terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Desafio de Hércules, Concluído!




 Na semana passada, um amigo me marcou numa postagem que trazia uma listinha de tarefas com a foto de um ser espartano na frente. Fiquei um pouco desconfiado a principio porque a imagem dos gregos vem sendo desgastada por pessoas que não deveriam ser nem de longe merecedoras de usá-las. Ainda assim, fui lá checar do que se tratava.

O criador do desafio havia sido um amigo meu de Recife, Adilson Veron; e como já o conhecia de longa data, respirei aliviado sabendo que meu tempo analisando a proposta não seria em vão. E não foi em vão. Percebi logo de cara que o “desafio” fazia jus ao nome: era um desafio. Não um treino que você pretende repeti-lo diariamente ou semanalmente. Um desafio. As pessoas ainda confundem muito uma coisa com a outra.

Um desafio é algo que você entra de cabeça sem ter a plena certeza de que chega ao final. Se você já conhece plenamente a sua capacidade de concluir, então aquilo não te desafia. É muito fácil e cômodo assumir um trabalho que você já sabe que é capaz de executar.

Eu não me assustei com as 12 tarefas de imediato. Passei uma leitura breve sobre elas e tudo que via ali eu já tinha feito uma vez ou outra na vida. Mas nunca em sequência e de forma metódica. Vi que a tarefa número 12 era particularmente a mais cansativa: 1 km de quadrupedal. Eu já havia feito isso em Maceió, com o Ibyanga,e assim... foi de morrer. Nesse dia fizemos APENAS ISSO e eu tive muito trabalho para terminar. E o que era que o “Desafio de Hércules” trazia? 1 km depois de executada as outras 11 tarefas. Ou seja, FODEU.

Fiquei empolgado com esse teste e marquei a minha tentativa para 3 dias depois que vi o anúncio.

Hoje é final da noite de terça-feira , dia 11/02/2014 e estou escrevendo somente agora porque eu estava muito cansado para sequer levantar da cama. O desafio foi concluído ontem a noite e logo abaixo eu vou narrar minha trajetória dentro dele para que eu tenha como registro pro futuro.

---------------------------------------- O DESAFIO ----------------------------------------




Eu havia marcado para começar as 18:00, mas quando cheguei lá não havia ninguém. Me dirigi para onde iria começar e iniciei meus alongamentos. Quando terminei e estava prestes a iniciar a primeira tarefa sozinho, chegaram Tárcio e Finha. Apressei-os o máximo que pude porque eu não fazia ideia de quanto tempo levaria ali. Minha meta era terminar antes de 3 horas, mas se fosse para ficar lá até meia-noite, eu ficaria. Eles mal tiveram tempo de alongar e então começamos logo após eu iniciar minhas anotações.


Minha letra foi ficando mais feia por causa do cansaço conforme eu ia escrevendo gradativamente as anotações.


PRIMEIRA TAREFA – 10 TIROS DE 100 M
TEMPO DE EXECUÇÃO: 04:02

Eu decidi fazer o desafio no calçadão da 13 de Julho porque ele tem marcação de quilometragem no chão. Então eu saberia exatamente o quanto correr para não correr o risco de me auto-sabotar.

Os 10 piques foram feitos de forma “indo e voltando”; dessa forma, descansávamos alguns poucos segundos para pegar fôlego e retornávamos de onde saímos. Nada de novo ou muito interessante. Tarefa simples e que ajuda a irrigar os músculos com oxigênio se você respirar corretamente durante as execuções. Terminamos os 10 tiros sem maiores problemas e já suados.
 
SEGUNDA TAREFA – 100 AIR SQUATS (AGACHAMENTO)
TEMPO DE EXECUÇÃO: 04:57
MODO: 2 x 50


Estávamos os três bastante empolgados! A primeira já tinha ido! Nisso chegou Diego Elias e se juntou a nós. Perguntei se ele iria fazer os 10 tiros antes e ele disse que iria pular essa parte. Resmunguei um pouco porque eu sou chato e então ele passou a nos acompanhar.

Iniciei com a pretensão de fazer 4 séries de 25. Mas quando chegamos nos 20 primeiros notamos que poderíamos continuar com facilidade. Seguimos direto até os 50. Descansamos um pouco o músculo da coxa e percebemos que os tiros do começo estavam se fazendo sentir agora. A próxima série de 50 foi muito mais difícil. A coxa queimava a cada exercício (que não era executado de forma rápida porque a intenção era executar o agachamento corretamente).

Acho que essa é a única parte do desafio inteiro que se pudesse voltar eu faria de forma diferente. Aumentaria as séries e diminuiria as repetições. O resultado foi que esses dois primeiros exercícios, combinados, fragilizaram minhas pernas para todos os outros seguintes. Sempre que eu parava em falso, minha perna começava a tremer. Acredito que isso foi por conta do pouco descanso que dei entre as séries.

TERCEIRA TAREFA – 90 PULL UPS (BARRAS)
TEMPO DE EXECUÇÃO: 15:36
MODO: 5 x 10 + 8 x 5

Quando comecei, eu fiz as 10 primeiras tranquilamente. Pensei: "Sem muito mistério, são apenas barras.". ERRADO. As barras estavam ali por um único propósito: fadigar seus membros superiores. Percebi isso tarde demais. Então eu resolvi mudar a abordagem no meio do desafio: ao invés de fazer 9 séries de 10, eu mudei as 40 últimas para 8 séries de 5. Isso me ajudou MUITO porque conservou o músculo e deu mais tempo para que ele respirasse.

Esse descanso foi providencial porque eu não queria ficar com os braços tremendo por cometer o mesmo erro que fiz com os exercícios de perna. Além do mais, eu lembrei que lá pra frente havia planches e climbs. Preciso dos meus braços funcionando!

O que mais me assustava era que a cada série que executava eu me perguntava: “eu faria 1 km de quadrupedal AGORA, tranquilamente?”. E a resposta sempre era “Não”. Então eu fiquei com muito medo do final do treino porque vi o quanto aquilo estava me consumindo pouco a pouco...

Curiosamente eu acho que essa foi uma das piores parte do desafio. Meus últimos treinos têm focado muito pouco nesses músculos e eu notei que estava um pouco “fraco” neles. Fiquei com raiva disso e isso me abatia bastante psicologicamente.

QUARTA TAREFA – 80 PRECISÕES CRAVADAS
TEMPO DE EXECUÇÃO: 08:47
MODO: 80 SEM DESCANSO


Eu sabia que esse seria o meu momento de descanso. Eu já estava acostumado a fazer as 100 precisões do caba macho com as pernas muito mais cansadas do que estava agora. Então tirei de letra.

