Eu estava acordando e o Pop e o Bruninho chegaram todos suados em casa dizendo
que tinham um desafio para mim (e que eles supostamente tinham acabado de
fazer):
- 5 minutos girando os braços esticados horizontalmente e sem parar.
- 10 minutos seguidos de cadeirinha.
- 10 minutos sem pausas na posição de flexão.
Fomos para a garagem e comecei a fazer com eles dois muito excitados ao meu lado e rindo pra caramba.
Desconfiei que ali tinha alguma pegadinha, mas continuei. Girar o braço cansou muito meu ombro e a cadeirinha foi tranquila (certa vez eu fiz 45 minutos lá em Aracaju durante um desafio, então medidas menores do que meia-hora na cadeirinha não me assustam mais). Quando atingi os
primeiros 5 min na flexão eles dois se juntaram ao chão e disseram que haviam
mentido: só tinham aguentado 5 min e queriam ver se eu ia topar o desafio de
fazer os 10 diretos. Ficamos os 3 ali até os 10.
Quando o 10 chegou, o Pop se lavantou e o Bruninho disse que ia ficar um pouco mais. Eles comentaram que viram esse desafio no blog do Blane: em uma de suas maluquices, o fdp chegou a ficar 45 minutos naquela posição. Debatemos o
quanto isso foi cavalice e doentio e, em homenagem a ele, eu disse ficaria até os 20 minutos.
Quando o cronômetro marcou 00:30 eu disse: “olha, eu acho que consigo muito
mais só que vocês tem que ficar conversando aqui comigo porque isso é muito
entediante”. Eles puxaram conversa sobre vários assuntos (alguns idiotas por sinal) e o tempo foi passando.
Meu ombro queimava, o abdômen começou a incomodar bastante e o quadríceps estava
doendo e tremendo desde a cadeirinha (e havíamos treinado de tarde). Para aliviar, em alguns momentos, eu ficava
só com uma das mãos no chão ou somente um dos pés.
Desenvolvi algumas técnicas
para aguentar o cansaço como por exemplo jogar o peso do corpo mais para a ponta
dos dedos e ora para a palma. O mesmo fazia com os pés: ora jogava o peso para
a panturrilha (ficando na ponta do pé) e outra ficava na posição normal. Algumas
vezes eu levantei o quadril, mas foram breves momentos.
O que mais incomodou no final das contas foi à palma da mão: os ossos começam a
doer muito por causa do peso e eu tive que fazer punho cerrado em alguns
momentos para aliviar o incômodo e suportar.
Uma mulher entrou na garagem e ficou olhando pra gente com cara de "não entendi". A poça de suor embaixo de mim ia crescendo consideravelmente e passou a ser legal esperar as gotas pingarem no chão. Mais uma distração.
O Pop e o Bruninho foram lá falar com Annty (amiga francesa e que estava no desafio quando o Blane o fez) e ela disse que o Blane só parou em 45 minutos porque as pessoas ao lado dele pediram para parar. O cara é realmente um monstro. Decidi que ia então continuar até completar a hora. Minha paciência já estava acabando.
Quando o relógio bateu 01:00:12 eu mal pude acreditar na idiotice. O que era pra ser somente
10 minutos, em um teste de resistência, havia se tornado 6 vezes maior. Coisa de quem não tem o que fazer mesmo.
Meu
trapézio ainda tá doendo mesmo agora depois de ter dormido. Mas é a vida. Ele
vai se curar em breve e eu poderei fazer uma nova doidice mais tarde.
Agora tô saindo pra acampar com os meninos. Morram todos.
Antes de começar a ler eu
gostaria que você entendesse que o termo política ao qual me refiro é o
conhecido como “a ciência da organização”; o modo como as coisas se estruturam
e se estabelecem. Não estou falando somente de cargos públicos como os que
existem nas Associações de Parkour de todo o Brasil e nem somente dos líderes
que encabeçam qualquer grupo ou evento. Estou levando em consideração todos os
processos que se estabelecem dentro de nossa atividade.
Como já estive a frente de uma
pancada de projetos e atualmente presido duas associações (a brasileira e a
sergipana) tenho algumas observações a fazer e, por esse motivo, todas as
críticas que aqui serão feitas cabem também a mim mesmo.
O praticante de Parkour é a célula
mais comum de todo esse processo organizacional. Ele deveria ser a pessoa que
detêm o maior poder dentro do Parkour e, no entanto, não é o que se vê por aí.
De uma maneira geral, e falando sem papas nas línguas, na maioria das vezes eu
considero o praticante de Parkour um imbecil. Imbecil por não saber do poder que
ele possui e por não tentar aprender a utilizá-lo. A prática que ele carrega no
peito e nas camisas é o símbolo de uma transformação intelectual e social do
ser humano. É uma revolução de dentro para fora e que culmina em um grito de
autonomia. Ao menos deveria ser isso.
O que vejo constantemente, e a cada dia mais essa vertente cresce, é que os
praticantes normalmente gostam de fingir que são livres. Pulam nas praças para
exercer essa liberdade e esquecem que continuam prisioneiros de uma mente
medíocre. Uma mente que aceita o que lhe é imposto de boca fechada. Uma mente
que não é capaz de lutar pelo que acredita. Uma mente que todos os dias baixa os
olhos para o que se vê de errado e se borram de medo de questionar ou
contrariar as “mentes superiores”.
No Parkour, e fortemente no
Brasil, vivemos em uma política onde os que brilham ao sol detêm o poder da
palavra e controlam os passos de seus seguidores. Se o ícone do momento
determinar que a nova tendência é usar sapato alto para se equilibrar em uma
barra, você assistirá vários tombos de pessoas que preferem estar dentro da
moda do que procurar entender se essa ordem tem algum fundamento.
