quinta-feira, 13 de junho de 2013

A Aventura do Parkour (Por Dan Edwards)



Eu não podia passar por cima desse texto sem deixá-lo disponível para quem não sabe inglês. Tentei usar meu coração na tradução de cada frase para que o resultado final fosse o mais fiel ao sentimento que o Dan deve ter experimentado ao escrever.

O que é Parkour? Com vocês, a melhor resposta que já ouvi.


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A Aventura do Parkour         
(The Adventure of Parkour)

Autor: Dan Edwards
Tradução: Eduardo Rocha (Duddu)

O que é Parkour? Para mim é simples. É a arte de um guerreiro. Que requer tudo o que você tem e sem desculpas. Que espera o seu melhor e não aceita menos que isso. É uma jornada pessoal em busca do auto-aperfeiçoamento, da sincera auto-expressão e realização. É uma arte que nasceu da experiência visceral de viver no mundo real. Não um show.

Ele pode ser difícil; implacável na constante avaliação de si mesmo, de suas habilidades, de sua força e de suas fraquezas mentais e físicas. É um desafio aceito cada vez que você sai para treinar. Ele pode ser brutal. Não científico; politicamente incorreto; uma avaliação constante de quem você é através do desafio e das adversidades.

Tenha sucesso nessa prova e será recompensado com um profundo conhecimento de quem você realmente é. Ele irá te revelar fatos sobre você que até então eram desconhecidos.

Ele irá te fazer perguntas difíceis; irá revelar os seus pontos fracos; irá te indicar as partes que estão quebradas. E então será exigido que você as conserte e que construa sua força justamente em cima desses pontos. Não importa suas desculpas, seu senso de mediocridade ou falhas. Ele sabe que você é muito mais forte do que acredita.

Mas ele também pode ser divertido. Libertador como nada mais será. Imponente. Genuíno. Ele tem o poder de te reconectar com aquela parte adormecida de você mesmo, aquela que descansa obscurecida pelo medo, pela inércia, pela submissão e conformidade. É algo puro. Para compreender quem você é no Parkour, você deve encontrar a harmonia entre corpo e mente, o equilíbrio entre ter o controle e se render.

É desafio. É descoberta. É experimentação. É expressão. É inovação. É adaptação. É a grande aventura. É tudo e não é nada.

É a vida, te dando um empurrão. E você tem que empurrá-la de volta.

Texto Original:
http://www.parkourgenerations.com/node/9184

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Treino Não Convencional - Lavar Pratos





Desde que a senhora que trabalhava aqui em casa se demitiu (acho que porque é muito difícil me suportar), eu e minhas irmãs ajudamos no trabalho doméstico. Minha tarefa mais comum é lavar os pratos da manhã e os da tarde. Como eu odeio re-trabalho, minha mãe deixa eu juntar os pratos dos dois períodos e lavar tudo de uma vez.

Para que o processo todo não se tornasse uma obrigação chata, eu desenvolvi um treino para fazer em cima dele. E é divertido e tem dado resultados! huUHAUHUHAUHAUH

O primeiro passo é olhar a pilha de pratos que você tem que lavar.
Em seguida, tente adivinhar o tempo mínimo que você gastaria para dar conta de tudo.

20 minutos?
Ok. Então em seguida monte uma playlist com músicas que totalizem esses 20 minutos.

Lave os pratos desenvolvendo meios de economizar o tempo e acabar o processo todo em cima, ou antes, dos 20 minutos. Seria idiotice dar-se mais tempo que o necessário ou então lavar tudo feito a sua cara! Minha mãe, se não estiver satisfeita com minha lavagem, devolve os pratos pra pia e eu tenho que lavar tudo de novo! Então não tente se auto-sabotar, mas opte sempre pelo mínimo de músicas e, conseqüentemente, o mínimo de tempo.

O que você ganha com isso?
Além da sua mãe ficar com a sensação de que você é um filho exemplar?
E de você ter executado uma tarefa chata com diversão?
(E do monte de traceuse que agora vai querer casar comigo?)

Eu tive que desenvolver métodos de economia de tempo e otimização da tarefa.

Por exemplo:

Você lava os copos, os talheres ou os pratos primeiro? Qual desses precisa de mais água para amolecer a sujeira impregnada? Os que você julgar que precisam de mais água deveriam ser deixados no fundo da pia para receber a água dos demais utensílios que forem lavados antes e agilizar o processo de esfrega...

Quanto de espaço você tem? Então o que seria melhor lavar primeiro, tendo em vista que isso tudo irá ocupar espaço e te impedir de se mover com fluidez? Eu lavo primeiro as coisas grandes porque elas se tornam recipientes para as coisas pequenas e elas me deixam ver o restante de coisas que estavam escondidas por baixo.

