segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A Criança Interior


As coisas que acontecerem nas últimas semanas parece que foram premeditadas para me obrigar a fazer essa postagem. Eu sou um cara bobão, com espírito criança... porém todo esse ar infantil não modifica a minha realidade em que vivo: um mundo que é, por sua natureza, adulto. Não tenho contato diário com crianças e, muitas vezes, passo um bom tempo sem conversar com uma.

Durante a virada esportiva, eu tive a oportunidade de orientar muitos iniciantes, mas nenhum deles me deu tanto prazer como a tropinha de seus 11 anos que, subitamente, parecia ter brotado ao meu lado. Eles são os parceiros de treino perfeitos! Topam de tudo, conversam com naturalidade, não sentem pudor ao toque, treinam porque se sentem bem e fazem questão de que cada momento empregado no treino seja em prol de seu próprio objetivo (diversão).

Nesse dia em específico, eu lembro que por diversos momentos os papéis se inverteram: eles é que me instruíam e mostravam o que eu devia fazer pra me divertir como eles. Cheguei várias vezes a entregar a liderança do percurso para eles só pra ver o grau de macacadas que iriam aprontar! Huaahuahuahu! E foi muito legal! Tive que me arrastar no chão, galopar os corrimãos mais baixos e não saltar os maiores (porque obviamente eles não alcançavam) e tomar rotas que eu provavelmente não escolheria. O meu “guia” de tempos em tempos olhava pra trás com aquela cara de “deixa eu ter certeza que ele está me seguindo mesmo afinal ele é um adulto...”, e eu até agora lembro da cara de espanto dele ao constatar que “é... ele ta mesmo fazendo tudo que eu faço...”.

O tempo passou e aquela lembrança voltou comigo pra Aracaju. Os treinos por aqui estavam da mesma forma: pouco motivados, sem caras novas e com as pessoas infelizmente só se dedicando ao Parkour de final de semana. A realidade daqui, inclusive, não contribuiu muito para que a campanha do “One Giant Leap” em Aracaju fosse tão boa como poderia ser, mas eis que o evento produziu um fruto único: crianças.

Elas, que estavam no parque passeando com os pais, se misturaram aos poucos iniciantes daquele dia e me obrigaram a largar o treino avançado para me dedicar as suas traquinagens. O local era um tanto perigoso para treinarem (uma árvore única que alcança uns 5 metros de altura) então por isso eu me desloquei com o grupinho para uma área mais neutra. O “tio”, que constantemente era dito pra mim, me deixava muito feliz e me fez sentir novamente aquela sensação da virada esportiva. Conversei com elas e após ver que eu estava lidando com novos praticantes em potencial, tomei a decisão de trazer os treinos de iniciantes do GT para Aracaju. Estamos partindo para a quarta semana com um treino semanal, e embora eles sejam poucos e nosso tempo a principio curto, é o suficiente pra nos divertirmos juntos e aprendermos uns com os outros.

Vou aproveitar o espaço e o tema e registrar dois acontecimentos que ocorreram durante os treinos do GT por aqui e que eu quero me lembrar sempre e sempre.

Léo é um menino de 12 anos, classe média-alta e super-protegido pelos pais. Ele me adicionou no msn do nada e colocou na cabeça que queria treinar parkour. Fiz um tratamento de choque dizendo que ele seria mais um que quando visse o quanto parkour é difícil iria largar de imediato. Engano brutal. Esse menino têm demonstrado uma vontade de aprendizado incrível e têm me ajudado muito no meu próprio entendimento de “o que quero com o parkour e como atingirei meus objetivos”.

Quando cheguei ao primeiro treino de iniciantes, o Léo e um amigo dele estavam pulando de um local um tanto alto e caindo com toda força no chão. De imediato tomei uma decisão: todos os treinos de iniciantes seriam descalços.

Mas não pense que foi fácil... saca só a conversa após o alongamento:

- Bom pessoal, vamos começar. Mas antes queria pedir que vocês tirassem o tênis.
- Porquê?
- Porque treinar descalço vai te ajudar a conhecer melhor seu corpo e a não confiar no excesso de segurança que o tênis te dá.
- Mas se eu tirar o tênis meu pé vai começar a doer e eu não vou conseguir fazer nada.
- Léo, eu te garanto que você vai treinar numa boa e que essa dor será mais um motivo para você aprender a se movimentar sem fazer algo que machuque seu pé.
- Mas você disse que ia treinar com a gente também e que não ia ficar só falando.
- Ué, mas alguém disse que eu não vou?
- Mas você vai treinar sem tênis também?
- Exatamente.