Mas esses praticantes não são
burros somente por isso. Eles são burros também porque antes de serem
praticantes ruins eles são seres humanos socialmente ruins. Estão acostumados a
serem ordenados por seus pais, seus professores, as autoridades, as leis, o
governo e não conseguem se desprender da inércia e se tornarem capazes de entender
o seu papel dentro deste círculo.
O Parkour para muitos não gera
liberdade mental. Não se questiona o que faz; o porquê se faz; quem se é; e o
que se quer.A grande maioria prefere
ser folhas ao vento. Prontas a manipulação daqueles que tiverem a coragem para
levantar a voz (participar do próximo campeonato na gringa, assumir uma
presidência, declarar-se líder de um grupo, abrir um site, dizer que inventou
um movimento, se aventurar em programa de auditório, aceitar o papel em um comercial
ou novela... etc.).
Esse nicho não é podre em sua totalidade. Existem (eu os conheço e você os
conhece também) aqueles praticantes que encontraram uma nova vida dentro do
Parkour. E quando isso acontece gera-se uma energia tão monstruosa que as pessoas
comuns (e os praticantes medíocres a que me referi lá em cima) tornam-se
pequenas a ponto de quase sumirem no chão. Esses caras gigantes, que sim, são
os estandartes de ouro de nossa atividade. Eles carregam os valores e os
ensinamentos de uma vida de dedicação em cada treino que comparecem. Em cada ida
a padaria. Em cada atitude e ação que proferem.
Eu diria que eles são pessoas
abençoadas. Porque viver sob a proteção dessa força só pode ser classificado
como uma benção. Esses praticantes tornam-se líderes sem levantar a voz.
Adquirem uma reputação praticamente inquestionável. E, a não ser por aqueles
que não possuem sua bravura de espírito, todos parecem por ele simpatizar e
admirar. Às vezes você nunca os viu pessoalmente. Às vezes nunca falou com ele
diretamente. E talvez ele nunca saiba o quanto você é grato por ele ser quem
ele é.
Eu sempre questionei um pouco a
postura de alguns desses ícones. Apesar de eles serem meus ícones também; as
pessoas que eu carrego como exemplos e o ombro amigo que me serve de âncora
para o que eu quero me tornar; algo para mim não parece estar correto quando
eles tomam certas atitudes excludentes.
Alguns deles, aos meus olhos, são
pilares de várias gerações de praticantes, e, no entanto, algumas vezes eles fazem
questão de não fazer parte de qualquer processo organizacional. Eles se
acomodam em suas vidas e sofrem calados ao observar que a atividade que amam
esta sendo corroída e destruída por pessoas que não a compreenderam e não sabem
muitas vezes o mal que fazem. Hoje entendo que isso não é uma covardia, mas a
opção de quem optou em educar através do exemplo. Apesar de todos os pesares,
ele sempre estará ali, como uma rocha, esperando qualquer praticante ou
interessado que opte, como ele optou, a trilhar o caminho das pedras.
Eu questiono essa postura somente
porque eu não me vejo com tal nobreza de espírito. Considero que é fácil demais
fazer a minha parte sem olhar pro lado, focar nos meus treinos e deixar o mundo
fazer o que quiser com o que eu aprendi a amar. Eu aprendi sozinho que o que me
foi dado de bom grado deve estar acessível a todos os que queiram seguir os
mesmos passos que eu trilho dia a dia. Quando esses gigantes do Parkour deixam
de manifestar sua opinião, deixam de militar mais diretamente pelo que
acreditam e se fecham em seu universo particular, eles perdem boa parte do
brilho que deveriam ter pra mim. Porque eles optaram por abandonar a atividade
que os abraçou nas mãos de quem não a merece; sendo que ela é ainda um bebê, tão
jovem, imatura e nem caminha com as próprias pernas ainda. Ela precisa de toda
ajuda e carinho deles e eles parecem, muitas vezes, não compreender isso.
Mas o Parkour conta ainda com
pessoas que enfrentam batalhas diárias em favor dele. São aqueles que citei no
primeiro parágrafo: os que se dedicam a ensinar, a organizar, a estruturar, a
cobrar dos setores públicos um reconhecimento.Eles são instrutores, líderes, presidentes, simpatizantes de causa e
pessoas com energia para colocar em ação.
Quando essa pessoa, coincidentemente,
é um praticante, a coisa é linda. Temos boa vontade aliada ao conhecimento de
prática. É a fórmula certa para que se construa algo sólido e único.
Infelizmente esse ser mágico só se manifesta em um, a cada mil praticantes. Cá
pra nós, o praticante de Parkour comum só gosta de trabalhar se for em prol do
seu próprio treino. E nem isso muitas vezes anda acontecendo.
O senso de coletividade real e o
interesse que a prática cresça e esteja disponível para todos não é o consenso
da maioria. Essa ausência dos “praticantes apaixonados pelo Parkour no poder”
deixa aberto o espaço para todas as pessoas que tem disposição e vontade de
trabalhar e que não necessariamente estão nas ruas.
Entramos em uma sinuca de dois
bicos e colocamos nossa atividade em uma espada que corta dos dois lados. As
decisões que forem tomadas por esse tipo de organizador, nem sempre irão
refletir os interesses dos praticantes. Existem alguns exemplos que posso
utilizar para esclarecer melhor:
Um instrutor de Parkour pode ter sempre o melhor estudo, o melhor preparo
teórico e a melhor didática de instrução. Porém, se ele não foi um praticante,
se ele não viveu o que um praticante vive e se ele não sofreu e se alegrou com
o que os praticantes sofrem e se alegram todos os dias, como ele será capaz de
transmitir adiante esse conhecimento? Sei que em várias áreas isso é possível.
