sábado, 24 de abril de 2010

O Parkour e o Egoísmo - Episódio Final


Fiquei um tanto surpreso com a repercussão da última postagem e por várias pessoas terem me apresentado alguns fatos isolados que se enquadram no propósito desse assunto. Definitivamente minhas dúvidas e incertezas são mais comuns do que pensava e partilhadas por outras pessoas na mesma situação.

Anteriormente já deixei claro o quanto estou feliz com o Parkour na minha cidade. Como uma semente que precisava de tempo para se desenvolver, parece que finalmente as pessoas pararam de enxergar a atividade como um esporte radical de final de semana e resolveram serem mais ativas. A mudança é evidente e não podia me matar mais de orgulho. Não tenho mais do que me queixar: hoje tenho excelentes parceiros de treino.

Em contrapartida, junto com esse “progresso intelectual” veio uma nova geração: recém-chegados que desembarcaram nesse novo Parkour Aracaju de melhores qualidades física e mental. E eis então que vejo o ciclo se repetir. Aprendi que essa espera é necessária para maturação e que cada pessoa tem seu próprio “tempo para despertar”. São novos praticantes cujas sementes estão sendo plantadas agora e que, se persistirem, irão se tornar meus futuros bons companheiros. Mas como devo proceder quando essas pessoas não querem esperar a árvore crescer para saborear os frutos?

Descobrimos um pico novo. Uma imensa casa abandonada, sem boa parte do telhado e que as coisas mais legais a se fazer estão acima de 5 metros de altura. Um erro de cálculo, a desatenção no momento crítico pode custar caro a todos nós. Nós. É essa a palavra que norteia esse texto.

Como dito na postagem passada, para existir uma boa disseminação do Parkour é necessário determinado sacrifício ou abnegação das pessoas. Não se deixe impactar com o sentido da palavra. Deixar de treinar para auxiliar alguém ou encorajar um amigo com palavras são sim pequenos atos de sacrifício. Às vezes não notamos, mas a doação ao próximo existe naquele momento e muitas vezes é preciso anular a nossa “vontade real” em beneficio da atividade ou do grupo com quem treina.

O “zumbido” que se encontra em minha cabeça e que atualmente perturba meus treinos está justamente quando as pessoas tornam-se egoístas e param de pensar no coletivo.

Lembra da casa que falei lá em cima? Agora, olha pra essa foto:




O menino ”voando” tem apenas 13 anos e treina a somente 6 meses. Inclusive, eu, pessoalmente, quem me encarreguei de conversar com os pais e cultivar neles um voto de confiança para a prática. Como fazê-lo entender que deveria partir dele a compreensão de que uma queda, naquela situação, significa um possível extermínio e o “caça as bruxas” do Parkour em nossa cidade? Eu tenho algum direito de interferir em seu livre arbítrio? Afinal de contas, em caso de um acidente serão quatro anos de luta jogados fora em quatro segundos.

Esse exemplo de descaso é extremamente comum. Nesse mesmo local costuma comparecer outra criança: menos de 10 anos de idade e que treina a mais ou menos um ano. Sempre ela está acompanhada dos irmãos mais velhos (inclusive, um maior de idade). Existe alguma maneira de eu conseguir manter o foco do meu treino quando pessoas se arriscam a minha volta?

Entendeu agora porque intimamente eu gostaria de aprender a ser um pouco mais egoísta? A solução do meu problema seria muito mais rápida se eu ignorasse minha responsabilidade, ligasse o “foda-se” e pudesse treinar normalmente.

Para poder usar o pico com tranqüilidade já cheguei ao cúmulo de ir treinar lá sozinho. A todo tempo me sentia como se estivesse fazendo algo de errado porque eu sabia que, se houvesse avisado ao grupo, eles teriam me acompanhado. Mas foi muito bom usar pela primeira vez aquele espaço como eu gostaria: com calma e sem receber de 5 em 5 minutos aquele choque na espinha quando alguém sem o devido preparo decidia se aventurar em algo com muito risco.