Eu sentei no chão e tirei o meu. Após ele ver que eu estava me igualando a ele, ele se sentou e retirou o dele. Achei muito interessante esse raciocínio e o questionamento. Me fez perceber que se naquele momento eu frustrasse a expectativa dele, as recomendações que fiz ao longo do treino não teriam sido tão bem absorvidas. Nos treinos vou sempre fazer o meu máximo pra me igualar. Antes de ser visto como “o instrutor” eu prefiro ser visto como “o colega”. Estar ali no meio, sofrendo em conjunto e compartilhando o mesmo trabalho é fundamental nesse processo de aprendizado em duas vias.

No mesmo dia, após já termos treinado pra caramba, o Léo saiu com mais dois meninos para pedir água numa lanchonete. Quando fui atrás deles me deparei com o Léo atirando um copo descartável no chão e vindo ao meu encontro. Deu-se o outro diálogo:

- Cara, eu só saio daqui quando você voltar lá, pegar o seu copo e jogar no lixo.
- E porque eu tenho que fazer isso?
- Porque a praça não deve ser culpada pela sujeira que você criou. Quando a gente chegou aqui ela tava limpa.
- Todo mundo joga lixo na rua.
- Mas a gente não vai jogar. Vamos fazer assim, todo lixo que a gente tocar a gente fica sendo responsável por ele e tem que dar um fim.
- Então porque você não jogou no lixo aquele pedaçinho de papel que você pegou no chão no começo do treino?


Eu senti o chão sumir dos pés. Antes do aquecimento, eu tinha pegado no chão um papelzinho de uns três centímetros, li o que estava escrito e devolvi pro mesmo lugar. E agora? Como inspirar "o correto” se eu não fiz o correto? A única coisa que me veio a cabeça foi:

- É mesmo. Você tem razão.

Dei meia volta peguei o papel e joguei no mesmo lixo que ele já estava colocando o copo descartável.

Analisando a situação mais tarde, vi que essa foi a melhor postura que eu poderia ter tomado. Apesar de ser mais velho e mais experiente, eu não posso pensar em ser superior a eles, pois na maioria do tempo eles estão vidrados em tudo que eu faço. E se eu for irredutível ou tentar mascarar os deslizes que cometer... como diabos terei autoridade suficiente para cobrar?

O rosto do Léo ao ver que “tinha me pego” era bem do tipo “olha, ele também erra” e melhor ainda, era “olha, eu posso falar porque ele ouve o que eu falo”.

Eu vou tentar manter o máximo possível essa postura flexível. Claro que o controle da situação deve ser mantido, e as vezes precisarei ser rígido, mas tô aprendendo aos poucos que não preciso ser rude e fingir que sou perfeito para ser respeitado ou inspirar alguém.

Tomara que o Léo nunca leia essa postagem, se não ele vai ficar se achando o rei da cocada preta! HUAHUAHUAHUHUAHUAHUAHUHUAHUUHHAHUHUAHUAHUA!

Ah... e meu sobrinho nasceu!
Gabriel, aprenda logo a engatinhar para que o tio possa te ensinar a subir uns muros!

domingo, 13 de setembro de 2009

Barriga Verde



Me sinto extremamente idiota por fazer essa postagem no blog, mas... vamos adiante.

Desde o dia 09/09/2009 (quarta passada) o meu corpo não sente o prazer de comer carne. Sim. Me converti ao vegetarianismo. Não pretendo fazer aqui apologia sobre o assunto e nem tenho intenção que outros me sigam. Quero apenas comunicar a minha decisão e acabou.

É incrível como as poucas pessoas que já souberam disso, manifestaram-se de forma agressiva como se eu tivesse puxado uma coxa de galinha de suas bocas! Eu respeito a escolha delas em comer carne e da mesma forma espero que elas respeitem a minha de não fazer o mesmo. Vá questionar a puta que pariu! Livre arbitrio é salvo conduto!

Apesar de ter conhecimento de muitos dos males (e benefícios) que a carne proporciona, me tornei vegetariano por princípios. Estudei bastante nos últimos dias e estou satisfeito com a decisão. Será mais uma batalha a enfrentar e já senti na pele que não é tão fácil.

Fui educado em um mundo altamente carnal e praticamente todas as refeições do meu dia giravam em torno de carne. Nessa semana eu tive que rejeitar o Burguer King que tanto amava, a alcatra que minha mãe assava especialmente pra mim, e todos os pedaços de charque que ela colocou na sopa (que é tradição da sexta-feira desde que eu nasci).

E sinceramente?
Não quero pensar nas outras coisas que não farão mais parte da minha vida.