Técnicos de futebol que nunca pisaram em campo. Técnicos de ginástica que não
sabem dar um mortal. Porém, o Parkour não se trata de um esporte defendido em
cima de um conjunto de regras claras. Muitas vezes nem o próprio praticante tem
autonomia de interferir na movimentação alheia, simplesmente pelo fato de se
tratar de corpos diferentes com mobilidade motora diferente e adaptação aos
obstáculos de forma diferente. Como você irá compreender que o calo aberto na
mão de seu aluno dói, mas que aquela dor é uma dor que se ele compreender o significado ele é
capaz de abstraí-la e voltar a treinar, se você mesmo nunca abriu esse mesmo
calo? Como você pedirá para ele continuar e ser firme em seus objetivos se você
nunca passou se quer próximo do pensamento que está tentando fazê-lo
compreender? Não digo que é impossível termos ótimos instrutores que não são
praticantes, mas eu acredito que qualquer praticante, de respeito, entenderá sempre
infinitamente mais do que qualquer um desses mestres da teoria.
Da mesma maneira se encaixa os
organizadores de grupos. Aqueles que estão a frente de projetos, palestras, os
teóricos do Parkour, os donos das associações nacionais e os que batem no peito
para apresentar seus eventos em prefeituras e órgãos públicos. Que maravilha
que eles têm força e atitude para correr atrás disso tudo! Mas será que eles
também não executam outro papel que deveria ser dos praticantes? Freqüentemente
vejo pessoas tomarem decisões, de sua cadeira acolchoada, que irão interferir
diretamente nos treinos de quem estará se arrombando nas ruas.
Eu não consigo entender essa
lógica a não ser que transformemos o Parkour em um órgão público ou na casa da
mãe Joana, onde as pessoas podem meter a mão e fazer dele o que tiverem
vontade. Como um organizador desse calibre irá manter vivo os valores que os
praticantes acreditam, se eles muitas vezes não sabem quais são eles? Como um
organizador desse calibre tomara a decisão de plantar uma barra no chão, sendo
que não é ele quem irá colocar a mão nela todos os dias? Como um organizador
desse calibre poderá entender o que de fato é importante para aqueles que
executam a prática todos os dias nas ruas, se eles mesmos não estão nessas ruas?
Eles não sentem a rua. Eles não sentem os treinos. E eles não respiram o
espírito que o praticante respira.
Existem características que eu desenvolvi com a prática do Parkour que eu não
consigo expressar em palavras. Eu tento, mas elas não são fieis ao sentimento.
Quando eu encontro um praticante, treino ao seu lado, ele entende isso tudo sem
que precisemos falar uma única palavra. Ele vive meus dilemas e as minhas angústias.
Ele passa pelos mesmos perigos e se alegram com as mesmas pequenas vitórias.
Um
organizador do Parkour, em qualquer setor que seja, sem o coração de um
praticante de Parkour, é uma arma apontada ao acaso e que pode contribuir com
um bem enorme para a atividade (uma vez que os próprios praticantes muitas
vezes não contribuem com nada, não querem saber de nada, e não passam de mortos-vivos
fingindo que adquiriram o controle remoto de suas vidas), mas eles também podem
ser a depredação de nossa atividade, pois eles não sentem o que sentimos, não
sofrem o que sofremos e não entendem e nem compreenderão jamais o que de fato para
nós é importante. Mas eles tomam nossas decisões. E as decisões do futuro de
nossa atividade.
Eu não sei a solução para esse
impasse.Quer dizer, eu sei, mas ela é utópica.Se tivesse o poder, eu gostaria
de expulsar de todos os cargos políticos existentes no Parkour aquelas pessoas que
não estão nas ruas enfrentando os muros. E em seu lugar eu colocaria os
próprios praticantes no comando. Mas isso somente se eu pudesse ter certeza de que
esses praticantes seriam os de coração e que aprenderam a edificar todo o seu
mundo ao redor dos ensinamentos que aprenderam. Não os mortos-vivos!
A política é um fenômeno existente
em todas as esferas da sociedade. Não é coisa de quem somente teoriza. Se você
nunca parou para pensar sobre ela, você merece a vida que você tem e você não
tem direito algum de reclamar quando as coisas não saírem da forma como você
esperava. O que você fez para evitar um futuro que não te agrada? Você é um parasita que sobrevive em um
mundo que não merece.
A primeira lição que um praticante
de Parkour deveria aprender é a ser um guerreiro.A ser forte, a ter princípios
e a lutar. Quando uma vez foi dito que “ O Parkour é uma arma camuflada” todo
mundo achou a frase genial e saiu pregando aos 4 ventos. Um bando de espartanos
do filme “300”! Mas poucos descobriram que essa é uma arma que espera em silêncio
ser sacada para defender a própria atividade. Portanto, das duas uma: ou
aprendemos agora a levantar nossas vozes em prol do que acreditamos, ou então
vamos todos nos silenciar na vergonha de um destino que ajudamos a criar por
omissão.
Se optássemos pela primeira opção,
acho que teríamos um mundo melhor e um Parkour muito mais bonito do que já é.
Praticamente todas as semanas alguém vem me pedir orientação ou ajuda sobre rotinas de treino. Como normalmente estou a minha vida inteira fazendo alguma rotina maluca, vou começar a divulgar esses projetos de treinos para que outros possam criar os seus próprios ou então adaptá-los a sua realidade.
O "Corra, Pop, Corra" é um treino que construí para meu amigo Adriano Diamarante (o Pop), de Maceió. Ele me pediu um treino onde:
- Queimasse calorias (Treino Aeróbico)
- Ganhasse velocidade e força de explosão (Pliometria)
- Aplicasse o seu ganho diretamente ao Parkour (Treino Funcional)
O resultado foi um treino muito bom, puxado, capaz de ser levado até o final por praticamente qualquer pessoa que se esforçar e um treino excelente para o Parkour. Eu mesmo o tenho utilizado pelo menos 3 vezes por semana. E além de tudo é um treino curto. Menos de uma hora de duração e você terá treinado muito, numa ótima intensidade e notará um ganho de força, condicionamento físico, resistência e explosão em pouco tempo. Tenho feito ele antes de praticamente todo treino de Parkour. Como aquecimento.