Ainda não tenho discernimento para proceder nesse tipo de situação. As soluções que passam na minha cabeça são todas muito agressivas e com certeza eu estaria ferindo o direito das pessoas que treinam comigo se as colocasse em prática (o que confirmaria egoísmo de minha parte, mesmo que bem intencionado).

Muito obrigado por terem conversado comigo no msn sobre o assunto. Eu até adiantei o “problema” para algumas pessoas e ouvi algumas sugestões. É um assunto um tanto delicado. Não somente o meu, mas sim, ter que lidar com pessoas que ainda não compreendem que as atitudes delas durante o treino repercutem diretamente na qualidade de imagem que o Parkour tem na sua cidade.

Seria tão legal e mais fácil se cada pessoa pensasse nisso antes de executar certas ações...

Confesso que agora estou um pouco apreensivo porque meus parceiros de treino recentemente descobriram a existência do meu blog. HUAUHAUHUAUHAUHAUHAUHA

Tudo bem Uilian, Wallace, Léo e Victors?
Espero que ninguém se sinta demasiadamente exposto ou ofendido com algo.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Parkour e o Egoísmo - Episódio I



Às vezes me questiono se o egoísmo é necessariamente algo tão ruim. Há pessoas que não sentem remorso em passar por cima de tudo e de todos para atingir os seus objetivos. E há aquelas que se desprovêem e se privam de prazeres em favor do semelhante. Defesas existem para as duas correntes: filosóficas, psicológicas e até mesmo biológicas. Estou cansado de me deparar com a conclusão de que o instinto humano de auto-satisfação é soberano e que somos todos egoístas por natureza. Não tenho interesse em entrar nessa discussão, mas solucionar a pergunta que me atormenta: “Como achar uma solução racional e coerente quando a falta de egoísmo direcionado prejudica minha satisfação pessoal?”.

Eta bixiga deixa eu dar uma pausa.

A pergunta é no mínimo estranha e eu espero que ela torne-se mais clara nas próximas linhas.

O Parkour aflorou em mim um senso de coletivismo que até então inexistia. Não que eu fosse um super egoísta, mas é que sempre fui meio lobo solitário e o principal responsável pelo sucesso das coisas que me envolvia. Um bom exemplo vem dos meus dias na ginástica olímpica: era comum repassar minhas séries até a exaustão; me fuder até que ela ficasse com o mínimo de falhas. Mas embora eu jamais negasse ajuda aos meus colegas, eu sentia que não tava nem aí pro desenvolvimento deles ou da minha equipe. O que eu queria de verdade era uma nota alta e uma medalha no meu peito ao final da competição.

Um proposito fixo e meios para executa-lo. Nota 10 em coerência!

Mas então entrou na minha vida essa peste de disciplina francesa e deu um sacolejão no meu senso individualista. Além do desafio de re-educar meu corpo para um novo propósito, o Parkour fez nascer em mim algo que eu pensava que Deus tinha esquecido me dar: A responsabilidade e o comprometimento de fazer parte da construção de algo que é mais importante que o meu umbigo.

Nos primeiros meses eu parecia um camelo do Saara diante de um galão de água de 10 litros: quase me afogo sugando o máximo de Parkour que as pessoas ao meu lado podiam oferecer. As lições as vezes demoram a chegar. O passar do tempo me fez descobrir que aquela sensação de ser a pessoa mais feliz do mundo que eu vivenciava ao subir muros e pular bancos, era também reproduzida quando eu ajudava um iniciante, traduzia algum texto, legendava um vídeo ou simplesmente explicava pra alguém o que era aquela coisa que eu tanto gostava.

Com a compreensão de mundo que tinha na época... isso é coisa de retardado!