Escolhi uma precisão que tinha mais ou menos 9 pés e era pra um local ligeiramente mais alto de onde estava. Lembrei que, em algum lugar, eu vi o Veron dizer que “Uma errada vocês devem reduzir uma certa. E as erradas não valem!”. Não contei isso para os meninos porque sabia que se eles fossem reduzir as certas pelas erradas eles iam demorar muito tempo mesmo. Deixei eles contabilizarem somente as certas, sem deduções. Decidi que a cada 10 precisões corretas, eu ia juntar uma pedrinha no canto. Isso porque sempre que eu decido fazer séries grandes sem pausa eu esqueço minha contagem e acabo fazendo mais ou menos que o necessário.


    
Minhas 80 precisões, bonitinhas.

Eu estava me saindo melhor do que o esperado. Não precisei parar para descansar e fiz as 80 seguidas. Eu executava uma, descia e voltava de onde sai. Repeti esse ciclo por 80 vezes. Não errei nenhuma. Então não precisei deduzir nada. Percebi que depois de 50 precisões, as minhas aterrissagens foram ficando mais pesadas e a técnica pior. Aceitei que eu estava cansando, mas o fato de não ter errado nenhuma deu uma levantada no meu ego e na minha energia para continuar.

QUINTA TAREFA – 70 PUSH UPS (FLEXÕES)
TEMPO DE EXECUÇÃO: 03:41
MODO: 1 x 30 + 2 x 20

Eu abri um sorriso quando vi que seria isso. Flexões não eram tão pesadas como as barras e me ajudariam a variar o grupo muscular superior. Comecei bem empolgado, feliz, brincando com os meninos e me lembrando de não cometer excessos. A principio eu ia fazer duas séries de 35, mas por questão estratégica, resolvi aumentar esse número para três: a primeira com 30 e as duas seguintes com 20.

Fiz tudo sem dificuldade nenhuma. Conseguia fazer mais repetições se eu quisesse, mas minha intenção era guardar energia. 

SEXTA TAREFA – 60 JUMP BOX
TEMPO DE EXECUÇÃO: 11:13
MODO: 6 x 10

Tivemos que nos deslocar de onde estávamos para buscar um local que desse para fazer isso. Tudo que víamos no caminho ou era alto demais, ou baixo demais. Encontramos esse espaço dentro da quadra de basquete que não era o ideal, mas dava pra fazer. Pedi permissão aos meninos que estavam jogando e eles disseram que não iríamos atrapalhar.

"Saporra, era alto!"

Era alto para eu executar os box sem dar um passinho. O local passava da minha cintura. Devia ter mais de 1 metro e 20 centímetros. Algumas repetições eu consegui fazer da posição “parado” e saltando. Outras, inevitavelmente, eu tive que fazer dando um passinho antes.

O que me matava nesse exercício era o fato de ter que ficar de pé em cima da caixa depois. Essa subida do agachamento quebrou as minhas pernas. Eu comecei a sentir acumular um cansaço bem chatinho nos membros inferiores e a tremedeira subitamente começou a voltar.

Quando terminei os 10 primeiros eu percebi que precisava MUITO de ÁGUA. Então eu coloquei como objetivo que só iria liberar a água pra mim depois que eu chegasse na metade. E assim fui fazendo mesmo morrendo de sede. A água já estava quente mas mesmo assim desceu refrescante!

Eu e Finha estávamos encharcados de suor e ele ficava escorrendo pelos braços. O local onde a gente subia começou a ficar molhado com ele e tínhamos que ficar dando passinhos pro lado para evitar escorregar.


Era assim que ficava alguma coisa quando a gente se encostava.


Nesse momento Diego e Tárcio foram embora quase ao mesmo tempo em que  Victor chegou. Diego disse que não aguentava mais (e ele parecia cansadão mesmo) e Tarcio estava fazendo muita coisa errada, de forma descompromissada com o desafio e ainda tinha marcado um outro compromisso.

Foi chato ver eles irem embora na metade, mas mesmo assim fiquei agradecido por eles terem começado junto e aturado o treino até ali. Eu odeio fazer físico sozinho e isso é uma constante na minha vida. Então qualquer pessoa do lado pra eu xingar, ou conversar, já é uma ajuda tremenda para eu não ficar entediado.

E foi aí, nesse momento de despedida, que olhei pro meu caderninho e pela primeira vez percebi como o treino havia sido estruturado: elementos com menos técnica primeiro, elementos com maior técnica por último. Número de repetições maiores para exercícios mais simples, número de repetições menores para exercícios mais complexos. Muito interessante isso e enfim entendi porque o Veron havia me dito que eles deveriam ser feito naquela ordem. A diferença de uma tarefa para a outra era de apenas 10 repetições. Isso fazia com que acabássemos mais rápido a tarefa, mas promovendo um gasto considerável no corpo por causa do tipo de exercício. Se os box jumps fossem logo no começo, eu faria tranquilamente. O mesmo com cada uma das coisas que viria a seguir... E foi aqui que o desafio começou a complicar pra mim.

SÉTIMA TAREFA – 50 SIT UPS (ABDOMINAIS)
TEMPO DE EXECUÇÃO: 00:52
MODO: DE UMA VEZ

Meu abdômen é meu músculo mais forte. Então eu estava com ele bem tranquilo (apesar das precisões) e resolvi não perder tempo e fazer tudo em uma tirada só. Nem pareceu que eu estava executando uma das 12 tarefas em direção ao inferno...

OITAVA TAREFA – 40 BURPEES
TEMPO DE EXECUÇÃO: 03:32
MODO: 1 x 15 + 1 x 10 + 1 x 8 + 1 x 7

Faz aproximadamente dois anos que eu descobri a eficiência dos burpees em treinamentos físicos. Então de lá pra cá eu compreendi o quanto esse exercício engana e o quanto ele é puxado sem parecer que é.

A primeira série eu ia fazer somente 10 mas vi que estava bem e resolvi seguir direto para 15 repetições. Não deveria ter feito isso. Assim que terminei a décima quinta me senti tonto por uns 2 segundos. Não sei se devido ao esforço repetitivo de abaixar e saltar ou se por que eu estava já apresentando sinais de fome (e eu não havia tomado café, apenas tomado uma vitamina).

Resolvi pegar mais leve um pouco e dividir as repetições restantes em séries menores.

NONA TAREFA – 30 CLIMB UPS
TEMPO DE EXECUÇÃO: 05:25
MODO: 5 x 6

"Jesus, me dê força...". Foi assim que eu comecei. Tivemos que nos deslocar novamente para outro lugar e achar um muro que pudéssemos subir. O local tinha uma pegada ruim (ondulada) e ainda tinha umas pestes de umas notas musicais desenhadas e que a tinta fazia o pé deslizar.