O Pop estava semi-gordo quando começou e agora já está em forma de tanque de guerra!
Como elaborei o treino para ele, já o tenho todo documentado. Vou conversar com ele pra ver se ele não quer gravar umas cenas para que eu possa criar um vídeozinho como o do Caba Macho. Assim terei mais um treino físico pra indicar quando vocês vierem aqui me enche... perguntar sobre esse assunto.
Dentro da corrida, marque dois
pontos (início e chegada) e faça um pique sem pausa. Se estiver sem pontos de
referência, conte 10 segundos no pique. Quando acabar, volte pro ritmo normal
(sem parar de correr de jeito nenhum). Espere sua freqüência cardíaca e
respiração normalizar e quando estiver pronto decida quando irá fazer o próximo
pique.
Dentro dos 20 min da corrida, você tem que realizar 4
piques.
Finalizou, recupere o fôlego por no máximo 3 minutos.
·Quadrupedia com saltos (200 passos no
quadrupedal + 40 precisões seguidas)
Faça 50 passos de quadrupedal.
Quando terninar, levante e, sem parar, realize 10 precisões seguidas quicando
no chão. Fechou a décima precisão, retorne, sem parar, para mais 50 passos no
quadrupedal. Finalizou a segunda rodada de quadrupedal, sem parar, realize
novamente as 10 precisões.
Realize a rotina completa acima 2 vezes.
Descanso máximo de 2 minutos entre uma série e a outra (Tente relaxar o máximo
os braços e as pernas nesses dois minutos, balançando-os).
·Box Jumps com Flexões
Ache um banco com altura na sua cintura. Realize 10
precisões para cima dele e 10 aterrisagens ao descer, começando em repouso com os pés juntos. Realize-as
com calma, porém sem pausa.
Acabou a série, caia no chão para fazer 10 flexões
tradicionais o mais rápido que puder. Continue na posição de flexão e conte 10
segundos. Fechou, desça pra flexão e se sustente quase tocando o queixo no
chão. Conte mais 10 segundos. Acabou, apóie os antebraços no chão e contabilize
40 segundos em prancha. Fechou o tempo, realize mais 10 flexões o mais rápido que puder.
Retorne para as precisões.
A rotina acima deve ser executada 3 vezes.
Descanso máximo de 2 minutos entre uma série e a outra (Tente relaxar o máximo
os braços e as pernas nesses dois minutos, balançando-os).
·Suspensão com abdominal em barra
Se pendure em uma barra (ou um muro). Contabilize 10 segundos em
suspensão. Sem descer, eleve 10 vezes as pernas dobradas em direção ao peito
(ou o mais alto que conseguir – sem pausa e o mais rápido que puder).
Finalizou, contabilize mais 10 segundos em suspensão.
Realize essa rotina por 3 vezes.
·Alongamento livre: sem definição de tempo
Estiramento dos músculos principais. Bastante importante para evitar dores no outro dia.
DICAS:
Não se encha de água durante
o treino.
Não pare para
conversar.
Se quiser, elabore
uma playlist e deixe rolando no mp4. Ajuda a relaxar.
·Sobre
a alimentação:
Evite:
Gema de ovo.
Carnes gordurosas.
Frituras em óleo.
Passe a beber mais água durante o dia.
Use e abuse de clara de ovo e leite de gado (de preferência
o desnatado).
Meia hora antes do treino prepare uma vitamina simples
usando o que tiver em caso (ex: mamão, leite, nescau, clara de ovo, aveia,
banana, abacate, grãos...).
Uma das singularidades que o
Parkour faz despertar em seus praticantes é a compreensão de que os espaços
delimitados pelo cimento, construções e matéria orgânica não são mais
inacessíveis.
Uma árvore pode ser escalada, um
muro pode ser transposto, um corrimão pode ser saltado ou, por pura opção nossa,
ele pode ser apenas ignorado. A movimentação e o controle que se adquire sobre
ela faz de todo e qualquer praticante um “decriptador“ do espaço: um ser capaz
de analisar, identificar e tomar posse de qualquer local ao seu bel prazer. Muitas
vezes isso rende algumas situações peculiares como conversas com seguranças, invasão
de espaços abandonados, debates filosóficos com outros cidadãos...
Esse jogo de caça; essa certeza
de sua natureza, e por que não dizer, o propósito do Parkour em se apropriar do
ambiente ao redor, é uma das coisas que mais apaixonam praticantes, sociólogos,
arquitetos e admiradores da prática. Vivemos em um mundo onde os cadeados, as
cercas, as delimitações e os limites territoriais nos prendem em um espaço
isolado. O Parkour e os seus praticantes fazem essa realidade cair por terra e
se negam, inteligentemente e de forma imponente, a se conformar com o papel que
nos foi imposto: ratos presos em um laboratório gigante denominado sociedade.
Foi assim que sempre me senti
dentro da prática e é essa aventura que vejo a cada dia se perder.
No contra-fluxo das minhas
reflexões tenho sido bombardeado com as construções próprias para o Parkour.
São academias especializadas, praças dedicadas, espaços imensos e com todo
aparato imaginável. Mas são se resume a somente o luxo. Eles são também pneus
empilhados, lixo reaproveitado, areia e suor dos praticantes em fazer daquele
espaço algo que possa ser chamado de “seu”. Nasce no Brasil, o pico do gato, do cachorro, do
papagaio... Não entendo porque não nomearam nenhum deles de o “Pico do homem”...
Afinal de contas, os animais que estarão presos dentro dele seremos nós mesmos. Presos e vendados.
A necessidade humana de "ter o controle"
e "ser o dono" parece ter nos atingido de cheio de uns anos para cá. As pessoas não
parecessem mais se contentar com a posse mental. É preciso o domínio, a autorização
e a burocracia. O “é meu.”
A que ponto já chegamos e aonde
estamos nos dirigindo com isso tudo?