Por outro lado, durante a semana consumi vegetais que nem sabia existir: conheci uma folhinha verde chamada "couve" que é fora de série! E, nem eu acredito que vou falar isso agora mas... hoje comi uma carne de soja FENOMENAL feita pela minha mãe.

Fim. Acabou o post. Tchau.

Isso aqui é apenas um marco para que, futuramente ao reler essas linhas, eu me recorde de cada decisão importante que me fez quem eu sou.

AHHH!
Ainda em tempo!

Sempre me vangloriei por saber controlar meus instintos muito bem. É sério! Eu tenho uma capacidade enorme para suportar dor; eu aguento não cagar, acho que, durante uns 3 dias (e olha que diariamente, eu vou 3 vezes ao banheiro); e eu consigo fazer o xixi voltar pra bixiga mesmo quando as gotinhas já começaram a sair!

Sempre achei que as pessoas que não largavam vícios por causa de tentação (não estou falando de dependência química) eram fracas de espírito e dignas de pena. Pois é. Chegou a hora de me colocar a prova e ver se realmente tenho uma força mental tão boa quanto acredito e se sou tão digno assim de minha própria admiração.

Ai meu deus que medo!
Pizzaria... sopa de mocotó... coxinha... pastel... churrasco...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O Treino do Caba Macho



A maior dificuldade que vejo um iniciante enfrentar no Parkour é a falta de uma condição física que dê suporte a tudo que ele deseja aprender. Acredito que não adianta espírito, garra, ou motivação se você não tem tendões, músculos e articulações para entrar na batalha ao seu lado.

Cerca de quatro meses atrás, senti que meu corpo não estava no ponto que eu precisava para alcançar meus próximos objetivos. Resolvi que era o momento de tomar uma atitude com relação a isso e, então, entrei numa academia. Malhei dois meses e foi uma experiência legal. O trabalho localizado e intenso tornava meu corpo mais forte e eu somente tinha que aprender a reutilizar essa força nos treinos de Parkour. Um dia talvez eu faça uma postagem mais complexa sobre isso, pois foi o suficiente para eu chegar a algumas conclusões.

No entanto, uma questão mais ética do que física martelava em minha cabeça. Sentia que o treino indoor numa academia era não só uma prisão como uma negação dos valores que eu buscava no Parkour. Eu estava condicionando minha evolução física a uma rotina chata, presa a um espaço e a aparelhos, e que retirava toda felicidade que eu sentia quando meus músculos começavam a queimar. É muito diferente você sentir essa sensação quando ela é inesperada do que quando ela é justamente o objetivo.

Acho que o lema “Quer ficar forte para o Parkour? Treine Parkour!” não é uma verdade absoluta. Treinos e rotinas físicas são ótimas ferramentas para evolução e autoconhecimento. Mas, no meu caso, prefiro que isso aconteça longe de uma academia. Por vezes eu me sentia um trapaceiro, já que tenho o objetivo utópico de cada dia ser menos dependente de instituições, pessoas e medicamentos; e a academia era justamente mais uma variável nesse rolo todo.

Em meio a todo essa confusão, fui apresentado à nova loucura do Ibyanga: O Treino do Caba Macho. É uma rotina física pra ajudar nos treinos de Parkour e que, apesar de não ter sido criada com nenhum embasamento cientifico ou biológico, é filhadaputamente útil e eficaz se você for responsável e comprometido.

O treino se encaixou como uma luva em minha, então, atual situação. E assim... é macabro! Muito estressante tanto físico quanto mentalmente! E no meu caso, que o realizo 80% das vezes sozinho, torna-se um fardo ainda pior.

É meio estranho escrever em palavras algo que só sabe quem sente, por isso vou ressaltar alguns pontos aleatoriamente aí em baixo e se tiver vontade de entender do que se trata, faça um teste.

Os dias de braço são assustadoramente mais estressantes que os de perna. Climbar uma vez é fácil. Fazer 50 já pesa um pouco. E logo em seguida fazer 100 puxadonas te destrói! Isso tudo se você já não estiver reclamando do sangue e dos calos abertos nos polegares durante as “puxadonas fechadas”. As flexões são somente 100, mas depois de tudo que você já passou... cada uma pesa uma tonelada! Eu sempre tive uma boa condição física da parte superior, mas terminar o treino de braço é sempre um desafio que se eu pensar duas vezes antes de encarar, eu acho que desisto.

Os de perna começaram como um desafio enorme, mas com o passar do tempo meu corpo se acostumou. É que eu não tinha hábito de correr e o início dele é com no mínimo cinco quilômetros de corrida. A parte mais chata são as 100 precisões, pois como a perna já está “afetada” dá um certo trabalho realizar cada precisão perfeitamente.

