No treino de ontem estávamos no Pico 1055, um casarão
abandonado que é incrível para o Parkour e que para ter acesso ou você precisa
saltar o muro ou se esgueirar por uma brecha com arame farpado.
Eu já estava fazendo as últimas movimentações do dia quando
ouvi uma voz de mulher no portão da entrada. Pensei que era a dona do casarão
ou até a polícia que estava reclamando com os meninos, então saí correndo de
onde estava e me coloquei em um ponto no último andar onde eu podia ser visto e
saber o que estava acontecendo.
- ... eu estava com ele agora.
Vocês não sabem o que é passar por isso. Tão lindo que nem vocês, com uma
juventude toda pela frente. Ele é lindo! Vocês não fazem idéia do que estão
fazendo não. Vocês podem brincar com outras coisas. Tem tanto esporte que é
mais legal por aí e que é bonito de se ver. Tem o Tênis e aquele outro, como é
o nome?, o Futevôlei que vocês estão fazendo agora! Eu não posso impedir vocês
de pularem aí não. Mas eu que sou a mãe dele. Eu passei essa manhã toda na
Santa Casa com meu filho. Você sabe o que é ter que dar comida na boca dele,
escovar os dentinhos e ter que trocar a roupa? Um menino que tinha tanta
vida. Hoje os colegas dele até o abandonaram, sabe? Antes chovia convites de
festas, mas agora ninguém liga mais pra ele. E ele é tão lindo! Parece com esse
moreninho, meu filho! Eu sei que é um esporte, mas esse aí que vocês estão
fazendo só vai trazer sofrimento a sua família. Vocês não precisam disso. Isso
que vocês fazem é insignificante. Por favor, nesse natal me dêem um presente:
Pensem no que vocês estão fazendo, nas suas mães e porque vocês estão fazendo isso. Se vocês quebrarem as
duas pernas, os dois braços, a bacia ou então as costelas, isso não vai ter
problema! Há conserto pra isso tudo e vocês são jovens! Mas meu filho quando
caiu bateu foi a cabeça. E vocês não sabem o que é a cabeça! Ela controla cada
partezinha do seu corpo! A gente pensa que o nosso corpo é muito forte às
vezes, mas é só preciso uma pancada na cabeça para você perder sua vida
inteira. Ele não tem coordenação motora mais nenhuma! Às vezes eu acho que é pior do que morrer. Eu não tenho mais a minha
vida. Só vivo em sessões de psicólogo com ele e de médico em médico. Mas eu amo
tanto o meu filho e eu amo vocês também. Então por favor, pensem no que vocês
estão fazendo.
O jeito mais rápido de descer era fazendo um salto do andar
de cima pro de baixo. O movimento foi tão natural para mim que na hora não
percebi que isso podia assustar ela ainda mais ou então ser encarado como um
deboche a tudo que ela falou.
Mas eu desci. Mesmo sujo e suado. Me aproximei da grade,
passei pelo buraco com o arame farpado e quando cheguei até ela perguntei se
podia dar um abraço.
- Claro que sim, meu filho!
E ali mesmo ela começou a chorar.
Agradeci toda a preocupação comigo e com o restante dos
meninos. Disse a ela que é difícil encontrarmos pessoas que cuidem umas das
outras e que esqueçam um pouco da frieza e do ritmo frenético que a vida hoje
nos impõe. Confirmei a ela também que o filho dela tem muita sorte de ter uma mãe
com essa fibra e com esse amor.
Eu sempre sou o cara que irá defender e argumentar em favor
do Parkour. Não tenho problema algum em gastar 30 minutos do meu treino
explicando passo a passo do que faço e do porque estou fazendo. Chamar o que eu
faço de “insignificante” seria praticamente um convite para uma discussão das
boas...
Mas nesse dia, eu não tive coragem. Eu sequer teria direito
a fazer isso. Ela é uma mãe. E com uma mãe ferida, em desabafo e em manifestação
pura de amor e afeto com o próximo, você não argumenta e nem tenta estar certo.
Pode ser o assunto que for e você pode se achar correto como for.
Diariamente o Parkour me proporciona situações, ensinamentos
e me dá motivos para pensar, questionar e aprender. Mesmo que ali eu estivesse
por ele, neste dia o grande professor surgiu em forma dessa mãe: Dona Edineuza.
O treino está marcado pra 15:00. E as 15:00 em ponto eu e ele chegamos.