A cada 10 praticantes que você
entrevistar a respeito do Parkour advinho que no discurso dos 10 você encontrará
a palavra “liberdade”. Que liberdade seria essa presa dentro de um retângulo ou
limitada por um papel?
Vejo a “visão tracer” a cada dia
ser mais ignorada. Construções que antes do Parkour eram ignoradas por todos nós,
infelizmente têm voltado a ser ignoradas. Estamos regredindo a passos largos e
nos viciando ao luxo e ao ego.
Eu considero que no Parkour não
deveria haver nem sequer a denominação de “pico”. Quando delimitamos, nos
apropriamos. E eu não me considero dono de nada. O “pico”, para mim, nada mais é
do que um espaço (em comum a todas as pessoas do planeta) propício a um número
maior de movimentações, que comporta um número maior de pessoas e que pode ser
utilizado para que eu desenvolva as aptidões de que preciso. Mas o Parkour não
está fechado ou isolado a ele. O Parkour é uma ferramenta minha para ser
utilizado em qualquer espaço ou situação que eu sinta vontade. Meu pico é o planeta.
Em 2006 criticamos as pessoas que vestiam a roupa do treino, se
tornavam super-herois no final de semana, e na segunda-feira deixavam o parkour detrás da porta e voltavam a se mesclar na multidão. Agora as pessoas vestem sua fantasia, se
dirigem para o seu palco, dão o seu show particular e voltam para casa realizados. É isso? Sinto que não fui convidado para esse carnaval.
O que
mudou de lá pra cá?
A crítica velada nesse texto não tem intenção de ofender. Tem
intenção de pensar e fazer pensar. Praticante de Parkour está acostumado a se iludir
e achar que é a última bolacha do pacote, quando na realidade, em sua maioria, são
os seres mais ignorantes que podemos encontrar: os que não sabem do que
falam e ainda querem ter alguma razão.
Não concorde comigo, reflita.
E se puder, quando voltar pra casa depois do seu trabalho ou
da sua escola, observe o mundo ao seu redor: a construção da cidade, a casa abandonada, as frentes das lojas, a praça que nunca visitou, o posto de gasolina em reforma, o viaduto que fica deserto
de madrugada...
No treino de ontem estávamos no Pico 1055, um casarão
abandonado que é incrível para o Parkour e que para ter acesso ou você precisa
saltar o muro ou se esgueirar por uma brecha com arame farpado.
Eu já estava fazendo as últimas movimentações do dia quando
ouvi uma voz de mulher no portão da entrada. Pensei que era a dona do casarão
ou até a polícia que estava reclamando com os meninos, então saí correndo de
onde estava e me coloquei em um ponto no último andar onde eu podia ser visto e
saber o que estava acontecendo.
- ... eu estava com ele agora.
Vocês não sabem o que é passar por isso. Tão lindo que nem vocês, com uma
juventude toda pela frente. Ele é lindo! Vocês não fazem idéia do que estão
fazendo não. Vocês podem brincar com outras coisas. Tem tanto esporte que é
mais legal por aí e que é bonito de se ver. Tem o Tênis e aquele outro, como é
o nome?, o Futevôlei que vocês estão fazendo agora! Eu não posso impedir vocês
de pularem aí não. Mas eu que sou a mãe dele. Eu passei essa manhã toda na
Santa Casa com meu filho. Você sabe o que é ter que dar comida na boca dele,
escovar os dentinhos e ter que trocar a roupa? Um menino que tinha tanta
vida. Hoje os colegas dele até o abandonaram, sabe? Antes chovia convites de
festas, mas agora ninguém liga mais pra ele. E ele é tão lindo! Parece com esse
moreninho, meu filho! Eu sei que é um esporte, mas esse aí que vocês estão
fazendo só vai trazer sofrimento a sua família. Vocês não precisam disso. Isso
que vocês fazem é insignificante. Por favor, nesse natal me dêem um presente:
Pensem no que vocês estão fazendo, nas suas mães e porque vocês estão fazendo isso. Se vocês quebrarem as
duas pernas, os dois braços, a bacia ou então as costelas, isso não vai ter
problema! Há conserto pra isso tudo e vocês são jovens! Mas meu filho quando
caiu bateu foi a cabeça. E vocês não sabem o que é a cabeça! Ela controla cada
partezinha do seu corpo! A gente pensa que o nosso corpo é muito forte às
vezes, mas é só preciso uma pancada na cabeça para você perder sua vida
inteira. Ele não tem coordenação motora mais nenhuma! Às vezes eu acho que é pior do que morrer. Eu não tenho mais a minha
vida. Só vivo em sessões de psicólogo com ele e de médico em médico. Mas eu amo
tanto o meu filho e eu amo vocês também. Então por favor, pensem no que vocês
estão fazendo.
O jeito mais rápido de descer era fazendo um salto do andar
de cima pro de baixo. O movimento foi tão natural para mim que na hora não
percebi que isso podia assustar ela ainda mais ou então ser encarado como um
deboche a tudo que ela falou.
Mas eu desci. Mesmo sujo e suado. Me aproximei da grade,
passei pelo buraco com o arame farpado e quando cheguei até ela perguntei se
podia dar um abraço.
- Claro que sim, meu filho!
E ali mesmo ela começou a chorar.
Agradeci toda a preocupação comigo e com o restante dos
meninos. Disse a ela que é difícil encontrarmos pessoas que cuidem umas das
outras e que esqueçam um pouco da frieza e do ritmo frenético que a vida hoje
nos impõe. Confirmei a ela também que o filho dela tem muita sorte de ter uma mãe
com essa fibra e com esse amor.
Eu sempre sou o cara que irá defender e argumentar em favor
do Parkour. Não tenho problema algum em gastar 30 minutos do meu treino
explicando passo a passo do que faço e do porque estou fazendo. Chamar o que eu
faço de “insignificante” seria praticamente um convite para uma discussão das
boas...