Resolvi começar logo porque eu sabia que o próximo era o planche e eu não podia vacilar muito nessa tarefa. Fiz 5 séries de 6 climbs. Fazia o cat, climbava, descia. Tomava ar e fazia novamente. Esse foi o jeito que eu consegui (direto no muro eu iria morrer rápido e não iria conseguir planchar depois).

A essa altura eu não olhava mais para Finha e pra Victor. Nem vi as técnicas que eles usaram e como fizeram. Vi Finha reclamar um pouco do muro e escorregar nas mesmas notas musicais de merda. E o fi da peste ainda suava o muro todo!!! UHAUHAHUHUAUHAUH O que já era difícil o suor dele tornava pior... 

DÉCIMA TAREFA – 20 PLANCHES
TEMPO DE EXECUÇÃO: 09:35
MODO: 2 x 5 + 10 x 1

Essa foi à divisão mais estranha que eu fiz e acho que foi o exercício que mais tive dificuldade (mais ainda do que as barras lá do começo). Além do fato de eu, agora, ter consciência que minha parte superior não está tão forte como eu pensava, estava todo meu cansaço do treino e o medo do quadrupedal que estava por vir.

Eu pensei “vou fazer os planches rápido”. Subi e de uma vez fiz uma série de 5. Me impressionei porque eu não achei que seria capaz de fazer com a facilidade que fiz. Mas aí eu senti uma dorzinha estranha no meio do cotovelo direito. Subi na barra e fiz de novo mais 5 e a dor aumentou um pouquinho. Esse era um aviso muito sério e que eu seria imprudente se ignorasse.

Os 10 planches que faltavam eu fiz de 1 por 1. A dor no cotovelo aumentava, então eu comecei a jogar o peso mais pro lado esquerdo para reduzir o esforço.

Meu último planche foi muito sofrido. Meu antebraço queimava e meu grande dorsal (a asa) estava contraindo involuntariamente. O último foi naquele "jeito selva". Minha mão direita escorregou, eu segurei com o antebraço em cima da barra e acho que se não fosse pelos gritos de Finha “Bora! Bora! É o último!”, eu poderia ter desistido dele.

Fiquei feliz por não ter descido. Seria muito ruim fazer mais uma repetição nesse estado...

DÉCIMA PRIMEIRA TAREFA – 10 HANDSTAND PUSHUPS
TEMPO DE EXECUÇÃO: 01:02
MODO: 2 x 5

Eu acho que esse exercício foi um presente dos céus para mim. Eu não tenho dificuldade alguma com ele e por isso consegui fazer rapidão e esperar os meninos terminarem (com dificuldade) os deles.

Fiz duas séries de 5, com os pés encostados na parede. Fiz cinco, desci, tomei um ar. Subi de novo e fiz mais cinco. Sem problemas, suave e brincando. Acho que por ter sido ginasta e já ter feito muito disso eu tive certa facilidade, porque eu via Finha e Victor terem bastante dificuldade...

DÉCIMA SEGUNDA TAREFA – 1 KM DE QUADRUPEDAL
TEMPO DE EXECUÇÃO: 13:50
MODO: SEM PAUSA


Dessa primeira bola branca até a placa branca lá no fundo tem 100 m.

Chegou a última. Tudo que queríamos era terminar e ir pra casa. Eu disse “Olha, vamos começar logo que eu quero terminar.”. Voltamos para o lugar que começamos. Aquele que tinha a marcação dos 100 m. A missão seria ir e voltar (200 m), cinco vezes.

Eu estava BEM receoso porque cerca de 1 ano atrás, Edi me chamou em Maceió para fazer 1 km de quadrupedal e eu quase botei os bofes pra fora. Na época, eu fiz começando do descanso, em determinados momentos corri em quadrupedal e ainda assim eu finalizei em 25 minutos. Naquele dia, eu sofri muito. Então, nas condições que eu estava agora, eu esperava sofrer muito mais.

Engano meu. Não foi.

Comecei tranquilo e fiz os primeiros 200 metros sem sentir nada. Depois eu comecei a fazer um pouquinho de costas para aliviar a carga no ombro. Detalhe: sempre que faço quadrupedal eu sinto mais a perna do que os braços, mas hoje meus braços já estavam tão fodidos que o ombro começou a dar sinal de fadiga primeiro que a coxa.

Coloquei como meta não me levantar e descansar o mínimo possível. Se juntar todo o meu tempo de descanso, nessa parte, deve ter dado menos de 1 minuto (e sempre na posição de quadrupedal).

Quando estava lá em 600 metros, uma menina de uns 18 anos (bonitinha que só a peste) colou do meu lado e começou a fazer perguntas se aquilo era um esporte de andar de quatro. Era incômodo rastejar no chão e conversar enquanto ela fazia perguntas.

Quando cheguei em 800 metros foi a vez de um casal, que estava assistindo a tarefa desde o começo, me abordar. Expliquei que não podia me levantar, mas que eles podiam me acompanhar. Mais uma vez tive companhia e respondi perguntas sobre o quadrupedal, o treino e sobre o Parkour.

Esse povo não podia deixar pra fazer perguntas mais tarde, não? A 13 é um calçadão onde o pessoal rico de Aracaju pratica cooper. Era engraçado ver as mesmas pessoas indo e voltando e você ainda no chão... fazendo a mesma coisa, sem parar, desde que elas passaram por você...

Meus últimos 100 metros foram chatos. Meu braço já tremia e eu queria muito acabar com aquilo. Os últimos passos foram me arrastando, mesmo que eu soubesse que poderia dar mais. O problema é já era mais de 2 horas e meia de treino físico e eu já estava começando a ficar entediado daquilo.


ACABEI.


Começamos exatamente as 18:25 e concluímos tudo, com as mudanças de local e com os tempos de descanso entre as tarefas, em 2 horas e 15 minutos. Olhei pro relógio e era 20:40, ou seja, cumpri a minha meta inicial de terminar antes de 3 horas com muita folga.

Olhei pro lado e vi Finha iniciando seus últimos 200 metros. Fiquei olhando pra ele durante um bom tempo e o parabenizei quando terminou. Ter Finha ali do lado, fazendo o treino inteiro comigo, foi gratificante. Sem a presença dele aquilo tudo teria sido muito mais doloroso e chato.

Incrivelmente quando acabamos não estouraram fogos de artifício e nem gostosas com pouca roupa vieram entregar coroas de flores. Resolvemos pegar um ônibus para casa porque voltar caminhando estava meio fora de cogitação.