Com o tempo você vai se tornando meio ninja e resolvendo quebra-cabeças como esses com a maior naturalidade.

Acredito que, em termos de eficiência, resolver esses enigmas ative o mesmo processo dedutivo que me faz escolher entre saltar um corrimão ou passar por baixo dele. Que técnica você escolhe para descer de um muro quando não sabe o que te espera do outro lado? O caminho é por aí...

Opte sempre pela segurança (lavar os pratos direito) e pela eficiência (antes da música acabar). E tente sempre achar um jeito de fazer melhor, mesmo que a forma como você já execute seja legal!

Essa pilha de pratos da foto... eu acabei de lavar! Ela tava enorme porque hoje o povo daqui da casa comeu que nem um bando de animais! Infelizmente hoje eu perdi porque calculei que gastaria 16 minutos e levei 17:35. Droga! Amanhã eu dou o troco e faço tudo melhor!

sábado, 1 de junho de 2013

Ô, Anda, Júlia! (Rotina de Treino)



Esse treino foi criado pra uma amiga minha, traceuse de lá de São Luiz, no Maranhão. Ela estava meio parada nos treinos por causa de uma lesão, e quando tentou retornar com tudo viu que o corpo dela tava um lixo. Aí a bichinha, sagaz, veio me pedir uma rotina de treino que ajudasse ela a se fortalecer novamente. Nas palavras dela:

"Eu queria um treino pra perder calorias, ganhar velocidade, resistência, força e que seja um treino efetivo pro Parkour, algo que nos deixe (eu e a minha mãe) quebrada no dia seguinte."

Pois bem minha querida, te apresento o "Ô, Anda, Júlia!"

Espero que ele faça jus ao que você precisa aí nesse sol que é escaldante até pra mim que sou nordeste. Bjãozão pra você e pra sua mãe!

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Ô, Anda, Júlia!

Rotina simples de resistência, fortalecimento e equilíbrio
idealizada para Júlia realizar com sua mãe.


  • ·         Alongamento livre: cerca de 10 min

Mãos, cotovelos, braços e ombros.
Cintura.
Tornozelos, joelhos e pé.

  • ·         Corrida: 10 min

Use um cronômetro pra marcar o tempo porque normalmente nosso corpo tenta nos enganar. Tente correr todo o tempo controlando sua respiração para que não sinta “dor de facão” e de preferência sem tocar o calcanhar no chão. Depois de 5 minutos de corrida, procure por alguma marca (uma lixeira, um poste, um banco...) e faça um pique até ele (de preferência que essa explosão dure de 7 a 10 segundos). Quando atingir o objetivo, volte pro ritmo normal (sem parar de correr por nada nessa vida). Espere sua freqüência cardíaca e respiração normalizar e continue o restante da corrida. Quando o cronômetro marcar os 10 minutos, realize um último pique como o primeiro e ao final reduza a marcha gradativamente até parar de vez.

Finalizou, recupere o fôlego por no máximo 3 minutos.

  • ·         Sequência “Na lua, no peito e no chão”. (Quadrupedia com saltos)
 
Esse exercício será dividido em três blocos e é importante que você o realize nessa ordem.

Bloco 1: Realize 20 passos de quadrupedal de costas. Finalizados, imediatamente salte para cima com braços e pernas esticados tentando topar a sua mão na lua. Aterrisse lembrando-se sempre de chegar ao solo com as pontas dos pés e jamais o calcanhar.

Bloco 2: Comece a andar no quadrupedal para frente e contabilize 20 passos. Ao finalizar, realize agora o salto mais alto que puder tentando trazer o seu joelho para o peito. Retorne ao chão na ponta dos pés. E toque as mãos no chão. E fique agachada.

Bloco 3: Jogue as duas pernas para trás para deixar seu corpo totalmente esticado na posição de flexão. Em seguida, aproveitando a explosão, traga as duas pernas de volta para o meio dos braços e realize o salto esticado para tocar na lua. Realize o exercício 5 vezes com o salto esticado e 5 vezes com o salto trazendo o joelho pro peito.

Descanse por no máximo 2 minutos e faça tudo novamente.

Concluído esses 3 blocos, duas vezes, você terá feito:

40 passos no quadrupedal de costas
40 passos no quadrupedal de frente
20 transições completas do agachamento para a flexão
12 saltos esticados “tocando na lua”
12 saltos grupados “joelho no peito”

Descanse seus merecidos 2 minutos antes do próximo exercício. (Tente relaxar o máximo os braços e as pernas nesses dois minutos, balançando-os).