Mas nesse dia, eu não tive coragem. Eu sequer teria direito
a fazer isso. Ela é uma mãe. E com uma mãe ferida, em desabafo e em manifestação
pura de amor e afeto com o próximo, você não argumenta e nem tenta estar certo.
Pode ser o assunto que for e você pode se achar correto como for.
Diariamente o Parkour me proporciona situações, ensinamentos
e me dá motivos para pensar, questionar e aprender. Mesmo que ali eu estivesse
por ele, neste dia o grande professor surgiu em forma dessa mãe: Dona Edineuza.
O treino está marcado pra 15:00. E as 15:00 em ponto eu e ele chegamos.
- E aê?
- E aê.
Sem brincadeira, essas foram nossas únicas palavras durante toda a tarde.
Nas duas horas seguintes, embora os dois estivessem sempre no mesmo lugar, os únicos sons que conseguíamos ouvir eram os dos pés nos muros, o amortecimento das precisões, as raspadas, as passadas e os tombos. O engraçado é que não rolava em nenhum momento o pensamento de que "estou treinando sozinho". Não havia tempo pra isso.
O espaço era gigante (o centro de criatividade), mas aquele clima de silêncio e concentração fazia o treino render tanto que nos contentávamos com somente o básico e as repetições. Somente o correr e o passar.
Nesse momento não pude deixar de refletir: "Quantos não já teriam reclamado do lugar? Quantos não teriam a criatividade suficiente de inovar a cada minuto? Quantos não já teriam enjoado do que fazíamos ali?". Tudo se dava de forma bastante natural e transmitia a mensagem que guiava o treino dos dois: ser simples e ser Parkour.
Mesmo quando decidíamos trocar de ambiente, não haviam palavras. Um saia da vista do outro e o que ficou para trás logo em breve trazia as mochilas dos dois.
Quando o calor se tornou insuportável, decidimos quase que ao mesmo tempo tirar as camisas. Revelamos o óbvio: corpos lavados em muito suor.
De vez em quando compartilhávamos um mesmo percurso ou movimentação. Não era nem sequer aquela competição saudável de um instigar o outro. Era apenas uma mente alerta sugando experiência de uma outra mente alerta. Não existia o certo. Não existia o errado. Só existia o treino.
Eu sou sempre muito reclamão. Pra mim quase nunca alguma coisa está boa. Mas todas as vezes que treino com Finha volto pra casa muito feliz e com a sensação de dever cumprido.
Acredito que a palavra que define tudo isso é muito respeito:
Respeito que tenho por ele.
Respeito que ele tem por mim.
Respeito que temos ao que ambos buscamos.
Respeito ao espaço que estamos ocupando e as pessoas a nossa volta.
E respeito esse que deveria estar presente nos treinos de todos. Sempre.
A todos bons parceiros de treino, meu muito obrigado e meu respeito.
O novo texto do Blane "A Call To Arms" me tocou tanto que eu passei mais de um dia pensando no assunto até que decidi pedir a ele autorização para traduzir. Isso precisava ser lido por todos. Gastei algumas horas lapidando o vocabulário o mais que pude para que o mesmo sentimento com que ele escreveu pudesse ser entendido pelos brasileiros.
Inspirem-se, utilizem do texto e o repassem (em seus blogs, inclusive) sem moderação. Às Armas!
Agradecimentos ao Bronze pela tirada de dúvidas em alguns pontos.
Um Chamado à Luta (A Call To Arms) Por Chris "Blane" Rowat Tradução: Duddu
Desde quando uma travessia de 30
metros com uma criança pendurada em suas costas tornou-se menos importante do
que um salto de 18 pés entre dois pontos e com uma aterrissagem grotesca? Estou
pouco me lixando para suas passadas gigantes e barulhentas, pois há gente por
aí com 43 anos, o dobro da sua idade, duas vezes mais forte e que cai de 2
metros e não faz o menor barulho.
As coisas que deveriam importar
para o Parkour, não mais importam - e as coisas que hoje são largamente
consideradas como impressionantes não são mais quando você as analisa com
calma. Nossos valores estão sendo corrompidos.
Algumas vezes, tento olhar para o
Parkour de forma neutra, como se eu nunca tivesse ouvido falar sobre ele antes.
O que eu acharia dele se eu tivesse
ainda 17 anos e o descobrisse agora, ao final de 2012? Imagino que acharia bem
legal e que provavelmente iria mergulhar nesse mundo também. Só que, diferente
do que eu vi nove anos atrás, ele não iria me impressionar tanto como fez.
Se você terminar de ler esse
artigo e se convencer a respeito dos valores que eu acredito dentro do Parkour,
então você irá também se convencer de que se eu não me esforçar para espalhá-los
eles irão desaparecer.
Os novos iniciantes irão somente
enxergá-lo como uma atividade de pular de locais altos e não como uma prática
extremamente versátil e acessível para qualquer um com o desejo de encarar
desafios, conhecer e melhorar a si mesmo.
O que eu vi no Parkour em
2003, aos 17:
Uma
elite de poucos com qualidade de movimentação e atenção aos detalhes em
cada movimento que fazia e que esse nível era somente alcançado através de
milhares de horas de deliberada prática e treinamento.
O
espírito de um guerreiro insaciável com seu treinamento e com garra para
encarar qualquer desafio, seja ele físico, técnico ou mental.
Uma comunidade
em crescimento, positivista e inspirada por todos aqueles que vieram antes
dela.
Um
sistema de treinamento e uma comunidade que dava valor a todos os aspectos
do Parkour de forma igualitária, e uma consciência coletiva interessada em
um Parkour que durasse a vida inteira e não somente alguns meses.
O que eu vejo em 2012, aos
26:
Um
crescimento em massa do número de praticantes ao redor do mundo.
Big
jumps.
Péssimas
aterrissagens.
Competições.