Em comum com os dois dias, tem as porras dos abdominais estáticos. São os dois minutos mais sofridos de todo o treino, e embora tudo no momento conspire pra que eu não os complete, sempre eu dou um jeito de tirar força do cu e terminar (fico imaginando músicas alegres e coisa inusitadas).

Estou me estendendo demais e essa postagem era pra ser bem curta. No momento diminuí minha rotina: faço ele somente quatro vezes por semana pra deixar tudo mais equilibrado com os treinos de Parkour.

Ah... a maior dificuldade do treino na maioria das vezes não é somente “chegar ao final”, mas “chegar ao final” sabendo que dentro de 24 horas você estará se fudendo novamente. A preguiça pro treino do outro dia começa ainda durante a execução do que você ainda não terminou... é incrível! HAHAHAHAHAHHHAHAHA

Bjo pro Ítalo (nosso caba-macho-mor), Edi, Aaron (nosso caba-macho gringo), Ricardo Farias, Paulo, Marcelo, os cearenses e todos aqueles que de uma forma ou de outra sofrem comigo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Thomas Couetdic & Kazuma



Uma pergunta que ouvi mais de uma vez no Encontro Brasil-França foi: “E aí? Você ainda odeia gringo?”.

Vamos colocar os pingos nos “i”. Eu jamais falei isso. Apenas não nutro, por pessoa alguma, senso de adoração. Um psicanalista poderia catalogar essa minha postura como “orgulho, inveja ou apatia”, mas asseguro que não se trata de nenhum dos três. É que desde pequeno aprendi a não ter ídolos. Aprendi a admirar as pessoas, sem precisar idolatrá-las. E um ídolo pra mim é algo meio divino, as pessoas o adotam como modelo da perfeição e se esquecem de que aquele é apenas outro ser humano, como ele mesmo.

E é assim que eu escolho começar uma postagem falando sobre o Kazuma e o Thomas.

Essa característica de não bajulação era muito presente no grupo com quem eu me encontrava e estabeleceu a conexão na medida certa que precisávamos para construir um elo saudável para a troca de experiências. Pra se ter uma idéia a lembrança mais forte que tenho do Thomas é ele dizendo: “Duddu, o Belle se casou, mas mesmo se não tivesse, você não teria chance porque ele não é gay.”. E a do Kazuma seria ele pegando na minha mão e a gente andando que nem duas amigas no recreio em pleno shopping.

Tenha calma... já vou postar o que você quer ler... mas o blog é meu então sente aí e espere... ¬¬

A maior parte do dia do Thomas é com uma peste de uma moeda na mão e fazendo-a sumir e reaparecer das mais variadas formas possíveis. O engraçado é que ele faz com tanta vontade de melhorar e te pede tanta opinião que você acaba adquirindo gosto pela coisa e aprende vários truques bacanas. Já o Kazuma é o homem das pernas mais bonitas que eu já vi. Menino, quando eu o chamei de “coxudo” e expliquei o que significava... PRONTO! Aí foi que ele começou a forçar mesmo! Parecia um desfile: de cueca, de toalha, de sunga, de toalha rasgada na bunda... hhuahuahuahuahuhuahuahuhu

Mas deixa tudo isso pra lá e vamos ao que interessa!

São duas pessoas ALTAMENTE OPOSTAS quando o assunto é Parkour. Eu buscava pelos pontos em comum e não os encontrava. Se definisse o Kazuma como um Tigre dentes-de-sabre, o Thomas seria um... um... gatinho do Shrek (bonitinho, fofinho mas que sabe cumprir perfeitamente o seu papel).

Eu sei que é tosco fazer comparações quando o assunto é Parkour mas é que era muito estranho! Pra não ficar citando os nomes deles alternadamente, eu vou escrever minhas impressões sobre cada um em blocos separados e você que se vire pra entender.

O Thomas é um cara muito tranqüilo. No início eu achava que ele estava com vergonha da gente porque ele ficava muito calado. Depois que já estávamos mais íntimos, eu pude ver que aquele era um traço de sua personalidade e que, por sinal, refletia em seu modo de treinar Parkour. Ele é extremamente calculista, perfeccionista e concentrado. E não pense que aquela mimosidade toda é sinônimo de fragilidade não... ele é muito forte! Forte ao ponto de durante os workshops conseguir fazer 2 vezes a quantidade de nossos esforços e sem cansar. O resultado não poderia ser outro: os treinos que o Thomas nos convidava a fazer exigiam mais equilíbrio mental do que físico.