Sobre o quadrupedal ainda, eu o terminei em menos de 15 minutos e fiquei sem entender como. Das duas uma: naquela época que fiz 1 km com o Edi eu estava MUITO MAIS FRACO do que hoje ou então O FILHO DA PUTA MENTIU! Eu vou checar no mapa e tenho quase certeza que aquele percursos todo deve ter dado uns 2 km ou mais. É bem a cara dele ter me enrolado pra fazermos mais... ¬¬

Esse foi mais um desafio concluído e que eu gostei bastante de ter levado até o fim. Não é um treino que eu chamaria os amigos para fazer de novo, como quem convida para um churrasco. Talvez fizesse isso se houvesse algum agravante dentro dele que o tornasse um desafio de novo. Como disse antes, só é um desafio se você não tiver certeza que consegue. E esse eu já tenho certeza que consigo.

Acredito que durante os próximos dias vários amigos meus, principalmente daqui do nordeste, irão tentá-lo também. Estou ansioso para ouvir os relatos e boa sorte a todos vocês.

Se desafiar, de tempos em tempos, é um combustível magnífico para nossos treinos.

Até o próximo, povo!

domingo, 26 de janeiro de 2014

Quando todo seu esforço vale a pena.



Eu estava em um dilema a respeito se postava isso aqui ou não. Mas como se trata de um bom exemplo eu acho que ele pode servir para todos que, assim como eu, enxergam no Parkour, além de todas as suas excelentes características, uma ferramenta de transformação íntima e social. Para esses, eu desejo energia para trabalhar todos os dias e fazer do Parkour essa força poderosa que é capaz de mudar vidas. Vidas como a de Juan Lucas.

Mês passado, enquanto eu estava entre viagens, uma moça chamada Izabel Rezende entrou em contato comigo porque o seu filho de 11 anos não parava de falar sobre Parkour. Com certo receio ainda, ela perguntou se era possível ele praticar e se a associação tinha como receber ele em um treino. Expliquei a ela da minha viagem e marcamos de nos encontrar quando eu voltasse.

Juan Lucas é um menino muito MUITO inteligente. O meu treino guiado deste último sábado foi somente com ele (chegou pontualmente as 3 horas e eu percebi que era ele porque ele estava correndo pra lá e pra cá fazendo pergunta as pessoas). Fiz ele passar por alongamentos, aquecimentos e treinos técnicos durante quase 1 hora e meia. O que me chamava a atenção é que enquanto ele treinava comigo, ele narrava as movimentações dos outros meninos: "Olha, ele fez um precision jump! E aquele ali esta executando um equilíbrio do gato, não é professor?". Eu ria e fazia-o retornar o foco para o treino.

Ao terminar o treino guiado, ele estava ainda tão feliz que a mãe resolveu nos acompanhar até um outro pico mais underground: uma boate abandonada. Ela (já mais confiante) deixou Juan comigo e foi resolver algumas outras coisas. Deixei ele bem a vontade para interagir com o ambiente novo e lá ficamos até o anoitecer.

Quando cheguei em casa, Izabel veio falar comigo e, além de ficar bastante impressionado com a conversa, eu senti... sabe aquela sensação de que você esta fazendo a coisa certa? Foi isso. A transcrição do diálogo foi feita aí embaixo (com a permissão dela).

- E aí, Duddu? Tudo bem?
- Tudo ótimo, Izabel.
- Juan Lucas ficou muito feliz em realizar o treino. Esqueci de te agradecer, cara.
- Imagino que ele tenha ficado mesmo. Ele é muito esperto e deve ter pesquisado bastante sobre Parkour antes porque ele sabia o nome de tudo!
- Ele só vive pesquisando isso. O tempo inteiro.
- Fiquei impressionado porque as pessoas normalmente chegam bem verdinhas...
- Sabe Duddu, Juan tem um tipo de autismo e nunca se relaciona com ninguém. Tem dificuldades na escola, apesar de ser inteligente. E nunca tem muitos amigos. Mas o Parkour fez a conexão dele com o mundo e o trouxe pro lado de cá, sabe? Porque ele tem o mundo dele.
- Então fico feliz em dizer que hoje ele ganhou um monte de amigos, porque todo mundo gostou dele.
- Eu percebi isso. Esse Parkour faz dele melhor. Ele ama o Parkour.
- Eu costumo ler bastante sobre autismo porque é um assunto que muito me interessa. Apesar de ter visto muitas vezes ele "voar um pouco" e perder a atenção dele, eu não pude identificar o autismo. Acho que ele estava tão feliz que se você não me contasse eu não saberia.
- Ele esta amando tudo isso. Valeu mesmo, cara! Obrigada por trazer o parkour para perto de nós...
- Que ótimo! Então pode deixar que o que estiver ao nosso alcance para ajudá-lo, será feito.
- Bom, cara... nem sei como te agradecer... Quero estimular bastante Juan Lucas. Então pro que vocês precisarem basta falar. Mais uma vez obrigado pela atenção que deu pra gente.
- Deixa eu buscar aqui uma foto que tirei dele no treino para você guardar como recordação (enviei a foto que esta lá em cima).
- Que coisa mais linda! Muito obrigada!
- Eu posso mais tarde falar do caso do Juan como um exemplo para os meus amigos?
Porque isso é um caso lindo de superação. E exatamente o que o Parkour inspira nas pessoas.
- Pode sim. Ele queria treinar com você todo dia, mas acho melhor continuar só pelos sábados e depois a gente aumenta. Então pode sim mencionar sempre Juan Lucas. Eu que estou agradecida. Um abraço.
- Abração e prazer em conhecer vocês.
 
Missão cumprida e pronto para a próxima.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A Legalidade do Ato de Pensar


Resumo do que o texto tenta transmitir:
 
"OK, galerinha, eu sei que vocês tem seus motivos pra acreditar nas legalizações disso ou daquilo, e eu posso até apoiar x ou y; mas eu peço, de coração, que vocês estudem antes de saírem por aí tentando mudar a opinião alheia, caso contrário vocês não convencerão uma alma viva"."

 
Não é de agora que tenho notado uma consistência nos jovens brasileiros na busca por legalidades. De um tempo para cá parece até uma praga: pra onde viro o cara encontro uma opinião inflamada cada vez em rostos mais jovens. E quando falo jovem é de pirralho com 12 anos... Já foram variados os temas levantados por essa cambada: aborto, maconha, casamento homoafetivo, menoridade penal... Mas o que também pude observar é que na maioria das vezes encontrei não alguém lutando coerentemente por um direito e sim uma juventude rebelde fazendo o papel bobo no que mais sabem: rebelar-se não importa como e contra o quê.

Defender a legalidade da maconha é uma pauta diária. Eu não consigo ir para um treino, abrir uma rede social ou sentar em uma mesa com amigos sem que esse assunto brote das catacumbas.  Na maioria das vezes, a maconha é defendida por já usuários, por pessoas que escondem o vício dos familiares e/ou por pessoas que circulam com grupos onde todos fumam. A legalidade é buscada por eles porque o ato de não fumar torna a pessoa “careta”, inibe a “liberdade de expressão” e porque jovem nenhum gosta de ser proibido de nada. Acredito que se a maconha fosse liberada desde sempre eles inclusive encontrariam qualquer outra coisa para se rebelar. Porque para eles se rebelar dá status e agrega valor.