Uma preciosa
minoria tentando se manter de pé sobre os velhos valores e duvidando de
suas razões em fazer isso…
...e
ultimamente, uma mudança do que é creditado como sendo Parkour.
E é justamente com essa pouca
minoria que luta e sobre essa mudança de valores que eu me preocupo.
Eu sou responsável por deixar
essa mudança acontecer sem encará-la, tanto quanto é responsável todos aqueles
da “minha geração”.Nós todos ficamos de
lado, deixamos o Parkour evoluir, ser modificado e se alastrar pela Internet
sem que disséssemos: “Espere um minuto,
isso é bom... mas e todas aquelas outras partes do Parkour por qual eu me
apaixonei? Onde estão?”
Eu tento sempre ensinar meus
alunos com esses valores em mente e eu sei que um bocado de homens e mulheres
também fazem o mesmo por aí. Mas acontece que não é suficiente mantermos esses
valores que nos cuidamos com tanto carinho presentes somente em nossas aulas em
algumas cidades ao redor do mundo. Temos que mostrar isso em larga escala se
quisermos mantê-los vivos. E mais importante do que isso, precisamos nos
preocupar em deixar nossos testemunhos para que eles possam ser encontrados por
todos aqueles que vierem a se interessar pelo Parkour em busca de algo mais do
que big jumps.
Nos últimos anos que se passaram,
ao invés de nos mantermos firmes e acreditar nos ensinamentos que passamos a
admirar quando conhecemos o Parkour, dia a dia, vídeo a vídeo, nosso sistema de
valores foi corrompido. Mesmo aqueles poucos que ainda hoje acreditam que
Parkour é para todos, pode sentir que está regredindo, que não é tão bom quanto
o cara novo, porque ele consegue fazer um salto que você não acha que consegue,
ou talvez você nem tenha vontade de fazer.
Mas se você se lembrar dos
valores que te trouxe a prática, então você não irá se importar em saltar tão
longe quanto o “cara novo”. Lembra do que uma vez você aprendeu? O que é um
salto, grande ou pequeno, sem uma boa aterrissagem? Quando foi que melhorar
suas subidas de muro, suas flexões, seus agachamentos, seu quadrupedal ou então
aumentar o seu recorde de ficar pendurado (se cair você morre!) se tornou menos
prazeroso do que aumentar a distância de seus saltos?
Eu já vi em alguns treinos em
grupo as pessoas fazerem piada com o cara que estava lá atrás se fudendo com um
colete de peso e tentando fazer suas barras ficarem mais fortes. Quando foi que
o que estava sendo executado por ele tornou-se uma parte inferior do Parkour?
Os desafios físicos não são algo
novo no mundo do Parkour. Ao menos desde que ele existe, os desafios físicos
são parte inerente a ele. Na verdade, como alguns de vocês irão se lembrar, muito
antes dos saltos chamarem a atenção, os desafios físicos ERAM o Parkour.
Hoje não são mais. Os desafios físicos (e
até mesmo, o treino físico) são atualmente espécie em extinção.
A ênfase mudou com o passar dos
últimos anos e o Parkour não é mais o terreno perfeito para se testar do que a
pessoa é feita fisicamente, tecnicamente, mentalmente... e emocionalmente.
Não é mais um desafio de saber se
você é capaz de correr de uma cidade pra outra e se aventurar a retornar antes
do pôr-do-sol. Não é mais um desafio para saber se você consegue empurrar um
carro velho numa ladeira com os amigos que você riu e chorou durante o dia. E
não é mais sobre conseguir entender o valor de se saltar para uma árvore
molhada em caso de um dia você tiver que resgatar um desses amigos que ficou
preso nela.
Agora é amplamente visto como um
palco para talentos, uma oportunidade para as pessoas mostrarem ao mundo como
eles conseguem saltar mais distante do que os outros. Ou então como eles estão
dispostos a viajar metade do mundo para fazer o mesmo salto que viu outro cara
realizar num vídeo do ano passado. Só
que agora ele chega lá e faz de side-flip.
Eu vejo competições onde o
“Melhor Atleta de Parkour” e os “Campeões Mundiais” gastam 37 segundos de
corrida tentando fazer qualquer coisa mais impressionante do que o cara que se
apresentou antes dele. Isso tudo antes do tempo acabar ou dele ficar sem
fôlego. 37 segundos de uma perfomance medíocre? Eu tenho treinado com homens e
mulheres que poderiam durar 37 minutos naquela mesma intensidade.
Quem deixou essa babaquice ganhar
espaço sem resistência? Quando foi que isso se tornou o foco? Quando foi que
fazer um salto mais longe que alguém se tornou algum valor para o Parkour?
Quando foi que visitar um pico pra repetir os mesmos movimentos que alguém já
fez se tornou a meta? Eu detesto admitir, mas fomos nós que deixamos essa merda
crescer. Permitimos isso quando passamos a duvidar de nós mesmos e passamos a
cogitar a possibilidade de um big jump ter alguma importância.
Aqui esta o vídeo de Jesse Owens saltando
26 pés (algo próximo a 8 metros) em 1936, Berlin, Alemanha.
Esse é um salto enorme mesmo para
os padrões e a metodologia avançada de treino que temos hoje em dia. E esse
salto não é só distante, mas muito, mas muito mais distante do que qualquer
salto já realizado por qualquer praticante de Parkour entre dois pontos. Então
porque a comunidade do Parkour (e, de fato, o mundo) fica impressionada quando
alguém pula 18 pés entre dois muros e desmorona como se ali tivesse alguma
caixa de areia como a de Jesse no vídeo? É porque eles são “corajosos” o
suficiente de fazer isso em uma fenda? Em muitos casos o medo de cair só é
derrotado pelo pensamento em ficar imortalizado no Youtube diante de milhares
de pessoas vestidas em seus pijamas. É isso que você entende por “coragem”? Se
for, então, por favor, feche essa página agora porque não há nada aqui pra
você.