Em Brasília ele me falou: “Não importa se é a primeira repetição ou a última, você tem que manter a mesma atenção e vontade. Tente esquecer o mundo a sua volta e se concentre no que você está ali pra fazer”. Estávamos em um grupo de 10 pessoas fazendo um treino de precisão. A meta era contabilizar 10 pontos, sendo que cada ponto só era ganho quando TODAS as 10 pessoas acertassem a precisão consecutivamente. A distância eu acredito que era cerca de 9 a 10 pés com desnível. Não era tão difícil assim, mas a pressão psicológica por saber que o grupo inteiro iria se prejudicar caso eu errasse me preocupava muito. Acho, inclusive, que eu fui um dos que mais falhei. Mesmo que todos ali soubessem que pouco importava “finalizar o jogo”, aquilo era um treino de “agora é minha vez, não posso falhar”. Meu psicológico vacilava às vezes.

Cara, a concentração do Thomas é imensa! Naquela tarde treinamos essa precisão (somente ela) por cerca de 2 ou 3 horas... eu vou chutar que fizemos 500 precisões. Dessas 500 eu vi ele errar 2. DUAS! E isso quando estávamos no final. Quando o pé dele escorregou do murinho, ele olhou pra mim e disse: “Droga! Errei a primeira” e eu respondi: “Eu sei! (seu filho da puta!)”.

Fora isso ele é um cara que consegue se satisfazer com pouco. Quando visitamos a Lagoa, no RJ, ele enfezou em um percurso que envolvia 4 passadas em desnível. Era uma seqüencia um tanto arriscada mas que eu o vi repetir umas trocentas vezes. Cada hora ele fazia questão de incrementar algo: uma posição melhor de mão, um jeitinho mais legal de encaixar o pé... e nisso se a gente deixasse ele ia noite adentro.

Quando questionado sobre o Parkour Generations e Belle, a impressão que me ficou (embora ele não tenha dito com todas as letras) é que o trabalho deles com a PKGEN é praticamente o que todo mundo esperava que o Belle houvesse feito, e ele não fez. O Thomas não o criticava, ao contrário, falava muito bem dele e dizia que ele sabe viver sua vida. Não é porque ele é o “criador” do Parkour que é obrigado a dedicar a vida a isso. Ele tem outros objetivos, quer fazer outras coisas e ninguém tem nada a ver com isso. E é nesse ponto que o olho do Thomas brilha. Ele protege e defende a iniciativa do PKGEN com unhas e dentes. Dá pra notar que não é porque ele faz parte, mas porque o cara quer viver pra servir aquela causa e manter os princípios da atividade vivos.

Deixando o senhor Couetdic de lado, vou escrever agora sobre o senhor Rognoni.

Pra começar nunca o chame de Steve Rognoni. Ele é revoltado com o nome que os pais lhe deram e por isso quando ficou mais velho escolheu o seu próprio: Kazuma (extraído de um anime). Ah... nem falei que os dois são fanáticos por animes né? Pois são. Voltando: Se o Thomas é o cara “eu-quero-fazer-bem-feito” o Kazuma é o cara “foda-se-eu-quero-é-chegar”. Fazia muito tempo que eu não via alguém se jogar de cotovelo em um muro ou chapar o pé com toda a força no chão. As precisões dele pareciam que iam tirar o planeta de órbita, porém a força da perna do cara segurava qualquer impacto. O cara quando se movia parecia uma locomotiva: “o que tiver na frente eu passo por cima... ou derrubo!”.

Os workshops que passava se focavam mais nessa questão da agressividade. Normalmente ele nos fazia cansar no inicio e então, do nada, enquanto o grupo todo (ele inclusive) se encontrava no chão fazendo flexões, olhava pra gente com aqueles olhinhos puxados e dizia: “Vamos continuar fazendo as flexões, mas estão vendo aquele muro e aquela arvore? Quando eu der o sinal a gente corre, sobe o muro, salta de lá de cima, volta correndo, faz essa rotina 5 vezes seguidas, assim que terminar sobe de novo, salta pra arvore, volta pra cá, faz outra vez...” Você tá entendendo? Essa criatura queria nos matar! Eu só via o Zico urrando que nem um animal e o Thiago Lima se esborrachando no chão de tão exausto.

Mas havia um propósito. Ele nos disse que fazer um percurso em condição física normal é muito fácil, mas que Parkour lida com a movimentação continua mesmo em cima do desgaste físico. Se você aprende a se mover quando o seu corpo pede pra parar, aí sim você está fazendo algum progresso. Eu tive diversas vezes problemas em concentrar minha respiração e o que tanto o Kazuma quanto o Thomas berravam a todo momento era: “Você ainda consegue respirar, então você não está tão cansado! Diminua o seu ritmo, mas JAMAIS pare”. Cara, quando o Kazuma via você parar... ele corria e te dava uns empurrãos ou te enchia de soco e beliscão (Lissescão como ficou conhecido)! oO

Esse espírito guerreiro de manter a movimentação, não importa o esforço empregado, foi uma das maiores lições que aprendi e que faço questão de recordar a cada novo treino que faço.