Quem é que se sente feliz passando 36 horas na frente de um computador legendando um diabo de documentário que já tinha entendido de cabo a rabo? E realmente deve ser bem divertido usar as poucas horas de lazer que se tem na semana para realizar um cabrunco de treino fixo onde aparecem 1 ou 2 iniciantes e você fica que nem um retardado ensinando a criatura a ANDAR de forma coordenada. Puta merda! Tem umas peças-raras que quando vai no primeiro treino não consegue nem isso! E eu lá: “Vai... tenta! Você consegue! Braço direito! Perna esquerda! Respira!”.

Apesar de parecer fugir a "minha lógica", isso é (e deveria ser com mais frequência) normal dentro do Parkour. Existe um monte de gente lá fora que se sente da mesma forma: se doam, se preocupam e se propõe a ajudar “estranhos”.

Na tentativa de compreender racionalmente o porquê da minha mudança, eu atribuí o fato à condição de “não quero ser mais egoísta”. Não que eu esteja sendo severo demais comigo e retirando os meus méritos. Mas é que consigo lidar melhor com esse tipo de situação quando não me enxergo como um cara bonzinho, e sim alguém que esta pagando por um serviço. Criei a fantasia de que o Parkour é aquele desconhecido que fez um bem pra mim e eu tenho a obrigação de retribuir. Assim mesmo. De forma fria, crua e calculista. A paranóia chega ao ponto de eu me sentir um filho da puta mal agradecido quando só sugo coisas boas da atividade e não devolvo nada de útil pra ela. Inclusive, hoje, eu acho essa “troca de favor” essencial para o crescimento da prática. Afinal, se não fosse pelo interesse e dedicação dos que vieram antes de mim, não existiria um duddu-tracer pra digitar besteira nesse espaço.

Acabei me estendendo mais do que pretendia e não tocando na raiz do meu problema:

“Como achar uma solução racional e coerente quando a falta de egoísmo direcionado prejudica minha satisfação pessoal?”.

Acabou o expediente no trampo e eu tenho que ir pra casa. Ao menos consegui deixar aí em cima a contextualização do meu "problema" e espero que na segunda postagem dessa blog-novela eu consiga concluir minha idéia e mostrar o que de fato esta me incomodando.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Eu faço parte do Parkour Aracaju.


Nós conseguimos!


Você não faz idéia do quanto eu esperei para fazer uma postagem desse tipo! Sobre o Parkour da minha cidade... O motivo da minha felicidade? É que aqui em Aracaju nós temos um pico chamado “Parque dos Cajueiros”; um parque aquático que foi abandonado a 17 anos atrás. A ação do tempo fez com que ele ficasse totalmente inutilizado pelos aracajuanos normais, mas pra gente, os anormais do Parkour, aquele lugar sempre esteve bem vivo.

Além da vasta vegetação, o parque tem uma área de casinhas abandonadas (foda pras pessoas que querem perder medo de altura) e um labirinto coberto pelo matagal. Desde que comecei a treinar sempre tive olho gordo pra esse labirinto, mas o mato descontrolado e a presença de muitas plantas tóxicas (como urtiga) fazia a nossa relação ser praticamente platônica. O pouco que dava pra “arriscar” ficava comprometido pela má conservação do espaço.

Pausa.

Desde o começo do ano eu estava com as camisas do One Giant Leap, mas sem querer entregar de mão beijada pra galera. É que assim... O povo daqui é que nem burro empacado! Só se mexe na base do cacete! Então minha idéia era segurar a entrega das camisas até surgir uma oportunidade de chantageá-los com algo. Sei lá... Podia ser um treino extremamente pesado onde todos tivessem que participar e suar a camisa; ou uma ação social... mas eu não conseguia me decidir pelo que fazer. Até que uns dias atrás alguém surgiu (valeu Pedra!) com a idéia de ouro: “Porque não usar a camisa para fazer o pessoal limpar aquela área do labirinto?”.

Bicho... Depois que ele deu a idéia, era somente nisso que eu conseguia pensar!

Esperei todo mundo que treina em Aracaju voltar das férias e então lancei o desafio:
“Quer sua camisa do OGL? VENHA BUSCAR NA LIMPEZA!”