OBS: No quadrupedal tente sempre sincronizar o movimento do braço com o da perna. Quando a perna que vai à frente é a esquerda, o braço que segue o movimento é o direito. Você tem que se enxergar como se fosse um gato se movendo em silêncio para roubar comida da cozinha. Tome cuidado também com a posição do quadril e da lombar para não causar dores por execução errada do movimento.

  • ·         Equilíbrio no meio fio

Ache um local para se equilibrar. Pode ser um meio-fio, uma barra, um tronco de árvore, qualquer coisa que você precise de um mínimo de esforço para se manter em pé. De preferência, um lugar onde você (ou quem estiver treinando com você) não precise se segurar em nada.

Quando estiver em equilíbrio, realize as 5 sequências uma após a outra:

Sequência 1: Ande 10 passos e levante a perna direita, esticada, o mais alto que conseguir.

Sequência 2: Ande mais 10 passos e faça o mesmo com a esquerda.

Sequência 3: Mais 10 passos, toque as duas mãos no chão e volte a ficar de pé.

Sequência 4: 10 passos e mude a direção do caminhar (faça com calma, sem pressa).

Sequência Desafio: Agache em equilíbrio e tente fazer 10 passos em quadrupedal.

Descanse por uns 2 minutos e repita a sequência completa.

O que muda na segunda tentativa é que cada exercício (elevações de perna, agachamento e mudança de direção) deve ser executada a cada 2 passos em equilíbrio. A sequência desafio continua a mesma.

Finalizou as duas sequências, descanse por 2 minutos.

  • ·         Box Jumps com Flexões

Ache um banco com altura na sua cintura (ou altura confortável). Realize 10 precisões para cima dele, começando em repouso com os pés juntos. Realize-as com calma, porém sem pausa. E não se esqueça da ponta de pé.

Acabou a série, caia no chão para fazer 10 flexões o mais rápido que puder. Caso não consiga realizar o movimento com somente as mãos e os pés no chão, faça o máximo de repetição que puder e segure 20 segundos na posição.

Realize 5 séries completas de 10 precisões com 10 flexões. Descansando o necessário para começar uma nova sequência, porém tentando se recuperar o mais rápido que puder.

Ao final, descanse seguindo diretamente para o alongamento final.

  •  ·         Alongamento livre: sem definição de tempo

Estiramento dos músculos principais. Somente para que eles voltem para os lugares corretos. Segure cada músculo que foi alongado no inicio do treino. Sem forçá-lo. Tente relaxar o máximo possível lembrando sempre de controlar a sua respiração.
  • Recomendações:

Tente realizar tudo em no máximo 1 hora.
Não beba água durante o treino.
Não pare para conversar.
Se quiser, elabore uma playlist e deixe rolando no mp4. Ajuda a relaxar.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Desafio: 1 hora na posição de flexão


Historinha do desafio:

Eu estava acordando e o Pop e o Bruninho chegaram todos suados em casa dizendo que tinham um desafio para mim (e que eles supostamente tinham acabado de fazer):

- 5 minutos girando os braços esticados horizontalmente e sem parar.
- 10 minutos seguidos de cadeirinha.
- 10 minutos sem pausas na posição de flexão.

Fomos para a garagem e comecei a fazer com eles dois muito excitados ao meu lado e rindo pra caramba. Desconfiei que ali tinha alguma pegadinha, mas continuei. Girar o braço cansou muito meu ombro e a cadeirinha foi tranquila (certa vez eu fiz 45 minutos lá em Aracaju durante um desafio, então medidas menores do que meia-hora na cadeirinha não me assustam mais). Quando atingi os primeiros 5 min na flexão eles dois se juntaram ao chão e disseram que haviam mentido: só tinham aguentado 5 min e queriam ver se eu ia topar o desafio de fazer os 10 diretos. Ficamos os 3 ali até os 10.


Quando o 10 chegou, o Pop se lavantou e o Bruninho disse que ia ficar um pouco mais. Eles comentaram que viram esse desafio no blog do Blane: em uma de suas maluquices, o fdp chegou a ficar 45 minutos naquela posição. Debatemos o quanto isso foi cavalice e doentio e, em homenagem a ele, eu disse ficaria até os 20 minutos.

Quando o cronômetro marcou 00:30 eu disse: “olha, eu acho que consigo muito mais só que vocês tem que ficar conversando aqui comigo porque isso é muito entediante”. Eles puxaram conversa sobre vários assuntos (alguns idiotas por sinal) e o tempo foi passando. Meu ombro queimava, o abdômen começou a incomodar bastante e o quadríceps estava doendo e tremendo desde a cadeirinha (e havíamos treinado de tarde). Para aliviar, em alguns momentos, eu ficava só com uma das mãos no chão ou somente um dos pés.