- E aê?
- E aê.
Sem brincadeira, essas foram nossas únicas palavras durante toda a tarde.
Nas duas horas seguintes, embora os dois estivessem sempre no mesmo lugar, os únicos sons que conseguíamos ouvir eram os dos pés nos muros, o amortecimento das precisões, as raspadas, as passadas e os tombos. O engraçado é que não rolava em nenhum momento o pensamento de que "estou treinando sozinho". Não havia tempo pra isso.
O espaço era gigante (o centro de criatividade), mas aquele clima de silêncio e concentração fazia o treino render tanto que nos contentávamos com somente o básico e as repetições. Somente o correr e o passar.
Nesse momento não pude deixar de refletir: "Quantos não já teriam reclamado do lugar? Quantos não teriam a criatividade suficiente de inovar a cada minuto? Quantos não já teriam enjoado do que fazíamos ali?". Tudo se dava de forma bastante natural e transmitia a mensagem que guiava o treino dos dois: ser simples e ser Parkour.
Mesmo quando decidíamos trocar de ambiente, não haviam palavras. Um saia da vista do outro e o que ficou para trás logo em breve trazia as mochilas dos dois.
Quando o calor se tornou insuportável, decidimos quase que ao mesmo tempo tirar as camisas. Revelamos o óbvio: corpos lavados em muito suor.
De vez em quando compartilhávamos um mesmo percurso ou movimentação. Não era nem sequer aquela competição saudável de um instigar o outro. Era apenas uma mente alerta sugando experiência de uma outra mente alerta. Não existia o certo. Não existia o errado. Só existia o treino.
Eu sou sempre muito reclamão. Pra mim quase nunca alguma coisa está boa. Mas todas as vezes que treino com Finha volto pra casa muito feliz e com a sensação de dever cumprido.
Acredito que a palavra que define tudo isso é muito respeito:
Respeito que tenho por ele.
Respeito que ele tem por mim.
Respeito que temos ao que ambos buscamos.
Respeito ao espaço que estamos ocupando e as pessoas a nossa volta.
E respeito esse que deveria estar presente nos treinos de todos. Sempre.
A todos bons parceiros de treino, meu muito obrigado e meu respeito.
O novo texto do Blane "A Call To Arms" me tocou tanto que eu passei mais de um dia pensando no assunto até que decidi pedir a ele autorização para traduzir. Isso precisava ser lido por todos. Gastei algumas horas lapidando o vocabulário o mais que pude para que o mesmo sentimento com que ele escreveu pudesse ser entendido pelos brasileiros.
Inspirem-se, utilizem do texto e o repassem (em seus blogs, inclusive) sem moderação. Às Armas!
Agradecimentos ao Bronze pela tirada de dúvidas em alguns pontos.
Um Chamado à Luta (A Call To Arms) Por Chris "Blane" Rowat Tradução: Duddu
Desde quando uma travessia de 30
metros com uma criança pendurada em suas costas tornou-se menos importante do
que um salto de 18 pés entre dois pontos e com uma aterrissagem grotesca? Estou
pouco me lixando para suas passadas gigantes e barulhentas, pois há gente por
aí com 43 anos, o dobro da sua idade, duas vezes mais forte e que cai de 2
metros e não faz o menor barulho.
As coisas que deveriam importar
para o Parkour, não mais importam - e as coisas que hoje são largamente
consideradas como impressionantes não são mais quando você as analisa com
calma. Nossos valores estão sendo corrompidos.
Algumas vezes, tento olhar para o
Parkour de forma neutra, como se eu nunca tivesse ouvido falar sobre ele antes.
O que eu acharia dele se eu tivesse
ainda 17 anos e o descobrisse agora, ao final de 2012? Imagino que acharia bem
legal e que provavelmente iria mergulhar nesse mundo também. Só que, diferente
do que eu vi nove anos atrás, ele não iria me impressionar tanto como fez.
Se você terminar de ler esse
artigo e se convencer a respeito dos valores que eu acredito dentro do Parkour,
então você irá também se convencer de que se eu não me esforçar para espalhá-los
eles irão desaparecer.
Os novos iniciantes irão somente
enxergá-lo como uma atividade de pular de locais altos e não como uma prática
extremamente versátil e acessível para qualquer um com o desejo de encarar
desafios, conhecer e melhorar a si mesmo.