No dia marcado, cheguei lá de carro carregando 3 pás, 1 facão, 1 machadinha, 1 enxada e 1 balde. É que eu sabia que muitos não teriam como carregar esses materiais num ônibus. Fiquei preocupado quando deram 3 horas (o horário marcado) e só haviam 4 pessoas no local. O trabalho era imenso. O sol estava bem quente e a preguiça parecia que ia nos vencer. Mas começamos de forma tímida e já dizendo “se não der pra terminar a gente volta amanhã...”. Rapaz... Eu nem sei como pegar numa enxada direito, mas a necessidade se provou ser o melhor dos professores. Ficamos os cinco lá, lutando contra o mato e suando que nem panela de cuzcuz. E confesso que mais de uma vez eu pensei “O bando de preguiçosos não veio né? Só de raiva vou fazer uma fogueira com as camisas que sobrarem!!!”.



Mas isso não seria preciso (e é claro que eu sou bonzinho demais pra tanto!). A cavalaria foi chegando aos poucos: Três. Um. Quatro. Cinco. Teve um momento que eu parei o trabalho para contabilizar... E JÁ ERAMOS DEZENOVE. O trabalho evoluía a passos largos e enquanto limpávamos eu escutava pelos cantos “VELHO, VEM VER O QUE DÁ PRA FAZER AQUI!”.

Por vezes eu largava as ferramentas para registrar algumas fotos e não acreditava que enfim estávamos restaurando um pico fodastico e que eu sonhei durante muito tempo em treinar. Em pouco mais de 3 horas de trabalho ele estava pronto. A vontade de explorar cada canto do labirinto era tanta que marcamos o treino do dia seguinte pra lá. Antes de voltar pra casa eu passei na guarita da Policia Ambiental para avisar o que fizemos. Eu sei que deveria ter feito isso antes de começar a limpeza, mas esqueci completamente. Conversei com os guardas, eles viram as ferramentas em nossas mãos e deu pra notar no rosto deles um semblante de “Porra... esses meninos existem?”.

Tem 4 anos que eu pratico Parkour aqui em Aracaju. Que eu vejo iniciante começar e iniciante desaparecer. Que eu vejo todos os amigos que criei descobrirem algo mais legal para fazer. Pra você ter uma idéia... do meu primeiro treino não restou mais ninguém. Então pra mim, essa limpeza tem um gostinho especial: É a concretização de uma responsabilidade que eu pensei que jamais iríamos alcançar.

Foi a primeira vez que eu vi o Parkour Aracaju se empenhar ao redor de uma causa. Sempre era Duddu, Duddu, Duddu e eu que me arrombasse sozinho. Essa demonstração de "carinho" com o parkour me deu confiança para pensar em projetos maiores para minha cidade, confiante de que serei amparado por essas pessoas quando precisar.

Se alguns estavam ali somente pela camisa? Não importa.

Pra mim o que conta é que eles tiveram uma experiência em equipe e viram que “fazer a sua parte” realmente faz a diferença. Cada mato que Josué (10 anos de idade) tirava do labirinto tinha o mesmo valor e importância que o que eu (22) retirava. Nosso esforço em conjunto é que fez a atitude dar certo.



Eu realmente não poderia estar mais feliz ou orgulhoso.
Brigadão meninos!

PS: A partir desse sábado, todos os sábados as 3 horas tem treino fixo marcado nesse local. Com isso a gente pretende descobrir tudo que o novo pico pode proporcionar e estabelecer um ponto de encontro para ajudar os iniciantes.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

E o ano realmente começou!

Oi meu blog!!!
Nossa! Como eu tava com saudades disso daqui!

Mais de um mês sem postar nada e pode acreditar que não era por falta do que escrever! Assuntos houveram aos montes, o problema estava na falta de tempo mesmo! É que esse começo de ano está sendo cheio de novidades, mudanças e muito trabalho! Tem tanta coisa que eu preciso desabafar, tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo:

- A ansiedade e preocupação com o Encontro Nordestino;
- Os 10 dias junto ao Aaron (depois conto quem ele é);
- Os planos para se levantar a ABPK;
- A criação do "Pulo do Gato";
- O novo emprego;
- Os novos treinos em Aracaju...