Desenvolvi algumas técnicas para aguentar o cansaço como por exemplo jogar o peso do corpo mais para a ponta dos dedos e ora para a palma. O mesmo fazia com os pés: ora jogava o peso para a panturrilha (ficando na ponta do pé) e outra ficava na posição normal. Algumas vezes eu levantei o quadril, mas foram breves momentos.

O que mais incomodou no final das contas foi à palma da mão: os ossos começam a doer muito por causa do peso e eu tive que fazer punho cerrado em alguns momentos para aliviar o incômodo e suportar.


Uma mulher entrou na garagem e ficou olhando pra gente com cara de "não entendi". A poça de suor embaixo de mim ia crescendo consideravelmente e passou a ser legal esperar as gotas pingarem no chão. Mais uma distração.

O Pop e o Bruninho foram lá falar com Annty (amiga francesa e que estava no desafio quando o Blane o fez) e ela disse que o Blane só parou em 45 minutos porque as pessoas ao lado dele pediram para parar. O cara é realmente um monstro. Decidi que ia então continuar até completar a hora. Minha paciência já estava acabando.

Quando o relógio bateu 01:00:12 eu mal pude acreditar na idiotice. O que era pra ser somente 10 minutos, em um teste de resistência, havia se tornado 6 vezes maior. Coisa de quem não tem o que fazer mesmo.


Meu trapézio ainda tá doendo mesmo agora depois de ter dormido. Mas é a vida. Ele vai se curar em breve e eu poderei fazer uma nova doidice mais tarde.

Agora tô saindo pra acampar com os meninos. Morram todos.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A Política dentro do Parkour




Antes de começar a ler eu gostaria que você entendesse que o termo política ao qual me refiro é o conhecido como “a ciência da organização”; o modo como as coisas se estruturam e se estabelecem. Não estou falando somente de cargos públicos como os que existem nas Associações de Parkour de todo o Brasil e nem somente dos líderes que encabeçam qualquer grupo ou evento. Estou levando em consideração todos os processos que se estabelecem dentro de nossa atividade.

Como já estive a frente de uma pancada de projetos e atualmente presido duas associações (a brasileira e a sergipana) tenho algumas observações a fazer e, por esse motivo, todas as críticas que aqui serão feitas cabem também a mim mesmo.

O praticante de Parkour é a célula mais comum de todo esse processo organizacional. Ele deveria ser a pessoa que detêm o maior poder dentro do Parkour e, no entanto, não é o que se vê por aí. De uma maneira geral, e falando sem papas nas línguas, na maioria das vezes eu considero o praticante de Parkour um imbecil. Imbecil por não saber do poder que ele possui e por não tentar aprender a utilizá-lo. A prática que ele carrega no peito e nas camisas é o símbolo de uma transformação intelectual e social do ser humano. É uma revolução de dentro para fora e que culmina em um grito de autonomia. Ao menos deveria ser isso.

O que vejo constantemente, e a cada dia mais essa vertente cresce, é que os praticantes normalmente gostam de fingir que são livres. Pulam nas praças para exercer essa liberdade e esquecem que continuam prisioneiros de uma mente medíocre. Uma mente que aceita o que lhe é imposto de boca fechada. Uma mente que não é capaz de lutar pelo que acredita. Uma mente que todos os dias baixa os olhos para o que se vê de errado e se borram de medo de questionar ou contrariar as “mentes superiores”.

No Parkour, e fortemente no Brasil, vivemos em uma política onde os que brilham ao sol detêm o poder da palavra e controlam os passos de seus seguidores. Se o ícone do momento determinar que a nova tendência é usar sapato alto para se equilibrar em uma barra, você assistirá vários tombos de pessoas que preferem estar dentro da moda do que procurar entender se essa ordem tem algum fundamento.

Mas esses praticantes não são burros somente por isso. Eles são burros também porque antes de serem praticantes ruins eles são seres humanos socialmente ruins. Estão acostumados a serem ordenados por seus pais, seus professores, as autoridades, as leis, o governo e não conseguem se desprender da inércia e se tornarem capazes de entender o seu papel dentro deste círculo.

O Parkour para muitos não gera liberdade mental. Não se questiona o que faz; o porquê se faz; quem se é; e o que se quer.  A grande maioria prefere ser folhas ao vento. Prontas a manipulação daqueles que tiverem a coragem para levantar a voz (participar do próximo campeonato na gringa, assumir uma presidência, declarar-se líder de um grupo, abrir um site, dizer que inventou um movimento, se aventurar em programa de auditório, aceitar o papel em um comercial ou novela... etc.).