O que eu vi no Parkour em
2003, aos 17:
Uma
elite de poucos com qualidade de movimentação e atenção aos detalhes em
cada movimento que fazia e que esse nível era somente alcançado através de
milhares de horas de deliberada prática e treinamento.
O
espírito de um guerreiro insaciável com seu treinamento e com garra para
encarar qualquer desafio, seja ele físico, técnico ou mental.
Uma comunidade
em crescimento, positivista e inspirada por todos aqueles que vieram antes
dela.
Um
sistema de treinamento e uma comunidade que dava valor a todos os aspectos
do Parkour de forma igualitária, e uma consciência coletiva interessada em
um Parkour que durasse a vida inteira e não somente alguns meses.
O que eu vejo em 2012, aos
26:
Um
crescimento em massa do número de praticantes ao redor do mundo.
Big
jumps.
Péssimas
aterrissagens.
Competições.
Uma preciosa
minoria tentando se manter de pé sobre os velhos valores e duvidando de
suas razões em fazer isso…
...e
ultimamente, uma mudança do que é creditado como sendo Parkour.
E é justamente com essa pouca
minoria que luta e sobre essa mudança de valores que eu me preocupo.
Eu sou responsável por deixar
essa mudança acontecer sem encará-la, tanto quanto é responsável todos aqueles
da “minha geração”.Nós todos ficamos de
lado, deixamos o Parkour evoluir, ser modificado e se alastrar pela Internet
sem que disséssemos: “Espere um minuto,
isso é bom... mas e todas aquelas outras partes do Parkour por qual eu me
apaixonei? Onde estão?”
Eu tento sempre ensinar meus
alunos com esses valores em mente e eu sei que um bocado de homens e mulheres
também fazem o mesmo por aí. Mas acontece que não é suficiente mantermos esses
valores que nos cuidamos com tanto carinho presentes somente em nossas aulas em
algumas cidades ao redor do mundo. Temos que mostrar isso em larga escala se
quisermos mantê-los vivos. E mais importante do que isso, precisamos nos
preocupar em deixar nossos testemunhos para que eles possam ser encontrados por
todos aqueles que vierem a se interessar pelo Parkour em busca de algo mais do
que big jumps.
Nos últimos anos que se passaram,
ao invés de nos mantermos firmes e acreditar nos ensinamentos que passamos a
admirar quando conhecemos o Parkour, dia a dia, vídeo a vídeo, nosso sistema de
valores foi corrompido. Mesmo aqueles poucos que ainda hoje acreditam que
Parkour é para todos, pode sentir que está regredindo, que não é tão bom quanto
o cara novo, porque ele consegue fazer um salto que você não acha que consegue,
ou talvez você nem tenha vontade de fazer.
Mas se você se lembrar dos
valores que te trouxe a prática, então você não irá se importar em saltar tão
longe quanto o “cara novo”. Lembra do que uma vez você aprendeu? O que é um
salto, grande ou pequeno, sem uma boa aterrissagem? Quando foi que melhorar
suas subidas de muro, suas flexões, seus agachamentos, seu quadrupedal ou então
aumentar o seu recorde de ficar pendurado (se cair você morre!) se tornou menos
prazeroso do que aumentar a distância de seus saltos?
Eu já vi em alguns treinos em
grupo as pessoas fazerem piada com o cara que estava lá atrás se fudendo com um
colete de peso e tentando fazer suas barras ficarem mais fortes. Quando foi que
o que estava sendo executado por ele tornou-se uma parte inferior do Parkour?
Os desafios físicos não são algo
novo no mundo do Parkour. Ao menos desde que ele existe, os desafios físicos
são parte inerente a ele. Na verdade, como alguns de vocês irão se lembrar, muito
antes dos saltos chamarem a atenção, os desafios físicos ERAM o Parkour.
Hoje não são mais. Os desafios físicos (e
até mesmo, o treino físico) são atualmente espécie em extinção.
A ênfase mudou com o passar dos
últimos anos e o Parkour não é mais o terreno perfeito para se testar do que a
pessoa é feita fisicamente, tecnicamente, mentalmente... e emocionalmente.
Não é mais um desafio de saber se
você é capaz de correr de uma cidade pra outra e se aventurar a retornar antes
do pôr-do-sol. Não é mais um desafio para saber se você consegue empurrar um
carro velho numa ladeira com os amigos que você riu e chorou durante o dia. E
não é mais sobre conseguir entender o valor de se saltar para uma árvore
molhada em caso de um dia você tiver que resgatar um desses amigos que ficou
preso nela.