Ah velho! É bom estar de volta!
Vou tentar conter minha ansiedade e tratar cada assunto com o seu devido valor.

No mais, que eu seja-bem-vindo!

domingo, 10 de janeiro de 2010

Isso que é old school?


Nunca somos os mesmos. Foi uma das primeiras lições que o Parkour intelectualmente me ensinou. Cada treino, por mais simples, cada vitória, mesmo pequena, me elevavam um degrau rumo aos objetivos que, no inicio, nem eu mesmo sabia quais eram. Uma escada de aprendizados que ainda hoje não consigo visualizar onde termina.

Esse foi o começo. Cheio de erros e com alguns muitos acertos. Uma época feliz e que me traz nostalgia do clima que era sentido e vivido no Brasil e até nordestemente falando. Muitas pessoas passaram bons e maus bocados ao meu lado e tantas outras passaram o mesmo distando a quilômetros dele. O Orkut e o Youtube eram os atalhos que nos unia e fazia com que eu, mesmo longe pra caralho, me sentisse parte de uma “unidade”. Eu estava ligado, de certa forma, a pessoas que perseveravam e galgavam os meus mesmos degraus. É... no inicio tudo era tão melhor.

Eu buscava entender nos vídeos como meu corpo deveria se movimentar. Afinal de contas, era um mundo novo, cheio de variáveis e minha compreensão era muito infantil para dar a base que necessitava. Os vídeos e a experiência dos antigos era uma cartilha de sabedoria que fazia brilhar intensamente a direção que eu queria seguir. Me traziam a mensagem de que “Hoje aqui... amanhã lá!”. Eu sabia que, um dia, nós (que começávamos agora) seriamos o horizonte de novos iniciantes, e que eles, assim como eu fiz, se empolgariam com a idéia de se tornar um “ícone”. Mas eu gostava mais da internet nos meus primeiros tempos de Parkour.

O passar do tempo fez com que eu perdesse o gosto pelos vídeos. Até ouvir o que certas pessoas têm a dizer se tornou algo nocivo pro meu crescimento. Os vídeos que antes circulavam acompanhados de frases como “qualquer ajuda é bem vinda” ou “sua opinião me ajuda a crescer”, hoje, infelizmente trazem “assista, comente, avalie e subscreva”. Assim mesmo, frio, grosso e no imperativo. Uma ordem. As pessoas só querem saber de tornarem-se vistas, elogiadas e famosas. Se você assiste, ela ganha “views”. Se você comenta, ela ganha uma massagem no ego. Se você avalia, as estrelinhas do youtube sobem. Se você subscreve, ela ganha um público cativo e fama.

Ter a fama, ou melhor, buscar a fama talvez tenha se tornado o atual objetivo de porque algumas pessoas fazem um vídeo (não sou maluco de generalizar jamais!). A invasão de demos, showreels, prévias, e tanta papagaiada conseguiu subir a cabeça dos praticantes de Parkour e fazer com que o ego falasse mais alto que a necessidade de crescimento pessoal. Vale tudo por um espaço aos holofotes!

Acredito que estou sendo bonzinho por não ter comentado ainda a nova onda de “inspirar através das frases”. Ah... Essa é a melhor! Todos nós viramos filósofos de bar. Os nomes dos vídeos deixaram de ser “Treino com os amigos do Sul” para ser substituído por “A arte sentida no meu coração!” (aka The Art Of My Heart! Porque no inglês fica gringo!). Cara... Que profundo! Não te dá uma vontade de chorar? Eu choro... na maioria das vezes não sei se por raiva ou nojo. Apenas frases de impacto; algumas muitas retiradas do último livro auto-ajuda que leu.