Esse nicho não é podre em sua totalidade. Existem (eu os conheço e você os conhece também) aqueles praticantes que encontraram uma nova vida dentro do Parkour. E quando isso acontece gera-se uma energia tão monstruosa que as pessoas comuns (e os praticantes medíocres a que me referi lá em cima) tornam-se pequenas a ponto de quase sumirem no chão. Esses caras gigantes, que sim, são os estandartes de ouro de nossa atividade. Eles carregam os valores e os ensinamentos de uma vida de dedicação em cada treino que comparecem. Em cada ida a padaria. Em cada atitude e ação que proferem.

Eu diria que eles são pessoas abençoadas. Porque viver sob a proteção dessa força só pode ser classificado como uma benção. Esses praticantes tornam-se líderes sem levantar a voz. Adquirem uma reputação praticamente inquestionável. E, a não ser por aqueles que não possuem sua bravura de espírito, todos parecem por ele simpatizar e admirar. Às vezes você nunca os viu pessoalmente. Às vezes nunca falou com ele diretamente. E talvez ele nunca saiba o quanto você é grato por ele ser quem ele é.

Eu sempre questionei um pouco a postura de alguns desses ícones. Apesar de eles serem meus ícones também; as pessoas que eu carrego como exemplos e o ombro amigo que me serve de âncora para o que eu quero me tornar; algo para mim não parece estar correto quando eles tomam certas atitudes excludentes.

Alguns deles, aos meus olhos, são pilares de várias gerações de praticantes, e, no entanto, algumas vezes eles fazem questão de não fazer parte de qualquer processo organizacional. Eles se acomodam em suas vidas e sofrem calados ao observar que a atividade que amam esta sendo corroída e destruída por pessoas que não a compreenderam e não sabem muitas vezes o mal que fazem. Hoje entendo que isso não é uma covardia, mas a opção de quem optou em educar através do exemplo. Apesar de todos os pesares, ele sempre estará ali, como uma rocha, esperando qualquer praticante ou interessado que opte, como ele optou, a trilhar o caminho das pedras.

Eu questiono essa postura somente porque eu não me vejo com tal nobreza de espírito. Considero que é fácil demais fazer a minha parte sem olhar pro lado, focar nos meus treinos e deixar o mundo fazer o que quiser com o que eu aprendi a amar. Eu aprendi sozinho que o que me foi dado de bom grado deve estar acessível a todos os que queiram seguir os mesmos passos que eu trilho dia a dia. Quando esses gigantes do Parkour deixam de manifestar sua opinião, deixam de militar mais diretamente pelo que acreditam e se fecham em seu universo particular, eles perdem boa parte do brilho que deveriam ter pra mim. Porque eles optaram por abandonar a atividade que os abraçou nas mãos de quem não a merece; sendo que ela é ainda um bebê, tão jovem, imatura e nem caminha com as próprias pernas ainda. Ela precisa de toda ajuda e carinho deles e eles parecem, muitas vezes, não compreender isso.

Mas o Parkour conta ainda com pessoas que enfrentam batalhas diárias em favor dele. São aqueles que citei no primeiro parágrafo: os que se dedicam a ensinar, a organizar, a estruturar, a cobrar dos setores públicos um reconhecimento.  Eles são instrutores, líderes, presidentes, simpatizantes de causa e pessoas com energia para colocar em ação.

Quando essa pessoa, coincidentemente, é um praticante, a coisa é linda. Temos boa vontade aliada ao conhecimento de prática. É a fórmula certa para que se construa algo sólido e único. Infelizmente esse ser mágico só se manifesta em um, a cada mil praticantes. Cá pra nós, o praticante de Parkour comum só gosta de trabalhar se for em prol do seu próprio treino. E nem isso muitas vezes anda acontecendo.
O senso de coletividade real e o interesse que a prática cresça e esteja disponível para todos não é o consenso da maioria. Essa ausência dos “praticantes apaixonados pelo Parkour no poder” deixa aberto o espaço para todas as pessoas que tem disposição e vontade de trabalhar e que não necessariamente estão nas ruas.

Entramos em uma sinuca de dois bicos e colocamos nossa atividade em uma espada que corta dos dois lados. As decisões que forem tomadas por esse tipo de organizador, nem sempre irão refletir os interesses dos praticantes. Existem alguns exemplos que posso utilizar para esclarecer melhor:

Um instrutor de Parkour pode ter sempre o melhor estudo, o melhor preparo teórico e a melhor didática de instrução. Porém, se ele não foi um praticante, se ele não viveu o que um praticante vive e se ele não sofreu e se alegrou com o que os praticantes sofrem e se alegram todos os dias, como ele será capaz de transmitir adiante esse conhecimento? Sei que em várias áreas isso é possível. Técnicos de futebol que nunca pisaram em campo. Técnicos de ginástica que não sabem dar um mortal. Porém, o Parkour não se trata de um esporte defendido em cima de um conjunto de regras claras. Muitas vezes nem o próprio praticante tem autonomia de interferir na movimentação alheia, simplesmente pelo fato de se tratar de corpos diferentes com mobilidade motora diferente e adaptação aos obstáculos de forma diferente. Como você irá compreender que o calo aberto na mão de seu aluno dói, mas que aquela dor é uma dor que se ele compreender o significado ele é capaz de abstraí-la e voltar a treinar, se você mesmo nunca abriu esse mesmo calo? Como você pedirá para ele continuar e ser firme em seus objetivos se você nunca passou se quer próximo do pensamento que está tentando fazê-lo compreender? Não digo que é impossível termos ótimos instrutores que não são praticantes, mas eu acredito que qualquer praticante, de respeito, entenderá sempre infinitamente mais do que qualquer um desses mestres da teoria.

Da mesma maneira se encaixa os organizadores de grupos. Aqueles que estão a frente de projetos, palestras, os teóricos do Parkour, os donos das associações nacionais e os que batem no peito para apresentar seus eventos em prefeituras e órgãos públicos. Que maravilha que eles têm força e atitude para correr atrás disso tudo! Mas será que eles também não executam outro papel que deveria ser dos praticantes? Freqüentemente vejo pessoas tomarem decisões, de sua cadeira acolchoada, que irão interferir diretamente nos treinos de quem estará se arrombando nas ruas.

Eu não consigo entender essa lógica a não ser que transformemos o Parkour em um órgão público ou na casa da mãe Joana, onde as pessoas podem meter a mão e fazer dele o que tiverem vontade. Como um organizador desse calibre irá manter vivo os valores que os praticantes acreditam, se eles muitas vezes não sabem quais são eles? Como um organizador desse calibre tomara a decisão de plantar uma barra no chão, sendo que não é ele quem irá colocar a mão nela todos os dias? Como um organizador desse calibre poderá entender o que de fato é importante para aqueles que executam a prática todos os dias nas ruas, se eles mesmos não estão nessas ruas? Eles não sentem a rua. Eles não sentem os treinos. E eles não respiram o espírito que o praticante respira.

Existem características que eu desenvolvi com a prática do Parkour que eu não consigo expressar em palavras. Eu tento, mas elas não são fieis ao sentimento. Quando eu encontro um praticante, treino ao seu lado, ele entende isso tudo sem que precisemos falar uma única palavra. Ele vive meus dilemas e as minhas angústias. Ele passa pelos mesmos perigos e se alegram com as mesmas pequenas vitórias.

Um organizador do Parkour, em qualquer setor que seja, sem o coração de um praticante de Parkour, é uma arma apontada ao acaso e que pode contribuir com um bem enorme para a atividade (uma vez que os próprios praticantes muitas vezes não contribuem com nada, não querem saber de nada, e não passam de mortos-vivos fingindo que adquiriram o controle remoto de suas vidas), mas eles também podem ser a depredação de nossa atividade, pois eles não sentem o que sentimos, não sofrem o que sofremos e não entendem e nem compreenderão jamais o que de fato para nós é importante. Mas eles tomam nossas decisões. E as decisões do futuro de nossa atividade.

Eu não sei a solução para esse impasse. Quer dizer, eu sei, mas ela é utópica. Se tivesse o poder, eu gostaria de expulsar de todos os cargos políticos existentes no Parkour aquelas pessoas que não estão nas ruas enfrentando os muros. E em seu lugar eu colocaria os próprios praticantes no comando. Mas isso somente se eu pudesse ter certeza de que esses praticantes seriam os de coração e que aprenderam a edificar todo o seu mundo ao redor dos ensinamentos que aprenderam. Não os mortos-vivos!

A política é um fenômeno existente em todas as esferas da sociedade. Não é coisa de quem somente teoriza. Se você nunca parou para pensar sobre ela, você merece a vida que você tem e você não tem direito algum de reclamar quando as coisas não saírem da forma como você esperava. O que você fez para evitar um futuro que não te agrada? Você é um parasita que sobrevive em um mundo que não merece.

A primeira lição que um praticante de Parkour deveria aprender é a ser um guerreiro. A ser forte, a ter princípios e a lutar. Quando uma vez foi dito que “ O Parkour é uma arma camuflada” todo mundo achou a frase genial e saiu pregando aos 4 ventos. Um bando de espartanos do filme “300”! Mas poucos descobriram que essa é uma arma que espera em silêncio ser sacada para defender a própria atividade. Portanto, das duas uma: ou aprendemos agora a levantar nossas vozes em prol do que acreditamos, ou então vamos todos nos silenciar na vergonha de um destino que ajudamos a criar por omissão.

Se optássemos pela primeira opção, acho que teríamos um mundo melhor e um Parkour muito mais bonito do que já é.