O Kazuma, apesar de ministrar alguns workshops, não faz parte do Parkour Generations. Na verdade, de grupo nenhum. O PKGEN meio que tomou as rédeas do Parkour mundial nas mãos e disse: “Nós iremos guiar vocês pelo caminho da luz”. Já o Kazuma é daqueles que defende que as próprias pessoas devem encontrar esse caminho e não uma instituição o apontar. Ele tem o sonho de construir um Parkour Park em uma fazenda e anunciar: “Tracers do mundo todo, aqui vocês podem treinar sem serem incomodados! Venham! Se hospedem! Passem o tempo que quiser! E tragam dinheiro pro churrasco!”. Eu fiquei de cara quando ele falou isso. O cara é um fofo. Pelo que descrevi é meio fácil concluir que ele não é muito fã do ADAPT né? (Enquanto o Thomas defende o programa ferrenhamente).

Ah eu vou parar de escrever por aqui... tem um bocado de outras coisas mas eu num sou fi di rapariga pra escrever tudo não. Quando a gente se vê de novo você liga um USB na minha testa.

Ah... e eles não fedem e bebem muita água!
Bjos

sábado, 1 de agosto de 2009

De Volta Ao Real




Eu estava sentindo falta... falta mesmo. Até podia ter atualizado o blog antes, mas acho que o turbilhão de informações que minha cabeça recebeu ultimamente ia criar posts altamente desconexos e que até mesmo eu quando os lesse daqui a algum tempo não iria compreender.

Do dia 06 até o dia 26 de Julho, eu estive na maior viagem que já fiz em minha vida. Saca só o trajeto:

Aracaju – Salvador
Salvador – São Paulo
São Paulo – Rio de Janeiro
Rio de Janeiro – Belo Horizonte
Belo Horizonte – Brasília
Brasília – São Paulo
São Paulo – Salvador
Salvador – Aracaju

Nem eu sei como suportei. O estresse tanto físico quanto mental era evidente do meio da excursão pro final e tudo que eu pensava era em voltar pra casa.

Em contrapartida vivi momentos maravilhosos. Como se não bastasse o fato de poder visitar os maiores picos do parkour brasileiro, o GT estava unido novamente (com exceção do Jarbas). Eu acho incrível como moramos tão longe uns dos outros e nos damos tão bem pessoalmente. A sensação é de que não houve intervalo de um encontro pro outro; meio que um “pause” que é apertado quando nos separamos e é reapertado quando nos reencontramos.

Durante a viagem, ainda tivemos como companheiros de jornada o Kalebe, o Vítor, o Luiz Martinez e os franceses Thomas e Kazuma. Como pode ver, eu tive uma oportunidade de ouro pra aprender com tanta gente com tanto pra passar adiante.

O roteiro começou com o “Encontro Brasil-França”, depois passamos três dias no Rio de Janeiro, seguimos pra Belo Horizonte e ficamos um dia por lá, e depois partimos pro evento “Partour” que aconteceu em Brasília.

O “Brasil/França” foi uma surpresa pro GT porque a aceitação do público ao evento foi maciça. O espaço tornou-se até minúsculo para a quantidade enorme de pessoas que compareceram (estimo que umas 400). O Kazuma e o Thomas se incomodaram um pouco (tá... não foi só um pouco) com a quantidade de praticantes e infelizmente o esperado Workshop só rolou para aqueles que estavam no pé deles.

Eu fico feito um passarinho que caiu do ninho nesses eventos. Não sei pra onde olho, não sei com quem eu falo, não sei pra onde vou. São muitas pessoas que eu gostaria de passar horas conversando ou treinando, mas o tempo é minúsculo pra tudo que tenho vontade. Então sempre volto pra casa com essa sensação de “ainda não foi o suficiente”.

Mas é uma sensação indescritível ter ao alcance de um abraço todas aquelas pessoas que significam algo pra mim. Esse encontro, em particular, marca minha trajetória por ter me dado acesso à pessoas que à muito tempo eu queria conhecer. Destaco, em especial, o Kako no meio delas.