Agora é amplamente visto como um
palco para talentos, uma oportunidade para as pessoas mostrarem ao mundo como
eles conseguem saltar mais distante do que os outros. Ou então como eles estão
dispostos a viajar metade do mundo para fazer o mesmo salto que viu outro cara
realizar num vídeo do ano passado. Só
que agora ele chega lá e faz de side-flip.
Eu vejo competições onde o
“Melhor Atleta de Parkour” e os “Campeões Mundiais” gastam 37 segundos de
corrida tentando fazer qualquer coisa mais impressionante do que o cara que se
apresentou antes dele. Isso tudo antes do tempo acabar ou dele ficar sem
fôlego. 37 segundos de uma perfomance medíocre? Eu tenho treinado com homens e
mulheres que poderiam durar 37 minutos naquela mesma intensidade.
Quem deixou essa babaquice ganhar
espaço sem resistência? Quando foi que isso se tornou o foco? Quando foi que
fazer um salto mais longe que alguém se tornou algum valor para o Parkour?
Quando foi que visitar um pico pra repetir os mesmos movimentos que alguém já
fez se tornou a meta? Eu detesto admitir, mas fomos nós que deixamos essa merda
crescer. Permitimos isso quando passamos a duvidar de nós mesmos e passamos a
cogitar a possibilidade de um big jump ter alguma importância.
Aqui esta o vídeo de Jesse Owens saltando
26 pés (algo próximo a 8 metros) em 1936, Berlin, Alemanha.
Esse é um salto enorme mesmo para
os padrões e a metodologia avançada de treino que temos hoje em dia. E esse
salto não é só distante, mas muito, mas muito mais distante do que qualquer
salto já realizado por qualquer praticante de Parkour entre dois pontos. Então
porque a comunidade do Parkour (e, de fato, o mundo) fica impressionada quando
alguém pula 18 pés entre dois muros e desmorona como se ali tivesse alguma
caixa de areia como a de Jesse no vídeo? É porque eles são “corajosos” o
suficiente de fazer isso em uma fenda? Em muitos casos o medo de cair só é
derrotado pelo pensamento em ficar imortalizado no Youtube diante de milhares
de pessoas vestidas em seus pijamas. É isso que você entende por “coragem”? Se
for, então, por favor, feche essa página agora porque não há nada aqui pra
você.
Mas se tem uma razão pessoal e válida
para fazer um salto que carrega um risco para provar algo a si mesmo e então
ultrapassar sua própria compreensão e responder as suas dúvidas; agir quando
tudo dentro de você quer sair dali e ir para casa com intenção de provar SOMENTE algo a si mesmo; então isso é que é coragem e
determinação. E esses são alguns dos valores que verdadeiramente foram
construídos no Parkour. Os mesmos valores que a cada dia desaparecem diante de
seus olhos. Ficar eufórico e se esforçar o máximo que puder para provar seu
valor diante de alguém que esta do outro lado da internet, ou porque seu amigo
já fez aquilo uma vez, somente revela imprudência e alguém com vida curta
dentro do Parkour.
Eu gostaria de acreditar que a
maioria das pessoas que estão lendo esse texto irão concordar que Parkour deixa
de ser Parkour sem algum desses valores. Valores como coragem, decisão,
fortalecimento, força, disciplina, dedicação e longevidade. Valores como
humildade e altruísmo. Integridade.
Existem diversas maneiras que podemos
ajudar a mudar positivamente o futuro de nossa prática e o melhor ponto de
partida, e o jeito mais fácil, é não permitir que esses valores sejam perdidos.
Podemos inspirar a próxima
geração de praticantes e permitir que eles compreendam que Parkour é muito mais
do que realizar saltos impressionantes apenas fazendo com que nossas opiniões
não adormeçam.
Comente nos vídeos, faça upload do
seu próprio, escreva artigos, ensine, converse, viaje e treine da maneira que
você acredita que o Parkour deveria ser treinado. Deixe as pessoas verem esse
lado aonde quer que você vá. Represente e seja.