Já a defesa da legalização do aborto é bastante comum por pessoas que transam com frequência sem camisinha e por pessoas que já correram riscos de gravidez indesejada: pessoas despreparadas para ser pais e que já passaram noites em claro a espera do resultado de um exame de gravidez. A grande parcela e maioria desses defensores não pensam nas causas mais “nobres” como a utilização do aborto em casos de má formação fetal ou em gestações que coloquem em risco a vida da mãe. O importante é a resolução imediata do seu problema e, é claro, a satisfação da sua vontade de se rebelar.

Pessoalmente eu não tenho nada muito grave contra o uso da maconha. Eu não sou usuário, não me incomodo com o cheiro dela e sei que ela inclusive é menos nociva a saúde do que o cigarro (que é legal). O meu problema com ela, além do fato de ser crime, é que boa parte das pessoas que a defendem são pessoas imbecis. A grande maioria são pessoas incapazes de enxergar os lados de uma mesma moeda e de compreender algo que vá além do seu umbigo. Manja uma porta? São elas. Daqueles bem tapadas!

O mesmo se refere ao aborto: estão tão interessados em satisfazer um ego e uma necessidade, que esses “defensores” na verdade é que mereciam ser os verdadeiros abortados. É muito fácil ser a favor de uma causa em beneficio somente de si. Mas quantos estão dispostos a estudar, avaliar critérios, dados e impactos de ações, para enfim tomar um partido? Quantos gastaram 10 minutos de seu dia para ler uma análise clínica, um ensaio bem escrito ou um artigo sobre o tema? Acho que esses energúmenos não leem justamente por serem incapazes de entender o próprio idioma.

Eu reconheço, é claro, que existem militantes legítimos dessas causas. Pessoas que possuem um ponto de vista coerente e que lutam por uma sociedade de direitos mais justos. Conversar com vocês é sempre algo maravilhoso. Mas convenhamos, meu(inha) querido(a)... metade ou mais das pessoas que te seguem são retardados mentais. Infelizmente vocês, os legítimos conhecedores, são minoria. Pode ir chorar ali no cantinho...

A maconha poderia ser legal. O aborto, em casos extremamente controlados, poderia ser legal. E diversas das reivindicações que são feitas pela humanidade hoje em dia, poderiam sim ser legalizadas também. O problema é que o ser humano (e principalmente esses jovens) não sabe usar corretamente ainda o bom senso e nem direitos básicos que já possuem. Então para que diabos criar uma cobra que vai morder a gente? Nem a cabeça pregada no pescoço eles usam direito e querem defender a legalização de alguma coisa?

Por esse motivo eu abro mão do meu “direito” de fumar maconha. Abro mão também do meu direito de abortar. Tudo isso porque sei que o ser humano ainda não é responsável e nem benevolente o suficiente para arcar com o peso dessas liberações. Eles são burros. Nós somos burros.  E abro mão de minha liberdade por essa prostituição de pensamento toda. Fim de Papo.

Na verdade, você já deve ter percebido que eu sou meio nilista, né? Meu pai fica com raiva quando eu digo isso, mas por mim o ser humano é uma praga e se eu pudesse apertar um botão de “matar todo mundo e começar do zero” eu acho que apertaria, porque a gente faz muita coisa errada... puta que pariu!

Faz o teste: na próxima vez que um amigo seu manifestar opinião a favor da legalização de alguma coisa que exige um mínimo de conteúdo para se debater, pergunte a ele os motivos e de onde vem sua inspiração para isso... você, assim como eu, pode se surpreender com tanta babaquice.

E, comprovando o ser humano babaca que eu sou, eu lanço aqui então a minha campanha: A legalização do ato de pensar. Já passou da hora de exercemos esse direito e deixarmos de ser tão medíocres, egocêntricos e inconsequentes.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Proibição do Parkour em Escolas e Clubes




Resumo do que o texto tenta transmitir:

"OK, galerinha, eu sei que vocês tem seus motivos pra acreditar nas legalizações disso ou daquilo, e eu posso até apoiar x ou y; mas eu peço, de coração, que vocês estudem antes de saírem por aí tentando mudar a opinião alheia, caso contrário vocês não convencerão uma alma viva".
Em qualquer momento de nossa história, sempre que for preciso lidar com o que nos é estranho, diferente ou desconhecido, teremos que lidar também com o surgimento de preconceitos. Por se tratar de uma atividade recente e que não se encontra ainda fixada na sabedoria popular, a prática do Parkour é muitas vezes marginalizada, mal compreendida e proibida sem necessidade.

Em ambientes escolares e clubes, a problemática torna-se ainda mais conflitante: o papel educacional da instituição é educar para a vida e incentivar a práticas que conduzam a uma vida saudável. Porque então proibir uma atividade que pode provocar tantos benefícios? Parkour trabalha, além do desenvolvimento de todas as valências físicas do corpo humano, o reconhecimento do praticante enquanto cidadão assim como o aprimoramento de sua consciência moral. Não faz sentido se posicionar de forma contrária a isso.

Em pratos limpos, o que acontece é o medo de abraçar o desconhecido. Ao invés de procurar andar de mãos dadas com uma nova ferramenta de ensino, algumas entidades preferem ignorar o histórico e os benefícios da prática e instaurar uma absurda proibição. Absurda porque o coração do Parkour é a comunicação do praticante com o meio em que se encontra. Coibir sua prática é reprimir a noção de consciência espacial e reprimir o desenvolvimento motor do ser humano. Enxergo nisso uma medida totalmente arbitrária.

Óbvio que muitas vezes os ditos praticantes não são pessoas instruídas na atividade e que, pelo mau comportamento empregado, faz-se necessário um posicionamento mais enérgico da direção dos estabelecimentos. Mas acredito que o papel educacional nos ensina a incentivar o conhecimento ao invés de ignorá-lo.

A medida positivista que é esperada de uma instituição que promove o ensino e o lazer deveria ser a busca de pessoas qualificadas e preparadas para retransmitir esse conhecimento sem causar danos: nem aos pretensos iniciantes nem ao patrimônio. O Parkour tem muito a oferecer. É uma ferramenta educacional ainda muito pouco explorada. Mas se não abrirmos o espaço para que ela seja desenvolvida, estaremos marginalizando uma atividade que nasceu para revolucionar o modo como o ser humano encara o meio em que vive, e por tabela, os futuros praticantes e cidadãos.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Jamais Hesite Quando Puder Ajudar

Sangue que eu ainda deixei escapar. Droga!