Em Belo Horizonte... os Pkmaxianos! São pessoas incríveis, onde eu deposito um carinho enorme. Em minha vivência, eles servem não somente como referência para o Parkour, mas também como seres humanos. Eu lamento do fundo da alma estar tão cansado no dia que passamos em Minas. Não estava bem, minha cabeça doía, meu corpo estava fadigado das mais de 10 horas de carro e sem dormir. Isso pra não reclamar do esgotamento físico proporcionado pelo workshop do Thomas no dia anterior. Então, até peço desculpas aos mineiros pelo “Duddu Zumbi” que aportou na terra deles. Lá, eu, Bacon, Gustavo e Leo ficamos hospedados na casa do Arthur. Foram momentos de muita conversa, risadas e comilanças (meu deus, me senti um rei!). Arteba, meu querido, valeuzão por tudo de coração!

Rumo a Brasília, pegamos estrada pela noite e foi uma canseira sem fim, cerca de 12 horas novamente em um carro e com o Kalebe cantarolando as músicas mais chatas do planeta enquanto eu tentava dormir. Eu estava com tanto sono e anestesiado que nem os beliscões do Kazuma me causavam mais dor. Pegamos o evento já na metade então só deu pra aproveitar o segundo dia.

Cara, eu precisava desse dia em Brasília! Fomos recebidos de braços abertos pelo BRTracer e eu não fazia idéia de como os brasilienses eram legais. É que todo contato que tive anteriormente com eles, me passava uma impressão meio fria, inflexível, rígida e sem sentimento. Com exceção do Miih e do Alex Pires, eu tinha impressão que aquela cidade era um criadouro de pessoas chatas. Engano gigantesco.

A começar pelo Santigas, que se revelou pra mim (ui!) uma pessoa extremamente legal. O jeito caladão dele sempre me causou aquela sensação de “não sou bem-vindo aqui” e por isso eu antes mantinha uma certa distância. Burrice. O cara é um amor de pessoa e eu realmente fiquei impressionado de como não tinha percebido antes. Valeu de coração por tudo meu velho!

Eu podia citar de um por um: O Leandro que eu não conhecia e que de cara me apaixonei! O Miih... mas esse nem vale a pena falar nada (s2). O famoso Breno que tanto eu ouvia falar (melhoras no pé, rapaz!). O Manoel que é um monstro fofinho! O Maurício, que é um cara que um dia eu vou perder a amizade por jogar um pedra na cabeça! O Belém... ah o Belém... o cara que sempre que encontro arruma um jeito de colocar perguntas em minha cabeça que perduram por semanas, meses e tem algumas que até estão completando aniversário em Setembro (hauhauauauhu!).

Eu revi o Butuí! O Beto! O Pedrinho Thomas! O outro Pedrinho! Os meus amados Renatto, Racir e Pedro de João Pessoa! A Poli! O Alex! Conheci o Bernardo! Ah cara... vou parar por aqui! Se eu te esqueci não é porque você não é importante é porque eu tô com sono... A Sofia!! Tá vendo que é sono, mesmo? Eu jamais esqueceria a Soso...

De volta a Sampa, o Thomas pegou o avião dele e eu o meu. Eu teria ainda mais 5 dias em Salvador até voltar pra casa. Lá, eu fui com o Gustavo na Coordenadoria de Esportes falar sobre o Encontro Brasileiro e já deixamos algumas coisas encaminhadas. No final de semana pude participar de mais um Acamparkour. Dois dias acampados numa faixa de terra que divide o Rio do Mar. São momentos de muito relaxamento mesclados com muito treino exaustivo e “cortante” por dentre os mangues. São horas que valem cada minuto! E só tenho a agradecer ao Guga, ao Fred, ao Joe e ao Fallux (mesmo esse faltando o acampamento todas às vezes) pelos momentos fodas que eu passo naquela terra.

Pois é isso. Estou de volta a minha casa. Treinando que nem um cavalo. Esperando as aulas da faculdade começarem. Em busca de um emprego. E vivendo a minha vida.

Cada vez que o Parkour se manifesta no meu dia, seja em lembrança, seja em treino, seja em internet... eu sinto que ele contribui significativamente pra me tornar a pessoa melhor que irá acordar em minha cama no próximo amanhecer.

E essa sensação é impagável.