Esses valores não precisam ser
manifestados como os desafios que mencionei anteriormente, mas ultimamente a
única maneira que podemos significativamente crescer é encarar e se adaptar para
superar essas adversidades. Isso pode ser feito da mesma forma que você encara
um salto, quando ele te amedronta porque você crê que vale a pena enfrentar o
seu medo e testar sua habilidade.
Pode ser de forma técnica. Ou
talvez seja repetindo uma precisão correndo para um corrimão fino e tentando
aterrissar perfeitamente 3 vezes consecutivas. 10 vezes em seguida. 50.
Ou talvez seja um desafio físico
afinal. Você pode simplesmente escolher um dos seus exercícios favoritos e
fazer um teste pra saber até quando você agüenta refazê-lo. Testar quantas
repetições você consegue executar em dez minutos ou quanto de peso você
consegue erguer depois de 6 meses de treinamento dedicado.
Na verdade, não importa qual será
o desafio. O que importa é que você se desafie com freqüência a fim de
realmente se conhecer e saber do que você é feito. Esse confronto e disposição
para encarar obstáculos é o coração da fera que o Parkour é, e que
infelizmente, a cada ano que passa ele bate cada vez mais devagar. Mas é essa
exposição regular a desafios, tal quais esses que montamos, que irá disseminar
esses valores nas pessoas.
O que as pessoas parecem não
perceber é que um garoto de 19 anos que consegue saltar 18 pés, depois de um
ano de treinamento, muito provavelmente não estará mais aqui nos próximos.
Poucas pessoas permanecem mais do
alguns poucos anos nesse jogo, seja por conta de um machucado, perda de
interesse ou qualquer outro dos incontáveis motivos. Então, ainda que o que ele
faça seja impressionante, sim... o que você está treinando para fazer, 'ser e
durar', pelos próximos 10, 20 anos... e mais, ainda forte, progredindo, treinando
e se divertindo com o Parkour... Isso é muito mais impressionante para mim.
Estes são os valores e os objetivos que me impressionaram e que existem naquela
pequena elite que mencionei anteriormente. Estas são as coisas que eu não verei
perdidas nos anos que estão por vir.
Não peça desculpas a respeito dos
valores que você acredita e, mais importante ainda, não permita que o Parkour
os perca se você acredita neles! Parkour vai se desenvolver e se tornar o que
ele tiver que se tornar diante dos olhos de todos, mas se mantenha firme no que
você considera importante porque você não está sozinho!
Não o deixe morrer ou então a
próxima geração poderá jamais ver ou experimentar o que você viu e fez quando
você descobriu o Parkour. Deixe o desafio e a longevidade moldar seu
treinamento, seu objetivo e suas motivações. Estabeleça seus próprios desafios,
mesmo se alguns deles parecerem impossíveis, pois mesmo neles você aprenderá um
bocado. Lembre-se que o desafio não é um desafio se você não sabe como
realizá-lo.Pegue um envelope, faça um
convite à dúvida e a sua descrença e transforme esses velhos inimigos em seus
aliados. Encare hábitos que parecem ser insuperáveis, freqüentemente, e então
você crescerá como pessoa.
Se você quiser repetir aquele
pequeno salto, aquele com um ângulo complicado, para uma parede coberta de limo.
Se você pretende treiná-lo até chegar o dia em que você poderá realizá-lo com
os olhos fechados... então meu caro amigo, você não está sozinho! Eu quero
repetir esse salto com você! Mas vamos fazer 50. Só pra ter certeza. E um a
mais por aqueles que não podem se juntar a nós. Isso fará a nós dois um bem
maior do que aquele salto por cima do telhado carregando uma câmera.
Nós somos uma minoria agora, mas
juntos nós somos ainda uma influência sobre aqueles que dizem que praticam
Parkour. Ainda podemos fazer nossa mensagem ser ouvida por todos aqueles que
conhecerão o Parkour agora, e nos próximos anos.
Este é um
chamado à luta para aqueles que ainda se consideram a vanguarda do Parkour. A
hora é agora. Faça a diferença mostrando, compartilhando e sendo todos os
outros lados do Parkour que conhecemos e amamos. Os lados que muitos de nós
estamos vendo ser esquecidos enquanto a nossa prática cresce.
Originalmente esta seria somente uma postagem normal no blog. Mas acontece que ela foi tomando proporções maiores, a necessidade de detalhar um ou outro tópico surgiu e no final eu já estava era com um monte de páginas escritas!