Aprendi que o que busco com o Parkour já está dentro de mim. Não preciso mais de novos referenciais imediatos. Não preciso saber da nova moda dos Europeus (o moletom dos ingleses, a camisa listrada e os girinhos pole-dance do Oleg, as tiaras do Vigroux e do Ilabaca...). Eu já sei andar, sei correr, sei subir um muro... não era essa a base que eu buscava para seguir adiante? E ainda por cima eu estou rodeado de amigos maravilhosos; pessoas com quem terei espaço para conversar e trocar idéias o resto da minha vida.

Me entristece porque antes eu gostava muito de assistir vídeos. Ainda gosto muito, é verdade, mas é difícil encontrar um que não esteja mascarado com a necessidade de autopromoção. Os dos conhecidos eu ainda faço um esforço porque ajuda a matar a saudade e, mesmo podendo não ser mais o objetivo de alguns deles, eu ainda sou chato de fazer meus comentários da mesma forma que fazia a 3 anos atrás. E tem também os daquelas pessoas do meu coração. Os que eu tenho a certeza de que meu tempo ao assistir não estará sendo desperdiçado.

Ah Fábio... Eu não podia escrever essa postagem sem tocar no seu nome. Lembra quando a gente digladiava-se por horas no msn a respeito dos vídeos brasileiros? Enquanto eu defendia “O importante é mostrar como está a movimentação e obter o auxilio que precisa; ou então registrar um bom momento que viveu”, você gritava comigo que “Se vai fazer, porra, faz bem-feito! Para de tremer o caralho da câmera! Aprende a editar fora do movie maker! Bola um roteiro legal!”. Dizia que todo praticante de Parkour deveria estudar também para ser um bom editor. A gente chegou até a ficar chateado um com o outro umas vezes, tá lembrado? QIUOUPQIOUWPIOQUOWUOPQUWPIUOQIOPWUIOP!

Ah meu amigo... Eu me pergunto o que você faria agora. Quantas novas maneiras de se empurrar a cara de uma pessoa na lama você iria criar para destilar sua ironia e sarcasmo em cima dessas pessoas que possivelmente corromperam o seu espírito de treino.

Eu estou bem comigo. Quanto mais subo degraus, menos à vontade me sinto com essa publicidade. Adoro estar rodeado com os amigos e gravar os momentos de diversão. Quando a gente se separa, por vezes, até fico querendo chorar ao assistir as boas recordações que produzimos. E durante a virada de ano eu conversei com esses mesmos amigos de como será maravilhoso mostrarmos para os nossos filhos e netos essas coisas: “Olha o Gustavo noob no 1º Encontro Nordestino de Parkour!”... “Caralho, como o cabelo do Edi tava feio na virada de 2009!”.

É isso.

Meus treinos têm sentimento. Minha arte é viva e minha sede pelo equilíbrio é justa. Mas não é maior nem superior a de ninguém e muito menos eu quero fazer disso uma arma para ser reconhecido em meio à multidão.

Eu quero que você me avalie. Que faça comentários de como posso melhorar e que me subscreva em sua vida como um amigo que está ao seu lado já há um bom tempo. A idolatria, a fama e as estrelinhas? Coloca nos seus bolsos. Você é tão merecedor dela quanto eu.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Ímpeto!


Se você já leu dicas em inglês sobre movimentação já deve ter se deparado com a palavra “momentum”. Não vou negar: nunca compreendi direito o sentido dessa palavra e muito menos o que ela na prática significa. Desde a época da ginástica eu tentava achar um termo brasileiro que traduzisse a intenção dela e não conseguia.

Recentemente, enquanto estudava minha própria movimentação, a resposta simplesmente brotou do nada: ímpeto. Uma palavra tão pouco utilizada, marginalizada em nosso vocabulário, e que é responsável pela fluência perfeita almejada pelos praticantes de Parkour.