Corra, Pop, Corra (Rotina de Treino)


Praticamente todas as semanas alguém vem me pedir orientação ou ajuda sobre rotinas de treino. Como normalmente estou a minha vida inteira fazendo alguma rotina maluca, vou começar a divulgar esses projetos de treinos para que outros possam criar os seus próprios ou então adaptá-los a sua realidade.

O "Corra, Pop, Corra" é um treino que construí para meu amigo Adriano Diamarante (o Pop), de Maceió. Ele me pediu um treino onde:

- Queimasse calorias (Treino Aeróbico)
- Ganhasse velocidade e força de explosão (Pliometria)
- Aplicasse o seu ganho diretamente ao Parkour (Treino Funcional)

O resultado foi um treino muito bom, puxado, capaz de ser levado até o final por praticamente qualquer pessoa que se esforçar e um treino excelente para o Parkour. Eu mesmo o tenho utilizado pelo menos 3 vezes por semana. E além de tudo é um treino curto. Menos de uma hora de duração e você terá treinado muito, numa ótima intensidade e notará um ganho de força, condicionamento físico, resistência e explosão em pouco tempo. Tenho feito ele antes de praticamente todo treino de Parkour. Como aquecimento.

O Pop estava semi-gordo quando começou e agora já está em forma de tanque de guerra!

Como elaborei o treino para ele, já o tenho todo documentado. Vou conversar com ele pra ver se ele não quer gravar umas cenas para que eu possa criar um vídeozinho como o do Caba Macho. Assim terei mais um treino físico pra indicar quando vocês vierem aqui me enche... perguntar sobre esse assunto.

Bjo pra todo mundo!

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Corra, Pop, Corra!


·        Alongamento livre: cerca de 10 min

Braços, mãos, cotovelos, ombros.
Cintura.
Joelhos, tornozelos, pés.


·        Corrida: 20 min

Dentro da corrida, marque dois pontos (início e chegada) e faça um pique sem pausa. Se estiver sem pontos de referência, conte 10 segundos no pique. Quando acabar, volte pro ritmo normal (sem parar de correr de jeito nenhum). Espere sua freqüência cardíaca e respiração normalizar e quando estiver pronto decida quando irá fazer o próximo pique.

Dentro dos 20 min da corrida, você tem que realizar 4 piques.

Finalizou, recupere o fôlego por no máximo 3 minutos.


·        Quadrupedia com saltos (200 passos no quadrupedal + 40 precisões seguidas)

Faça 50 passos de quadrupedal. Quando terninar, levante e, sem parar, realize 10 precisões seguidas quicando no chão. Fechou a décima precisão, retorne, sem parar, para mais 50 passos no quadrupedal. Finalizou a segunda rodada de quadrupedal, sem parar, realize novamente as 10 precisões.

Realize a rotina completa acima 2 vezes.

Descanso máximo de 2 minutos entre uma série e a outra (Tente relaxar o máximo os braços e as pernas nesses dois minutos, balançando-os).



·        Box Jumps com Flexões

Ache um banco com altura na sua cintura. Realize 10 precisões para cima dele e 10 aterrisagens ao descer, começando em repouso com os pés juntos. Realize-as com calma, porém sem pausa.

Acabou a série, caia no chão para fazer 10 flexões tradicionais o mais rápido que puder. Continue na posição de flexão e conte 10 segundos. Fechou, desça pra flexão e se sustente quase tocando o queixo no chão. Conte mais 10 segundos. Acabou, apóie os antebraços no chão e contabilize 40 segundos em prancha. Fechou o tempo, realize mais 10 flexões o mais rápido que puder.

Retorne para as precisões.

A rotina acima deve ser executada 3 vezes.

Descanso máximo de 2 minutos entre uma série e a outra (Tente relaxar o máximo os braços e as pernas nesses dois minutos, balançando-os).


·        Suspensão com abdominal em barra

Se pendure em uma barra (ou um muro). Contabilize 10 segundos em suspensão. Sem descer, eleve 10 vezes as pernas dobradas em direção ao peito (ou o mais alto que conseguir – sem pausa e o mais rápido que puder). Finalizou, contabilize mais 10 segundos em suspensão.

Realize essa rotina por 3 vezes.


·        Alongamento livre: sem definição de tempo

Estiramento dos músculos principais. Bastante importante para evitar dores no outro dia.


DICAS:
Não se encha de água durante o treino.
Não pare para conversar.
Se quiser, elabore uma playlist e deixe rolando no mp4. Ajuda a relaxar.


·        Sobre a alimentação:

Evite:
Gema de ovo.
Carnes gordurosas.
Frituras em óleo.

Passe a beber mais água durante o dia.
Use e abuse de clara de ovo e leite de gado (de preferência o desnatado).