Então, pra eu não ter que ficar respondendo sempre as mesmas perguntas sobre "duddu, como faz pra viajar?", eu resolvi condensar algumas dicas em uma espécie de livrinho. Ele traz os pontos chaves das minhas viagens e de como eu me acomodei a me organizar para elas.
Para quem nunca viajou "a serviço do Parkour" essa é uma boa desculpa hora pra começar. Se você já viaja, espero que alguma coisa dentro dele possa te ser útil.
Vou colocar o link para download aí embaixo porque eu sei que você jamais iria ler se eu colocasse linha a linha por aqui. ¬¬
Bjos a todos e venham para o nordeste e me convidem também para suas casas! *_*
Tinha ido à padaria comprar um lanche.
Naquele momento retornava para a empresa com um copo de café numa mão e uma
sacola de pão na outra. Ouvia música no fone de ouvido, mas não prestava
atenção nem na letra e nem na melodia. Na verdade, não prestava atenção em nada
e também não ouvia quase nada. Era apenas mais um cara extremamente relaxado executando uma ação simples no piloto automático. De repente, no instante
seguinte... POF! Nem tentei entender o que havia se colocado entre meu pé e o
chão. O reflexo instintivo determinava apenas que o café não caísse.
E dessa ação, cotidiana para
bípedes e quadrúpedes, surge o inquérito para esse texto: Quem é o culpado pelo meu
tropeço?
Comecei a caminhar com nove meses
de idade. Isso me concede 26 anos e 3 meses de experiência nesse ofício. A essa
altura já deveria ser um atleta profissional. A verdade é que se analisarmos os
10 últimos tropeços que dei, cada um deles foi ocasionado por uma variável: o
centímetro a mais de um degrau, o desnível em uma calçada que parecia ser
plana, a pedra que estava no lugar errado na hora errada...
- Epa epa epa! O que temos aqui?
Então quer dizer que estou tentando convencer a mim mesmo que existe uma culpa
para a pedra, para o desnível e para o degrau? Você está tentando nos convencer
que eles três, seres inanimados, são mais culpados do que a nossa escolha em ir
por aquele determinado caminho? Que petulante você é!
- Não. Não é isso. Estou identificando
para você, sua anta, que você não falhou com sua habilidade de caminhar nas
últimas 10 vezes que tropeçou. Nós apenas fomos confrontados com uma situação
não esperada e que foi negligenciada por nossa (sua) falta de atenção.
Tropeços podem ser evitados. Mas
isso demanda foco, análise e concentração. Filho da puta do Parkour... novamente se intrometendo em meu dia: A energia que gastei com a passada que gerou o meu
tropeço é a mesma contabilidade errada de energia que fiz ao falhar em subir um
muro. Em miúdos, se pouco se dá, pouco se tem. E se você pouco tem explosão pra subir
um muro, vai ter que o usar o cotovelo ou descer covardemente dele.
O tropeço da minha caminhada é o
mesmo obstáculo dos meus percursos. A diferença é que quando corro do ponto A
ao B, minhas atenções pertencem exclusivamente ao que estou fazendo. Não existe
confiança ilimitada e nem soberba da minha parte em achar que sou um
especialista no que faço e, portanto, impassível de cometer um erro.
Afinal de contas? Será que alguém
caminha sem ter certeza de que vai caminhar?
Culpado! Guilhotina na cabeça e
veredicto assinado! Assumo de forma livre e consciente que o tropeço foi gerado
não pela pedra, pela calçada ou pelo degrau, mas por minha audácia em achar que
já caminho tão bem e que por isso não precisaria mais dispor de minha atenção para este fim.
É esse mesmo alerta que devo
redirecionar a todas as áreas da minha vida. Excelência é diferente de
perfeição. Buscarei ser um ser humano excelente.
522 palavras só por causa de um
tropeço... somos mesmo um doente, Eduardo...AOIUQPWIPUwiIQPUUOIPWOQPIPIUWUOPIw
Até onde você pode exigir de seus alunos numa aula de Parkour?
Ontem fui um dos instrutores do GTreino, grupo de edificação e proteção aos valores do Parkour ao qual pertenço. Após apresentados, dividimos os grupos (4 de aproximadamente 10 pessoas) e revezamos os alunos em estações especificas puxadas por cada um de nós.
Meu treino consistia de uma série de desafios: desafios de velocidade, tempo, limitação e persistência. Estabeleci metas individuais e em grupo e incentivei-os a cumpri-las.