Explico. Se a fluência é o objetivo do tracer, o ímpeto é a força que atua alimentando o seu flow. É um pouco complicado de entender. Demorei um tempo até que ficasse claro em minha cabeça, mas acho que usando o Super Mario eu exemplifico melhor:

Lembra de uma fase onde o chão é coberto por tartarugas de espinho que aquele sol maldito fica jogando de cima da nuvem? Mario não é capaz de matá-las pulando em cima e nem pode tocá-las sem morrer. Então a fase traz pontos específicos onde uma estrela cai do céu e te dá imunidade contra as tratarugas. Para passar, você pega a primeira estrela, corre que nem o cabrunco, atropela todas as desgraçadas, e tem que pegar a próxima estrela antes do efeito da anterior acabar. Se demorar, hesitar, ou pensar duas vezes, não dá tempo e o poder de invencibilidade acaba. Uma corrente que deve ser mantida a todo custo.

Outro exemplo:

Tente se imaginar por um segundo durante uma corrida de 100 metros rasos. Você tem cada passo garantido (ou é idiota de errar o chão?) e por isso é capaz de imprimir em sua movimentação o máximo de explosão que o seu corpo pode ceder a ela. Cada músculo é ativado com o propósito de te impulsionar a frente. Seus pés trabalham em uníssono com o objetivo de te jogar adiante. Sua mente tem o foco de te fazer alcançar a linha de chegada no menor tempo.

BINGO!
Isso é o ímpeto!
Isso é o momentum!


Algo que me ajudou muito a entender esse conceito foi o treino de passadas (passos largos em corrimãos, muros...). Antes eu corria em direção ao obstáculo e já realizava a primeira passada travando a velocidade com o músculo da coxa. O medo de errar o local do pé fazia com que meu próprio corpo lutasse contra a movimentação planejada. Em condições como essa, onde você se torna seu obstáculo, o sucesso é muitas vezes comprometido.

Eu não sei definir se o bloqueio do ímpeto é algo mais físico ou mental. O que já sei é que o menor pensamento de falha, a menor negatividade que eu tiver, ou o milésimo de segundo de hesitação que manifestar, refletirá na forma como meu corpo irá se movimentar.

Tenho obtido bons resultados em “liberar o meu ímpeto” através de treinos de manutenção de velocidade: ultrapassar obstáculos de modo a conservar ou aumentar a velocidade, e evitando, ao máximo, reduções de marcha. Com isso tenho conseguido até eliminar aqueles passinhos irritantes que às vezes fazemos para consertar a perna que iniciará determinada movimentação. Se você treina seu ímpeto você fica pronto pra agir da forma que seu corpo se encontrar. Detalhes se tornam apenas detalhes e não mais os responsáveis pelo seu acerto.

Desenvolva um senso critico de movimentação. Analise fisicamente e cruelmente a movimentação de outras pessoas. Ache os “erros” que elas cometem durante seus percursos e imagine o que deveriam ter feito para melhorá-lo. Ultimamente eu gasto muito tempo observando meus parceiros de treino e apontando para eles o motivo de “não estar indo muito longe”, “não conseguir alcançar determinado lugar”, “travar o flow”... É como tocar uma ferida com o dedo. E, em sua maioria das vezes, a resposta que tenho como retorno é “eu nunca tinha parado pra pensar nisso”.

Pois pense! Grave seus próprios percursos e analise-os da mesma forma clínica e cruel. Se não achar a solução do problema, não se desespere. Compare sua movimentação com a de alguem que atinge o objetivo que você pretende alcançar.

Sei que é óbvio, mas eu no momento enxergo melhor que o que diferencia o meu êxito do meu fracasso são os erros e vícios que eu mesmo criei. O corpo é meu e a culpa é minha. Se aprender a achar esses meus erros e tiver a atitude coerente para consertá-los... E o limite? Onde está o limite?

Desculpa! Não resisti! É que criar frases de impacto é a nova moda!
HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUHUA

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

525.600 minutos



Faz 10 dias que fiz aniversário e ainda não fui ler as mensagens que recebi no orkut. No ano passado eu lembrei de desativar esta opção, mas atualizando o profile, ou sem querer, eu devo ter recolocado. Isso me fez comparar o duddu de quatro anos atrás e o que hoje eu vejo no espelho.