PS: A vivência com o Thomas e o Kazuma merece um post especial, por esse motivo me abstive de comentar sobre eles. Assim que minhas idéias se ordenarem novamente, eu volto pra tentar colocar em palavras o que consegui absorver.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Um passo certo com o tênis certo


A foto ficou boa, né? Se não gostou, por favor... Minta! Eu até coloquei umas pétalas de flor pra ela ficar bem enfeitada e colorida! Isso tudo porque esta é uma postagem de celebração! Eu tenho vários motivos pra comemorar, e quem me conhece sabe que eu extrapolo na gayzice quando estou feliz. Ah... E eu também falo pelos cutuvelos! Então “senta que lá vem história” (imagine uma espiral de preto e branco rodando no seu monitor):

Em outubro do ano passado o Rinoceronte Diamarante, mais conhecido como Pop, me presenteou com esse tênis da foto: Um rainha VL-2500. O novo vício (leia: moda) do Ibyanga era utilizar essa peste de tênis. Eu era um dos únicos que não havia aderido. O fato é que ele apesar de ter uma aderência foda, não amortece bosta nenhuma e eu estava acostumado com meus Olympikus Tube, Mizunos e Asics (não pense que sou rico, tudo é herdado do meu irmão). A absorção deles era assombrosa! Pra ter uma idéia tem um que você até pode colocar umas pastilhas extras de amortecimento... vai ver o tênis é projetado pra saltar de prédio mesmo.

Voltando ao Pop e ao tênis da foto... ele me deu esse tênis de presente. Eu sei que você já leu isso, mas eu quero repetir porque significa muito pra mim. Acontece que eu não conseguia treinar com essa coisa no meu pé. Eu tentava e depois de uns 10 minutos o pé reclamava. Meu calcanhar sofria muito e teve até uma vez que eu bati tão forte que fiquei sem conseguir encostar o pé no chão durante 1 semana.

Toda vez que eu ia pra Maceió eu levava o tênis. Eu queria mostrar pro Pop que eu valorizava o presente e que estava treinando com ele. Tudo mentira... porque quando eu voltava pra Aracaju eu jogava essa bosta pra longe e voltava pros meus amortecedores.

Um dia ele veio pra cá, pegou o tênis em suas mãos, deu graças novamente, e disse: “Que triste... eu dou meu tênis pro cara e ele não usa. Se você não quiser eu pego de volta! Esse solado não tá gasto e isso é sinal de que você não treina com ele”. E era verdade. Afinal, eu só usava o tênis pra enganá-lo e ele não ficar triste.

Aquela época coincidiu com a vinda do idiota do Gustavo pra cá, e como eu já relatei naquele post-carta-de-amor, eu resolvi mudar o modo de encarar meus treinos e impactos. Treinei descalço por um tempo e naturalmente esse tênis se tornou um amigo. Acho que hoje poderia escrever um livro sobre ele. Aprendi lições valiosas como:

- Controlar e confiar no mecanismo natural de absorção de impactos do meu corpo.
- Eu amo meu calcanhar.
- Meu dedão do pé é quem me equilibra no balance.
- Aprender o limite entre o “eu consigo” e o “vale a pena?”.

Quando você o calça a impressão é que colocou uma camada fina de borracha pra proteger seu pé contra vidros e espinhos. Mas somente isso. Você sente cada pedra, cada desnível, cada mudança de terreno e cada dedo tocando o chão. Eu tive que aprender a me livrar daquela superficialidade toda dos tênis fodões e notei de imediato que a falta do conforto reduziu meu nível de “monstruosidades”.

Passei a fazer coisas menos impressionantes e a focar em “besteiras” corriqueiras do treino de qualquer tracer. Eu não fazia mais nada admirável por sua grandeza, mas contabilizava pequenas vitórias em cada precisão de 8 pés amortecida com segurança. Na verdade isso é algo muito monstruoso, eu que antes não dava o devido valor.

O Fred de Salvador quando veio aqui em casa me perguntou: “Você não guarda os seus tênis antigos não? Pois eu guardo. Sinto prazer em lembrar de como cada um deles me ajudou a evoluir e de quanto eu mesmo evolui.”.

Pois esse rainha é o meu primeiro troféu.
EU ACABEI COM ELE, POP!
USEI ATÉ O FINAL!


Sei que você está tão orgulhoso de mim quanto eu mesmo.
Não vejo a hora de comprar outro!

Feliz Aniversário Adriano Pop Diamarante.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Parkour Aracaju no Cinform




É tão legal quando um jornalista tenta entender o que você quer transmitir não é? Todo mundo quando cede uma entrevista na hora de conferir o resultado fica com as pernas bambas. O medo de terem distorcido sua palavra é gigantesco. Esse tipo de reportagem é aquela que eu acho extremamente saudável pro parkour, sem contar que é uma mão na roda pra apresentá-lo à comunidades locais.

Sugiro que as pessoas usem e abusem desse artificio. Jornal impresso é muito lido e normalmente serve otimamente para divulgar que a atividade existe em seu estado (me alegro muito em saber que a maioria dos oficiais militares lêem jornal impresso). E se vocês derem a sorte de pegar um jornalista como o Ben-Hur (velho, brigadão por tudo!) o resultado não tem como ser melhor.