Estávamos em um grupo de mais ou menos 10 pessoas treinando na ferroviária. Para quem não é de Aracaju, esse local esta abandonado a cerca de 20 anos e hoje serve apenas de esconderijo para usuários de drogas e bandidos. Era nosso primeiro treino oficial por lá. Durante toda a tarde, fiquei com os sentidos alertas caso fossemos abordados por alguém reclamando de nossa presença. Felizmente não fomos (apesar de uma viatura da polícia ter passado por perto e nos encarado).

Ficou escuro e decidimos pegar as bicicletas e voltar para casa. Quando chegamos na avenida, escutamos um barulho de derrapagem e assistimos quase aos nossos pés uma moto atropelar um homem de bicicleta. A confusão de corpos e ferro no ar, se não fosse a seriedade da situação, poderia ser apreciado como uma obra de arte. Em meio a tanto caos, você identifica corpos e ferro em um balé brilhantemente coreografado.

Quando os dois homens enfim caíram no chão, a ação de todos nós foi instantânea. Largamos tudo: bicicletas, mochilas e corremos em direção a eles.

Minha primeira reação foi checar o senhor da moto. Em questão de segundos vistoriei o corpo dele atrás de anomalias graves e não as encontrei. Pelo que pude notar ele só havia se arranhado bastante e apresentava aquelas marcas brancas, típicas de pele e carne comidas pelo asfalto.

Virei o rosto para checar o senhor da bike e quando ele tentou ficar de pé vi uma torneira de sangue jorrar da panturrilha dele. Sem brincadeira. Parecia que haviam decepado a perna dele com uma espada como naqueles filmes japoneses. O sangue espirrava a cerca de meio metro do corte. Entendi que precisava fazer alguma coisa e rápido. Corri até ele e vedei o buraco com minhas duas mãos. Fiz uma varredura rápida com os olhos e, apesar do cara ter um sangramento que não aparentava ser grave na cabeça, aquele ponto que eu segurava era sim o de maior lesão e onde eu podia ser mais útil. Decidi que iria ficar ali tapando o buraco quanto tempo precisasse.

Apoiei minha cabeça na perna dele e pressionei com força. As pessoas curiosas começaram a chegar e eu tive visão clara do que o Parkour Aracaju fazia naquele momento:

Monique, Tárcio e Do Vale estavam em pé e sinalizando o tráfego para que diminuíssem a velocidade. Leury, Gabriel, Ícaro e Victor estavam servindo de suportes, ligando para a emergência, entrando em contato com os familiares das duas vítimas e reunindo os nossos pertences que estavam espalhados na avenida. Aquiles segurava o joelho do motoqueiro no lugar e pelo que pude ver a distância parecia que ele tinha uma fratura ali. E Rafa, que estuda psicologia, começou um trabalho magnífico de acalmar as vítimas e evitar que eles dormissem (o cara que eu segurava, começou a se tremer muito e reclamar de frio).

Parecíamos uma equipe de resgate! Todos estavam ali para ajudar, executando a tarefa que podiam e tentando somar para o bem estar de alguém que não conheciam.

Minha pegada na mão começou a ficar cansada e quando aliviei um pouco o sangue voltou a espirrar bem forte. Fui mexendo os dedos bem devagar até sentir de onde exatamente o sangue jorrava e quando o encontrei concentrei minhas forças ali. Era impressionante a violência da pulsação, o que me dava a certeza de que eu não podia de jeito nenhum deixar aquele sangue sair.

Fiz pressão na panturrilha dele durante cerca de 40 minutos (isso mesmo... o resgate levou 40 minutos para chegar...). Quando chegaram, a socorrista era a mesma que socorreu minha avó quando ela caiu em nossa casa. Ela se aproximou de mim, pediu para eu largar a perna dele e quando a torneira de sangue voltou a abrir ela usou um kit médico para rapidamente estancar.

Se já estava muito orgulhoso de nossa ação, imagina como fiquei quando os meninos me contaram o que ouviram duas senhoras falarem:

 “Ah meu deus, são os doidos que estavam pulando na ferroviária. Eu vi eles mais cedo e agora são eles que estão socorrendo. Deus proteja esse homem!”

A partir desse dia, tenho certeza que seremos melhores vistos naquela redondeza e poderemos treinar com menos receio de ser confundidos com malfeitores.

Depois, pensando friamente, vi o quanto eu havia sido imprudente ao entrar em contato com o sangue de um desconhecido sem antes ter me precavido. É uma atitude que talvez da próxima vez eu esteja mais esperto e não repita da mesma forma. Mas cara... Ter a oportunidade de ajudar a alguém é uma coisa legal. Só que tomar de fato uma atitude e fazer a diferença para esse alguém é muito mais que “legal”: é incrível!

Hoje acertamos.

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Enquanto escrevia esse texto, eu me lembrei muito do Jarbas, do Santigas, do JJ e do JC. Por motivos diferentes e pela mesma energia positiva doada, obrigado aos quatro.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Pesquisa: MEDO E ENFRENTAMENTOS NA PERSPECTIVA DE PRATICANTES DE PARKOUR



Vou deixar aqui guardada a pesquisa que respondi para a estudante de psicologia Alessandra Fernandes. Ela está fazendo um trabalho engendrado na Psicologia do Esporte e a relação do praticante de Parkour com o medo e seu enfrentamento. Gostei das perguntas e ficarei de olho na conclusão do trabalho.



Entrevista semi-estruturada para tracers

1.      O que o Parkour representa na sua vida?

Um turning-point. Uma atividade que chegou no momento certo para dar direcionamento e foco ao que eu pretendia fazer e ser. Os conceitos existentes por trás da prática e as consequências do seu treinamento ajudaram por moldar a pessoa que eu sou hoje.

2.      Quais as lições fundamentais proporcionadas pela prática do Parkour?

Primeiramente o controle de variáveis que antes estavam inacessíveis: você descobre que o seu corpo é capaz de muito mais ações do que àquelas que as pessoas ao seu lado executam diariamente; e que esse controle, dessa atividade corporal, permite trilhar caminhos e interagir com o meio ao seu redor de maneira única e diferenciada.
 
Por consequência, o Parkour te induz aos questionamentos. A medida que você recebe uma quantidade absurda de respostas, essas novas informações passam a gerar novas perguntas: “Eu agora tenho a capacidade de subir esse muro. Será que eu tenho direito de subir esse muro? E porque eu quero subir esse muro?”.

3.      Quais as principais coisas que te impedem de ter um bom desempenho/de executar os movimentos/de superar os obstáculos?