Quando o último dos grupos chegou as minhas mãos, eles já estavam alerta do que ia acontecer porque viram três grupos antes serem incentivados por meus gritos e nego correndo pela vida.
Ao apresentar a última parte do treino disse:
- Bom. Vocês tem 15 segundos, contados por mim, para realizar o seguinte trajeto: corre, sobe muro, corre, sobe muro, passa arvore, sobe degrau, corre, desce muro, desce muro e volta. Se serve de consolo até agora ninguém conseguiu completar nesse tempo.
Eles se empolgaram. Era tudo bem em cima de parkour+velocidade+flow e notei que eles não tinham muito costume de treinar assim... sob pressão.
O melhor sucedido terminou em 16 segundos e morrendo. Como viram que estavam dando de tudo e não surtia efeito para diminuir desse tempo, um corajoso jogou a bola pra mim (e foi em seguida super-apoiado pelos demais):
- Duddu, você consegue?
Notei que a pergunta não era movida somente por curiosidade. Eles não sabiam que eu tinha ido sozinho, mais cedo, testado tudo que iria pedir pra eles e estabelecido meus próprios limites para servir de base para criar a oficina.
- Consigo.
Daí a galera toda começou a contar meus 15 segundos. Terminei em 14 e pouquinho e isso porque escorreguei numa peste de uma folha (em um dos meus testes eu bati 13).
O que percebi: Não vejo problema algum em você dar aula e ensinar o que não é capaz de fazer. Até porque chega um momento onde o discípulo supera o mestre. Mas se você exigir de seus alunos algo que eles considerem "impossível", eles irão desacreditar no treino que você propõe.
Quando me viram concluir o trajeto, sem morrer e com folga, o rosto deles dizia claramente "Caralho, dá pra fazer mesmo. Eu só não consigo ainda!". E isso torna-se perspectiva pros treinos futuros deles.
É extremamente importante elaborar o treino com antecência ou ao menos ter noção do que será feito (e os desvios que podem ocorrer no "durante"). Do contrário, você pode ferir o bom senso dos praticantes e acabar criando uma descredibilidade tanto para você quanto para ele.
Como alguns devem saber tem sido
bastante difícil encontrar tempo livre para me dedicar ao blog. O meu livro (esqueci
de avisar aqui que tô escrevendo um, né?) somado as outras iniciativas que mantenho
com o Parkour têm me feito correr que nem um maluco! Mas como o assunto desse
tópico é importante, resolvi perder meu horário de almoço escrevendo sobre essa
minha nova fase de aprendizado.
Nunca fiz o estilo brigão. Mesmo
quando era irritado com os diferentes apelidos que minha magreza e meu óculos
fundo de garrafa me presentearam. Apesar de pacato, sempre fui o guri que tava
metido nas lutas de Power Rangers (e cá pra nós, eu imitava perfeitamente!). Não
tinha vontade de fazer uma arte marcial, só que sabia que se um dia fosse
trilhar esse caminho, seria através do Kung Fu.
E não é que ele chegou?
De início relutei um pouco por receio
de não mais me acostumar a ser comandado. Não que eu seja um rebelde. Ao
contrário. As quedas, as vitórias e o rigor da ginástica olímpica fizeram de
mim um discípulo pra lá de dedicado; daqueles que se torna tão doente pelo
treinamento que pode vir a ser confundido pelos demais com um exibicionista. Minha
preocupação real era saber se a autonomia que o Parkour criou em mim deixaria
alguém pôr de novo freios ao que eu posso ou não fazer. Resolvi me colocar a prova
e tentar aprender socos do tigre e chutes do dragão!
Decidido pelo Kung Fu, comecei a
ler tudo que encontrava sobre o assunto. Sites e horas depois, conclui que não
me importava qual estilo iria seguir, mas sim quem iria me educar. Começou a
peregrinação nas academias.
Fiz duas aulas testes: uma de
wing-chu e outra de garra de águia. Nas duas testei meus instrutores: me
apoiava nas paredes, enrolava, cruzava os braços, me distraia, conversava... nelas
não recebi bronca alguma. Pra piorar a situação, um desses instrutores dava a
aula de calça jeans e parecendo que tinha acabado de vir de uma feira. Foi
impossível não me questionar sobre o rigor e a tradição filosófica que eu tanto
havia lido a respeito. Fiquei bastante aliviado por eles não terem perguntado “E
aí, gostou? Vai vir na próxima aula?”. Não gostaria de mentir.