Sempre amei aniversários. Esperava o ano inteiro pelo 10 de novembro, dava dicas aos meus pais e familiares das coisas que eu gostaria de receber, não chegava ao cumulo de anunciar para todos o “hoje é meu aniversário”, mas amava receber telefonemas, mensagens fonadas, cartões... Até o cantar dos “parabéns pra você” era foda pra mim. Um rito de passagem. Uma celebração de pessoas dizendo que me amam. Um retorno de tudo aquilo que devotei a elas o ano inteiro. Um feedback que meu ego precisava para saber e mesurar o quanto eu era querido.

Meu deus como eu era tolo e egoísta! Não posso dizer que o Parkour me fez mudar nesse aspecto, mas posso dizer que a convivência com as pessoas que ele trouxe pra minha vida sim. Minha consciência de quem eu sou, e do meu papel no mundo e sociedade foi muito influenciado por elas. E logo eu que sempre me vi como fortaleza onde somente eu sabiamente escolheria os rumos a tomar. Pois é, quanta balela... Hoje enxergo que muito do que sou é reflexo das boas companhias (sim, apesar de tudo vocês são boas companhias) que eu tive.

Sinto que estou perdendo o foco do meu texto; deixar o fluxo da consciência e minhas memórias tomarem conta dos meus dedos não deve ser algo legal de se ler, então voltarei ao meu aniversário. Ele não significa mais nada do que significava há quatro anos. Tá lá no meu orkut mais de uma centena de recados e a única certeza que tenho é que a esmagadora maioria me desejou felicidades pela convenção social (e o lembrete de datas do orkut).

Meus amigos me desejam coisas boas todos os dias. Meus pais e irmãos demonstram amor por mim todos os dias. As pessoas que me cercam me tornam uma pessoa melhor todos os dias. Porque diabos então eu precisaria de um dia para ser lembrado e homenageado? Nesse momento eu só consigo escutar a voz do Edi gritando “capitalismo” na minha cabeça... hahahahhaha! A cada dia estou mais certo disso. Vivemos em um mundo altamente capitalista onde o peso de datas festivas faz engordar as fatias de lucro dos mercados. Não me sinto bem sendo manipulado dessa forma.

Faz quatro anos que deixei de dar presentes a meus pais nos aniversários e dia dos pais. Minhas irmãs sempre cobram a caixinha enrolada numa fita, e pior, elas ainda contabilizam quantas eu já estou devendo. HAHAHAHHAHAA! Mas eu faço questão de tentar fazer dos 365 dias do ano deles, um aniversário. Eu as vezes não consigo. Sou burro pra caralho. E embora não pareça, eu acho que tenho muito problema em demonstrar sentimentos pras pessoas que gosto. Tenho mudado esse traço de personalidade, mas ele ainda se encontra meio rude.

Podem não acreditar, mas isso é muita verdade! O duddu que se apresenta nos eventos de Parkour e pros novos amigos é ainda um projeto. Estou em uma mudança de valores constante desde que o Parkour entrou na minha vida e acredito que uma conversa de 10 min com minha mãe revelam isso pra qualquer um... ahauahuahuahuahuahuhuahua!

Fugi do tema de novo... eta cabrunco! É hoje! ¬¬

Enfim, se você é um dos scraps que eu não respondi, não pense que eu não dei bola pra ele... tenha certeza! Cada um sabe o impacto que causa na vida do outro e eu mesmo nunca imaginei estar cercado por pessoas (que não fossem familiares) por quem eu estaria disposto a me sacrificar.

Uma data é apenas uma data. E esse duddu não precisa mais de um dia festivo onde alguns terão a obrigação de dizer o quanto ele é especial. A verdade é que esses “alguns” já fazem todo o meu ano ser especial.

“NO DAY BUT TODAY!
MEASURE YOUR LIFE IN LOVE!”


(Rent - Os Boêmios)