Nada me impede. É justamente isso que o Parkour irá te ensinar o tempo inteiro. Que os problemas que te forem apresentados precisam de solução prática e eficiente. O Parkour é um caminho para resolver esses problemas. Se sua intenção for passar um muro mais alto que você: treine para ser capaz disso. Se sua intenção for atingir a meta da empresa: trabalhe em dobro para alcançá-la. Se você está sem tempo para fazer algo importante: acorde 1 hora mais cedo ou utilize uma hora menos de internet ou de televisão.

4.      Quais seus medos no Parkour? E na vida?

Tenho muito medo de me machucar ou de me expor a perigos por conta de situações que não posso controlar. Eu tenho pleno controle de meu salto. Mas até que ponto pode-se confiar na aderência do muro? Na solidez da parede? Na direção do vento? No barulho que pode ser executado durante minha movimentação? Essas variantes externas devem ser sempre levadas em consideração e por maior que seja sua habilidade, elas sempre irão existir e te influenciar. É meu dever entender o momento oportuno, a situação correta e o julgamento do que devo fazer ou não. Eu não posso errar nesse julgamento, assim como tenho certeza de que não errarei na minha movimentação.

Na vida, tenho muito medo de me tornar dependente de outras pessoas, sobretudo para atividades físicas. Convivo com pais que estão ficando idosos e tenho minha avó morando comigo já a 15 anos. Não quero ter que passar por situações onde até para defecar e urinar eu precise de ajuda. Quero ser um idoso ativo, com o máximo de saúde que for possível e executando tarefas simples sem nenhuma dificuldade. Meu maior medo é ficar impossibilitado de ação.


5.      Quais os medos que persistem hoje e que existiam na infância?

Aos 12 anos eu caí de um telhado e me machuquei bastante. Hoje ainda, mesmo com todo controle que tenho, eu tenho muito medo de cair. Nas circunstâncias da minha queda, o telhado cedeu. Tenho muito medo de a barra que me apoio ceder, o muro cair ou o telhado desabar de novo. Porém, o medo não tem me paralisado. O Parkour aos poucos tem me feito encarar o que é preciso para que esse trauma não me torne inerte.

6.      Qual época da sua vida você acredita que sentia mais medo/mais ansiedade? Por quê?

Na adolescência. Porque havia a necessidade de auto-afirmação, de mostrar aos demais que eu valia algo e de que seria proveitoso para eles andarem comigo ou estarem comigo. Fora isso eu fazia parte da seleção de um esporte altamente competitivo (Ginástica Artística). Minha posição de destaque necessitava um feedback das minhas habilidades e isso gerava uma ansiedade incrível diariamente; porque eu precisava demonstrar resultados. Eu era alvo de atenção e tinha que corresponder à altura. E eu queria essa atenção. O Parkour jogou todos esses valores para cima e eu dou risada quando lembro de algumas passagens de minha vida.

7.      Quais os medos mais intensos e mais persistentes no Parkour?

O de que a sua vida depende de você. Que uma movimentação certa, por mais consciente que seja, pode dar errado por fatores externos. Que um erro seu pode te trazer sequelas para o resto da vida e trabalho extra para aqueles que você ama. Então, por esse motivo, treinamos para nos tornarmos mestres nessas habilidades. Para que os riscos sejam reduzidos e deixem de nos amedrontar tanto.

8.      O que você acredita que originou esses medos? O que poderia ter causado eles?

Uma vez que você começa a treinar, a sensação de liberdade motora é inexplicável. Você as vezes se sente um super-herói ou um passarinho que descobriu as asas. Um novo mundo é aberto para você diferente de tudo aquilo que as pessoas ao seu redor experimentam. Então a possibilidade de voltar a ser como “as demais pessoas na rua” amedronta. O medo de voltar a ter a mobilidade básica dos seres humanos ao nosso redor (que hoje alguns nem se quer sabem mais o que significa “correr”) assusta. O que teria causado seria os altos índices de morbidez e de sedentarismo explícitos pela mídia dia a dia. O ser humano tem perdido o seu potencial motor de geração a geração. Eu não quero contribuir com a involução da minha espécie.

9.      Quais as consequências desses medos? No que eles te impedem e no que eles te impulsionam?

Com o Parkour aprendi que o medo pelo medo é um fator paralisante. Ele te prende a uma condição mental que se não administrada te fará desistir e se frustrar. Então aos poucos você entende que o medo é somente uma ferramenta de bom senso, criada por suas convicções, e que ela está ali para te ajudar a pensar e não para te impedir de agir. Hoje aprendi a transformar o meu medo em energia de ação. Se tenho medo, tenho que descobrir porque tenho medo e o que posso fazer para diminuí-lo. Meu medo tem fundamento? Se não, vamos adiante. Se sim, qual sua origem? O que posso fazer para criar em mim o necessário para superá-lo? E é isso. O constante diálogo entre o “onde estou” e o “onde eu quero chegar”. Parkour é uma ferramenta absurdamente eficiente para te ensinar a agir.

10.   O que você faz para enfrentar/ como você enfrenta esses medos?

Analiso-os. O Parkour é uma ferramenta de autoconhecimento. Se tenho medo de saltar de um muro para o outro, porque tenho esse medo? De o muro desabar? Analise-o antes. Da minha mão não segurar com firmeza? Fortaleça-a antes. Do meu corpo não suportar o impacto? Torne-se uma muralha de força. A expansão do progresso pessoal, tanto físico como mental, é uma dádiva para aqueles que praticam. É reconfortante compreender que quando você elimina todas as possibilidades de algo dar errado, através do seu trabalho, o medo desaparece sem que você note.

11.  Dessas estratégias, quais você utiliza na vida em geral?

A de fortalecimento constante. Treino até o ponto de ser impossível errar o que estou fazendo e de modo que eu posso confiar completamente e inteiramente nas minhas habilidades e força. Se for preciso me segurar durante 10 segundos em um braço só? Eu o farei. Se for preciso segurar o peso do meu corpo com somente as pernas saltando de 4 metros de altura? Eu conseguirei. Eu treinei para isso. Essa certeza de acerto devido ao treinamento árduo é recompensada com a confiança para não ter medo. Seu corpo é o seu maior aliado quando você tem conhecimento do que é capaz e em que nível físico se encontra.

12.  Seu(s) parceiro(s) de treino tem alguma influência nos seus medos ou no enfrentamento deles?
 
Os meus, pessoalmente, não transmitem os medos deles para mim. Eles já sabem do que sou capaz ou não e da minha linha de pensamento. Então por mais que para eles o que estou prestes a fazer seja um absurdo, eles compreendem que se eu me prontifiquei a fazer é porque é o momento certo e eu já tenho todas as peças do meu quebra-cabeça resolvidas. Por outro lado, mesmo tendo confiança no seu treinamento, as vezes a dúvida e o medo te paralisam. Quando isso acontece, as vezes, um amigo que te conhece, por estar ali ao seu lado e ter ciência de que você treinou já o suficiente, ajuda muito. O incentivo é fortalecido quando se passa por problemas juntos e os resolve juntos. Ganha-se uma nova energia.

