos ERAM o Parkour.

Hoje não são mais. Os desafios físicos (e até mesmo, o treino físico) são atualmente espécie em extinção.



A ênfase mudou com o passar dos últimos anos e o Parkour não é mais o terreno perfeito para se testar do que a pessoa é feita fisicamente, tecnicamente, mentalmente... e emocionalmente.

Não é mais um desafio de saber se você é capaz de correr de uma cidade pra outra e se aventurar a retornar antes do pôr-do-sol. Não é mais um desafio para saber se você consegue empurrar um carro velho numa ladeira com os amigos que você riu e chorou durante o dia. E não é mais sobre conseguir entender o valor de se saltar para uma árvore molhada em caso de um dia você tiver que resgatar um desses amigos que ficou preso nela.

Agora é amplamente visto como um palco para talentos, uma oportunidade para as pessoas mostrarem ao mundo como eles conseguem saltar mais distante do que os outros. Ou então como eles estão dispostos a viajar metade do mundo para fazer o mesmo salto que viu outro cara realizar num vídeo do ano passado.  Só que agora ele chega lá e faz de side-flip.

Eu vejo competições onde o “Melhor Atleta de Parkour” e os “Campeões Mundiais” gastam 37 segundos de corrida tentando fazer qualquer coisa mais impressionante do que o cara que se apresentou antes dele. Isso tudo antes do tempo acabar ou dele ficar sem fôlego. 37 segundos de uma perfomance medíocre? Eu tenho treinado com homens e mulheres que poderiam durar 37 minutos naquela mesma intensidade.

Quem deixou essa babaquice ganhar espaço sem resistência? Quando foi que isso se tornou o foco? Quando foi que fazer um salto mais longe que alguém se tornou algum valor para o Parkour? Quando foi que visitar um pico pra repetir os mesmos movimentos que alguém já fez se tornou a meta? Eu detesto admitir, mas fomos nós que deixamos essa merda crescer. Permitimos isso quando passamos a duvidar de nós mesmos e passamos a cogitar a possibilidade de um big jump ter alguma importância.

Aqui esta o vídeo de Jesse Owens saltando 26 pés (algo próximo a 8 metros) em 1936, Berlin, Alemanha.
 

Esse é um salto enorme mesmo para os padrões e a metodologia avançada de treino que temos hoje em dia. E esse salto não é só distante, mas muito, mas muito mais distante do que qualquer salto já realizado por qualquer praticante de Parkour entre dois pontos. Então porque a comunidade do Parkour (e, de fato, o mundo) fica impressionada quando alguém pula 18 pés entre dois muros e desmorona como se ali tivesse alguma caixa de areia como a de Jesse no vídeo? É porque eles são “corajosos” o suficiente de fazer isso em uma fenda? Em muitos casos o medo de cair só é derrotado pelo pensamento em ficar imortalizado no Youtube diante de milhares de pessoas vestidas em seus pijamas. É isso que você entende por “coragem”? Se for, então, por favor, feche essa página agora porque não há nada aqui pra você.

Mas se tem uma razão pessoal e válida para fazer um salto que carrega um risco para provar algo a si mesmo e então ultrapassar sua própria compreensão e responder as suas dúvidas; agir quando tudo dentro de você quer sair dali e ir para casa com intenção de provar SOMENTE algo a si mesmo; então isso é que é coragem e determinação. E esses são alguns dos valores que verdadeiramente foram construídos no Parkour. Os mesmos valores que a cada dia desaparecem diante de seus olhos. Ficar eufórico e se esforçar o máximo que puder para provar seu valor diante de alguém que esta do outro lado da internet, ou porque seu amigo já fez aquilo uma vez, somente revela imprudência e alguém com vida curta dentro do Parkour.

Eu gostaria de acreditar que a maioria das pessoas que estão lendo esse texto irão concordar que Parkour deixa de ser Parkour sem algum desses valores. Valores como coragem, decisão, fortalecimento, força, disciplina, dedicação e longevidade. Valores como humildade e altruísmo. Integridade.

Existem diversas maneiras que podemos ajudar a mudar positivamente o futuro de nossa prática e o melhor ponto de partida, e o jeito mais fácil, é não permitir que esses valores sejam perdidos.

Podemos inspirar a próxima geração de praticantes e permitir que eles compreendam que Parkour é muito mais do que realizar saltos impressionantes apenas fazendo com que nossas opiniões não adormeçam.

Comente nos vídeos, faça upload do seu próprio, escreva artigos, ensine, converse, viaje e treine da maneira que você acredita que o Parkour deveria ser treinado. Deixe as pessoas verem esse lado aonde quer que você vá. Represente e seja.

Esses valores não precisam ser manifestados como os desafios que mencionei anteriormente, mas ultimamente a única maneira que podemos significativamente crescer é encarar e se adaptar para superar essas adversidades. Isso pode ser feito da mesma forma que você encara um salto, quando ele te amedronta porque você crê que vale a pena enfrentar o seu medo e testar sua habilidade.