Mas se tem uma razão pessoal e válida
para fazer um salto que carrega um risco para provar algo a si mesmo e então
ultrapassar sua própria compreensão e responder as suas dúvidas; agir quando
tudo dentro de você quer sair dali e ir para casa com intenção de provar SOMENTE algo a si mesmo; então isso é que é coragem e
determinação. E esses são alguns dos valores que verdadeiramente foram
construídos no Parkour. Os mesmos valores que a cada dia desaparecem diante de
seus olhos. Ficar eufórico e se esforçar o máximo que puder para provar seu
valor diante de alguém que esta do outro lado da internet, ou porque seu amigo
já fez aquilo uma vez, somente revela imprudência e alguém com vida curta
dentro do Parkour.
Eu gostaria de acreditar que a
maioria das pessoas que estão lendo esse texto irão concordar que Parkour deixa
de ser Parkour sem algum desses valores. Valores como coragem, decisão,
fortalecimento, força, disciplina, dedicação e longevidade. Valores como
humildade e altruísmo. Integridade.
Existem diversas maneiras que podemos
ajudar a mudar positivamente o futuro de nossa prática e o melhor ponto de
partida, e o jeito mais fácil, é não permitir que esses valores sejam perdidos.
Podemos inspirar a próxima
geração de praticantes e permitir que eles compreendam que Parkour é muito mais
do que realizar saltos impressionantes apenas fazendo com que nossas opiniões
não adormeçam.
Comente nos vídeos, faça upload do
seu próprio, escreva artigos, ensine, converse, viaje e treine da maneira que
você acredita que o Parkour deveria ser treinado. Deixe as pessoas verem esse
lado aonde quer que você vá. Represente e seja.
Esses valores não precisam ser
manifestados como os desafios que mencionei anteriormente, mas ultimamente a
única maneira que podemos significativamente crescer é encarar e se adaptar para
superar essas adversidades. Isso pode ser feito da mesma forma que você encara
um salto, quando ele te amedronta porque você crê que vale a pena enfrentar o
seu medo e testar sua habilidade.
Pode ser de forma técnica. Ou
talvez seja repetindo uma precisão correndo para um corrimão fino e tentando
aterrissar perfeitamente 3 vezes consecutivas. 10 vezes em seguida. 50.
Ou talvez seja um desafio físico
afinal. Você pode simplesmente escolher um dos seus exercícios favoritos e
fazer um teste pra saber até quando você agüenta refazê-lo. Testar quantas
repetições você consegue executar em dez minutos ou quanto de peso você
consegue erguer depois de 6 meses de treinamento dedicado.
Na verdade, não importa qual será
o desafio. O que importa é que você se desafie com freqüência a fim de
realmente se conhecer e saber do que você é feito. Esse confronto e disposição
para encarar obstáculos é o coração da fera que o Parkour é, e que
infelizmente, a cada ano que passa ele bate cada vez mais devagar. Mas é essa
exposição regular a desafios, tal quais esses que montamos, que irá disseminar
esses valores nas pessoas.
O que as pessoas parecem não
perceber é que um garoto de 19 anos que consegue saltar 18 pés, depois de um
ano de treinamento, muito provavelmente não estará mais aqui nos próximos.
Poucas pessoas permanecem mais do
alguns poucos anos nesse jogo, seja por conta de um machucado, perda de
interesse ou qualquer outro dos incontáveis motivos. Então, ainda que o que ele
faça seja impressionante, sim... o que você está treinando para fazer, 'ser e
durar', pelos próximos 10, 20 anos... e mais, ainda forte, progredindo, treinando
e se divertindo com o Parkour... Isso é muito mais impressionante para mim.
Estes são os valores e os objetivos que me impressionaram e que existem naquela
pequena elite que mencionei anteriormente. Estas são as coisas que eu não verei
perdidas nos anos que estão por vir.
Não peça desculpas a respeito dos
valores que você acredita e, mais importante ainda, não permita que o Parkour
os perca se você acredita neles! Parkour vai se desenvolver e se tornar o que
ele tiver que se tornar diante dos olhos de todos, mas se mantenha firme no que
você considera importante porque você não está sozinho!
Não o deixe morrer ou então a
próxima geração poderá jamais ver ou experimentar o que você viu e fez quando
você descobriu o Parkour. Deixe o desafio e a longevidade moldar seu
treinamento, seu objetivo e suas motivações. Estabeleça seus próprios desafios,
mesmo se alguns deles parecerem impossíveis, pois mesmo neles você aprenderá um
bocado. Lembre-se que o desafio não é um desafio se você não sabe como
realizá-lo.Pegue um envelope, faça um
convite à dúvida e a sua descrença e transforme esses velhos inimigos em seus
aliados. Encare hábitos que parecem ser insuperáveis, freqüentemente, e então
você crescerá como pessoa.
Se você quiser repetir aquele
pequeno salto, aquele com um ângulo complicado, para uma parede coberta de limo.
Se você pretende treiná-lo até chegar o dia em que você poderá realizá-lo com
os olhos fechados... então meu caro amigo, você não está sozinho! Eu quero
repetir esse salto com você! Mas vamos fazer 50. Só pra ter certeza. E um a
mais por aqueles que não podem se juntar a nós. Isso fará a nós dois um bem
maior do que aquele salto por cima do telhado carregando uma câmera.
Nós somos uma minoria agora, mas
juntos nós somos ainda uma influência sobre aqueles que dizem que praticam
Parkour. Ainda podemos fazer nossa mensagem ser ouvida por todos aqueles que
conhecerão o Parkour agora, e nos próximos anos.
Este é um
chamado à luta para aqueles que ainda se consideram a vanguarda do Parkour. A
hora é agora. Faça a diferença mostrando, compartilhando e sendo todos os
outros lados do Parkour que conhecemos e amamos. Os lados que muitos de nós
estamos vendo ser esquecidos enquanto a nossa prática cresce.