13.  Quando você decide executar (ou tentar) o movimento, você o faz por acreditar estar preparado ou por saber que é possível fazê-lo?
 
Faço porque ESTOU preparado e é possível EU fazê-lo. Nem sempre o que é possível é alcançado por qualquer um. Cada ser humano é individual e com características próprias. O que posso compreender é que: se é possível, eu posso treinar e conseguir. Aquele que usa o argumento de que “é possível”, para se arriscar sem ter maiores incentivos para isso, é um imbecil. Coloca sua saúde em risco por querer satisfazer o ego.

14.  Geralmente, você se machuca por medo de executar o movimento ou por falta de técnica?  
Nenhum dos dois. O praticante de Parkour deve treinar para não se machucar. Nunca. Quando isso acontece, no geral, não é por erro de execução em si ou por falta de técnica, mas sim por falta de atenção e foco ao que se faz. As movimentações que realizo ao me machucar já foram repetidas “em treinamento” por centenas e milhares de vezes. O que mudou e me fez cair ou me machucar foi o meu estado mental e equilíbrio psíquico.

15.  Qual a importância do medo no Parkour?

Essencial. Sem o medo seríamos incapazes de calcular onde nossas falhas se encontram e onde temos que trabalhar para melhorar. Além disso, não existem super-heróis. Haverá movimentações que é simplesmente impossível de se realizar. O impossível existe. Não é uma questão de opinião.  Não adianta acreditar em positivismos, fortalecer a perna e encarar uma aterrissagem saltando do décimo andar para o asfalto. Isso é impossível de se ter um sucesso; você pode treinar o quanto você quiser. É uma impossibilidade física e humana. Conviva com isso. O medo é o sustentáculo da sua razão: até onde você pode ir com a condição que tem? O importante é somente não se deixar mesurar por ele.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Vovó, Por Favor, Durma.





“Você viu as galinhas do tanque de minha vó Jovina?”.


Eu queria ter visto e saber do que a senhora esta falando. Nesse momento em que sou somente eu e a senhora, em um quarto escuro, eu baixo minha cabeça e me permito rezar um pouquinho porque sei que a noite será bem longa. É uma provação?

Acenda esse candeeiro aí pra você não morrer de frio. Ele te esquenta.”

Eu não preciso de calor ou iluminação. Eu tento todo dia ficar mais forte e embora eu ainda não tenha chegado lá, eu já tenho muita energia. Eu queria muito dividi-la com a senhora agora. Sei lá, eu devo ter o quê? 5 ou 10 vezes mais do que o meu corpo precisa para continuar funcionando de forma normal? A reserva da senhora parece já estar no fim. Se pudesse com meu amor repartir esse poder: eu seria um candeeiro para esquentar a sua mente e clarear essa nuvem de confusão. A senhora iria perceber que eu estou aqui do seu lado. Mas não posso. No momento só espero paciente o dia nascer e sua debilidade acabar.

“Vamos lá espiar o que os meninos estão fazendo? Será meu deus que os meninos estão se comportando?”

Agora já é 02h30min da manhã. Eu posso ficar sem dormir, mas a senhora não. Durma, por favor. Pare de conversar com quem não esta aqui e de reviver histórias de outros tempos. Seus meninos já estão grandes e adultos: cada um em sua casa e com sua própria família. Durma que vai te fazer bem. Não se agite demais se não sua pressão sobe ou a sua glicose desce. Não! Não tente descer da cama! Eu não vou deixar! Pode reclamar que eu não vou obedecer a suas ordens!

"Você sabe onde está Elias? Será que ele está em Aquidabã?"

Eu também sinto a falta dele, mas ele não esta mais com a gente já faz muitos anos. Porque eu não herdei toda grandiosidade deste homem? Ele sempre te compreendeu e soube como te agradar em todos os momentos difíceis da sua vida. Mas eu não sei mais o que posso fazer além de ficar aqui do lado da senhora. Espero que ele esteja do meu lado neste momento também, me passando de longe energia para te ajudar. Ele sempre te amou tanto e eu a ele e a senhora. Às vezes queria que a senhora dormisse e não acordasse mais... Sua tarefa já foi cumprida e a senhora não tem maiores feitos a realizar. Se a senhora dormisse eternamente...  Elias te abraçaria de novo e a senhora estaria em paz e mais feliz do que nunca... 87 anos já é muito... Talvez eu esteja pecando e cometendo uma falta grave em pensar essas coisas, que Deus me perdoe e que a senhora me desculpe.

"E eu nem sei se mãe checou a proteção das galinhas? Amanhã vai tá tudo morta."

Já deu 4 horas e daqui a pouco outras galinhas e galos irão começar a cantar. As que a senhora fala pertence a um tempo distante e que não existe mais. Mas como fazê-la se libertar dele e voltar à realidade? Não são as galinhas que estão morrendo, mas sim a mente da senhora. A senhora desistiu de viver e se entregou a desintegração do seu corpo. Me dói muito vivenciar isso e ficar impassível enquanto a velhice come seus músculos e sua vitalidade.

"Não está com dor de estômago não? Se tiver, pega aqueles frangos, dá um jeitinho e come com galinha assada."

Não é desse alimento que eu preciso, droga! Meu estômago só dói pela impotência de não poder fazer nada. Aqui! Chegue! Vou deitar no colo e segurar a mão da senhora. Eu sei que quem deveria te confortar era eu, mas agora sou eu quem está precisando.

"Você sabe se Ziza está dormindo? Mas eles tem chegado na casa de Tia Mariquinha, né?"

Sim, sim. Ziza, onde quer que esteja e quem quer que seja, já deve estar dormindo porque o dia nasce daqui a pouco. A senhora deveria tentar dormir também. Por favor Deus, faça-a dormir!  Eu não vou sair daqui. Velarei o sono. Eu sempre penso muito na felicidade e em como ela se manifesta e agora me pergunto se a senhora ainda é feliz...  Será que a minha mãe passará por isso também? Então eu não posso deixar que ela sacrifique mais uma noite enquanto eu estou em casa, sou mais forte e posso fazer isso. Ah caramba...  Não é justo, mas infelizmente eu vou ter que acordá-la: “Mãe? Mãe? Ela quer ir pro banheiro.” - “Mãe? Mãe? Vá dormir eu fico”.

"Tio Janjão morreu? ..."

Enfim a senhora esta se acalmando e parando de falar. Obrigado Deus. É com felicidade que vejo a senhora fechar os olhos. Que assim permaneça. Boa noite, vó! E durma bem. Amanhã a gente acorda de novo e continuaremos vivendo.