Meia hora antes do treino prepare uma vitamina simples usando o que tiver em caso (ex: mamão, leite, nescau, clara de ovo, aveia, banana, abacate, grãos...).

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A Reapropriação Errada do Espaço



Uma das singularidades que o Parkour faz despertar em seus praticantes é a compreensão de que os espaços delimitados pelo cimento, construções e matéria orgânica não são mais inacessíveis.

Uma árvore pode ser escalada, um muro pode ser transposto, um corrimão pode ser saltado ou, por pura opção nossa, ele pode ser apenas ignorado. A movimentação e o controle que se adquire sobre ela faz de todo e qualquer praticante um “decriptador“ do espaço: um ser capaz de analisar, identificar e tomar posse de qualquer local ao seu bel prazer. Muitas vezes isso rende algumas situações peculiares como conversas com seguranças, invasão de espaços abandonados, debates filosóficos com outros cidadãos...

Esse jogo de caça; essa certeza de sua natureza, e por que não dizer, o propósito do Parkour em se apropriar do ambiente ao redor, é uma das coisas que mais apaixonam praticantes, sociólogos, arquitetos e admiradores da prática. Vivemos em um mundo onde os cadeados, as cercas, as delimitações e os limites territoriais nos prendem em um espaço isolado. O Parkour e os seus praticantes fazem essa realidade cair por terra e se negam, inteligentemente e de forma imponente, a se conformar com o papel que nos foi imposto: ratos presos em um laboratório gigante denominado sociedade.

Foi assim que sempre me senti dentro da prática e é essa aventura que vejo a cada dia se perder.

No contra-fluxo das minhas reflexões tenho sido bombardeado com as construções próprias para o Parkour. São academias especializadas, praças dedicadas, espaços imensos e com todo aparato imaginável. Mas são se resume a somente o luxo. Eles são também pneus empilhados, lixo reaproveitado, areia e suor dos praticantes em fazer daquele espaço algo que possa ser chamado de “seu”. Nasce no Brasil, o pico do gato, do cachorro, do papagaio... Não entendo porque não nomearam nenhum deles de o “Pico do homem”... Afinal de contas, os animais que estarão presos dentro dele seremos nós mesmos. Presos e vendados.

A necessidade humana de "ter o controle" e "ser o dono" parece ter nos atingido de cheio de uns anos para cá. As pessoas não parecessem mais se contentar com a posse mental. É preciso o domínio, a autorização e a burocracia. O “é meu.”

A que ponto já chegamos e aonde estamos nos dirigindo com isso tudo?

A cada 10 praticantes que você entrevistar a respeito do Parkour advinho que no discurso dos 10 você encontrará a palavra “liberdade”. Que liberdade seria essa presa dentro de um retângulo ou limitada por um papel?

Vejo a “visão tracer” a cada dia ser mais ignorada. Construções que antes do Parkour eram ignoradas por todos nós, infelizmente têm voltado a ser ignoradas. Estamos regredindo a passos largos e nos viciando ao luxo e ao ego.

Eu considero que no Parkour não deveria haver nem sequer a denominação de “pico”. Quando delimitamos, nos apropriamos. E eu não me considero dono de nada. O “pico”, para mim, nada mais é do que um espaço (em comum a todas as pessoas do planeta) propício a um número maior de movimentações, que comporta um número maior de pessoas e que pode ser utilizado para que eu desenvolva as aptidões de que preciso. Mas o Parkour não está fechado ou isolado a ele. O Parkour é uma ferramenta minha para ser utilizado em qualquer espaço ou situação que eu sinta vontade. Meu pico é o planeta.

Em 2006 criticamos as pessoas que vestiam a roupa do treino, se tornavam super-herois no final de semana, e na segunda-feira deixavam o parkour detrás da porta e voltavam a se mesclar na multidão. Agora as pessoas vestem sua fantasia, se dirigem para o seu palco, dão o seu show particular e voltam para casa realizados. É isso? Sinto que não fui convidado para esse carnaval.
O que mudou de lá pra cá?

A crítica velada nesse texto não tem intenção de ofender. Tem intenção de pensar e fazer pensar. Praticante de Parkour está acostumado a se iludir e achar que é a última bolacha do pacote, quando na realidade, em sua maioria, são os seres mais ignorantes que podemos encontrar: os que não sabem do que falam e ainda querem ter alguma razão.

Não concorde comigo, reflita.

E se puder, quando voltar pra casa depois do seu trabalho ou da sua escola, observe o mundo ao seu redor: a construção da cidade, a casa abandonada, as frentes das lojas, a praça que nunca visitou, o posto de gasolina em reforma, o viaduto que fica deserto de madrugada...

Retire a sua segunda venda.