Pode ser de forma técnica. Ou talvez seja repetindo uma precisão correndo para um corrimão fino e tentando aterrissar perfeitamente 3 vezes consecutivas. 10 vezes em seguida. 50.

Ou talvez seja um desafio físico afinal. Você pode simplesmente escolher um dos seus exercícios favoritos e fazer um teste pra saber até quando você agüenta refazê-lo. Testar quantas repetições você consegue executar em dez minutos ou quanto de peso você consegue erguer depois de 6 meses de treinamento dedicado.


Na verdade, não importa qual será o desafio. O que importa é que você se desafie com freqüência a fim de realmente se conhecer e saber do que você é feito. Esse confronto e disposição para encarar obstáculos é o coração da fera que o Parkour é, e que infelizmente, a cada ano que passa ele bate cada vez mais devagar. Mas é essa exposição regular a desafios, tal quais esses que montamos, que irá disseminar esses valores nas pessoas.

O que as pessoas parecem não perceber é que um garoto de 19 anos que consegue saltar 18 pés, depois de um ano de treinamento, muito provavelmente não estará mais aqui nos próximos.

Poucas pessoas permanecem mais do alguns poucos anos nesse jogo, seja por conta de um machucado, perda de interesse ou qualquer outro dos incontáveis motivos. Então, ainda que o que ele faça seja impressionante, sim... o que você está treinando para fazer, 'ser e durar', pelos próximos 10, 20 anos... e mais, ainda forte, progredindo, treinando e se divertindo com o Parkour... Isso é muito mais impressionante para mim. Estes são os valores e os objetivos que me impressionaram e que existem naquela pequena elite que mencionei anteriormente. Estas são as coisas que eu não verei perdidas nos anos que estão por vir.
                                                                                                 
Não peça desculpas a respeito dos valores que você acredita e, mais importante ainda, não permita que o Parkour os perca se você acredita neles! Parkour vai se desenvolver e se tornar o que ele tiver que se tornar diante dos olhos de todos, mas se mantenha firme no que você considera importante porque você não está sozinho!

Não o deixe morrer ou então a próxima geração poderá jamais ver ou experimentar o que você viu e fez quando você descobriu o Parkour. Deixe o desafio e a longevidade moldar seu treinamento, seu objetivo e suas motivações. Estabeleça seus próprios desafios, mesmo se alguns deles parecerem impossíveis, pois mesmo neles você aprenderá um bocado. Lembre-se que o desafio não é um desafio se você não sabe como realizá-lo.  Pegue um envelope, faça um convite à dúvida e a sua descrença e transforme esses velhos inimigos em seus aliados. Encare hábitos que parecem ser insuperáveis, freqüentemente, e então você crescerá como pessoa.

Se você quiser repetir aquele pequeno salto, aquele com um ângulo complicado, para uma parede coberta de limo. Se você pretende treiná-lo até chegar o dia em que você poderá realizá-lo com os olhos fechados... então meu caro amigo, você não está sozinho! Eu quero repetir esse salto com você! Mas vamos fazer 50. Só pra ter certeza. E um a mais por aqueles que não podem se juntar a nós. Isso fará a nós dois um bem maior do que aquele salto por cima do telhado carregando uma câmera.

Nós somos uma minoria agora, mas juntos nós somos ainda uma influência sobre aqueles que dizem que praticam Parkour. Ainda podemos fazer nossa mensagem ser ouvida por todos aqueles que conhecerão o Parkour agora, e nos próximos anos.  

Este é um chamado à luta para aqueles que ainda se consideram a vanguarda do Parkour. A hora é agora. Faça a diferença mostrando, compartilhando e sendo todos os outros lados do Parkour que conhecemos e amamos. Os lados que muitos de nós estamos vendo ser esquecidos enquanto a nossa prática cresce.




Blane

domingo, 28 de outubro de 2012

Guia de Viagem do Tracer




Originalmente esta seria somente uma postagem normal no blog. Mas acontece que ela foi tomando proporções maiores, a necessidade de detalhar um ou outro tópico surgiu e no final eu já estava era com um monte de páginas escritas!

Então, pra eu não ter que ficar respondendo sempre  as mesmas perguntas sobre "duddu, como faz pra viajar?", eu resolvi condensar algumas dicas em uma espécie de livrinho. Ele traz os pontos chaves das minhas viagens e de como eu me acomodei a me organizar para elas.

Para quem nunca viajou "a serviço do Parkour" essa é uma boa desculpa hora pra começar. Se você já viaja, espero que alguma coisa dentro dele possa te ser útil.

Vou colocar o link para download aí embaixo porque eu sei que você jamais iria ler se eu colocasse linha a linha por aqui. ¬¬

Bjos a todos e venham para o nordeste e me convidem também para suas casas! *_*

Guia de Viagem do Tracer - 1ª E-Pretendo-Que-Única-Edição