Algumas semanas depois, resolvi me aventurar na academia onde um amigo já treinava.
Logo de cara fui apresentado a um treino físico fudido e com o aviso de “se
passar mal, descanse”. Resisti fácil sem pular nenhuma etapa com aquela
sensação de “isso é interessante!" - mesmo que metade dos alunos não fizessem as coisas do jeito que ordenado. Quando chegou a hora de testar meu
instrutor quase tomei um sopapo na venta: “Pode ir desencostando da parede! E
descruze os braços!”. Pronto. Eram essas as palavras-chaves que eu esperava ouvir! Ele nem precisava
ter feito todo o ritual que inicia a aula e nem se vestir como um personagem de
vídeo-game...
Achei meu lugar. Estou terminando
meu sexto mês de treino. Já mudei de faixa, fiz dois cursos, competi e já
absorvi alguns valores que vieram somar com os que já tinha.
Obviamente não considero o Kung
Fu perfeito. Existe todo um capitalismo instaurado por trás da filosofia
ocidental e que provavelmente deve envergonhar os grandes mestres. Trata-se de
um processo semelhante ao de depredação de valores que tem atingido o Parkour e
ao qual eu tento arduamente combater.
Existe um senso de hierarquia
profundo dentro da prática e que, embora eu não simpatize com ele, aprendi a
respeitar. Me deixa puto o fato de eu ser um conhecedor profundo do meu corpo e,
mesmo assim, ter os exercícios limitados a cor da minha faixa! É revoltante pow! Porque parar meu
exercício para descansar se os graduados têm o direito de continuar? Eu não
tenho o físico de um iniciante, eu treino pesado e sem pausa desde os meus 12
anos de idade! Hoje eu tenho 26! Por esse motivo, sempre que a aula começa,
eu já estou suado. Corro descalço os 3 km que separam a empresa onde trabalho e
a academia; e depois da aula, treino Parkour ou volto pra casa fazendo um flow
grandão e feliz pela cidade.
Paciência. É isso que tenho
aprendido dia a dia. Por mais que eu seja forte, eu sou um iniciante. E se é
preciso segurar o meu ego interno para aprender a ser um bom praticante, é
assim que terá que ser.
Outro ponto a se destacar é que
eu nunca simpatizei muito com a minha famazinha entre os puladores de muro.
Sempre que viajo, sempre que vou treinar, sempre que converso de forma séria,
sempre e sempre esperam muito de mim. Existe um conceito que chega até as
pessoas, antes mesmo delas me conhecerem. Eu entendo o motivo disso tudo, mas
não acho tão legal e às vezes me causa certa vergonha. Por esse motivo estar
imerso em uma atividade onde sou anônimo é incrível! Lá não sou presidente de
nada, não estou à frente de nada, não tenho anos disso, anos daquilo, fiz isso,
fiz aquilo... N-A-D-A! Minha fama é nula
e eu sou um noob faixa branca e desengonçado!
Isso enche meus dias de alegria e
por vezes meus colegas não entendem porque treino tão empolgado.
Existem outras dezenas de
reflexões que posso fazer. As quebras de defesas que tive que exercer
internamente, a mudança em minha rotina e em minha postura, a analogia entre o
que é o “homem forte do parkour” e o “homem forte do kung fu”... dentre tantas outras
coisa.
Continuarei nesse caminho. Tenho
muito a aprender dentro dele e espero galgar quantos degraus forem necessários.
Ao meu tempo.
Existe na comunidade do Kung Fu uma paixão louca pela mudança de
faixa. Há pessoas que morreriam para usar um uniforme de instrução (símbolo de
autarquia) ou que sentem arrepios e suspiram perto de um atleta graduado. Nada
disso acontece comigo. Até porque para mim existem duas condições:
faixa branca e faixa preta. O restante entre elas é composto por muito suor e
treino; e não um arco-íris de cores.
Para o meu objetivo especifico, esse aprendizado tem sido uma mão na roda! Infelizmente não aprendi ainda a dar um
hadouken de fogo e nem a fazer um kamehameha. Ouvi um zum-zum-zum de que pra
isso tenho que ter KI maior que 8000... Quem sabe daqui a alguns anos? ;)