quinta-feira, 16 de junho de 2016

Não. Parkour não é um esporte. E agora você vai entender o porquê.


Todo praticante já foi obrigado a responder essa pergunta. Todo bom jornalista ao fazer sua pesquisa não deve ter chegado a uma sólida conclusão. Apesar de bastante debatido, as próprias pessoas mais interessadas no assunto nunca tiveram uma boa base sobre o problema. Então, eu te convido a mergulhar comigo de cabeça no assunto e não gaguejar mais quando alguém fizer essa pergunta pra você.

Parkour é um esporte?


A primeira resposta que você dever ter em mente é:

"Não. Parkour não é."

E para dizer que alguma coisa não é alguma coisa, o mínimo necessário é que você saiba sobre o que você esta falando (se não, você será apenas um papagaio). Dentro da Educação Física existem 3 mundos principais onde normalmente costumamos passear:

MUNDO 1 - ATIVIDADE FÍSICA













Esse termo se refere a tudo aquilo que fazemos voluntariamente (ou seja, porque a gente quer fazer) e que faça com que se gaste mais caloria do que se você tivesse ficado quieto no seu canto. Por exemplo: lavar os pratos, correr pra pegar o ônibus, andar de bicicleta... Tudo isso consome sua energia com a pura intenção de produzir uma ação.


MUNDO 2 - EXERCÍCIO FÍSICO












Semelhante a atividade física, o exercício também consome energia. A diferença entre eles é que além de ser uma ação voluntária, o exercício físico tem a intenção clara de se melhorar alguma característica física sua. Por exemplo: Fazer série de barras (melhora sua força), fazer tiros de 100 m (melhora sua velocidade), andar de bicicleta (melhora sua resistência)... Como deu pra notar, a função dos exercícios físicos está normalmente conectada com a manutenção da saúde. Você faz para melhorar algo.

"Ué, mas você colocou andar de bicicleta duas vezes?"

Sim. Coloquei. E é aqui que vem o pulo do gato. Andar de bicicleta uma vez na vida, ou só pra ir com ela na padaria e voltar, não é um exercício físico. Você não esta querendo melhorar nada. É uma ação voluntária única. Para algo ser considerado um exercício, além do gasto de energia, devemos observar alguns fatores como: freqüência de realização definida (ex: 3 vezes por semana), o volume desse exercício (ex: pedalar em cada treino 2 km) e a intensidade desse exercício (ex: pedalar na velocidade máxima ou de leve, se vai ter descanso no trajeto ou não)...













Quando você realiza um plano de trabalho que englobe FREQUÊNCIA-VOLUME-INTENSIDADE você estabelece o que chamamos de TREINAMENTO. Você esta em treinamento quando essas  três variáveis são manipuladas para que em curto, médio ou longo prazo, você consiga atingir seus objetivos.

Nota do autor: Se você é uma pessoa esperta já deve ter entendido que você pode, por exemplo, praticar exercícios físicos e não necessariamente estar seguindo algum treinamento; e que todo exercício físico é uma atividade física, mas o contrário não é verdade.

E também já deve ter sacado que encontramos as primeiras definições que podemos dar ao Parkour: Ele é uma atividade física (porque gasta energia), que contém vários exercícios físicos (que são executados todo treino com várias repetições), e ele pode ser um treinamento, desde que você execute de forma regular, perseguindo um objetivo e modificando o estímulo.

MUNDO 3 - ESPORTE















“Esporte é uma atividade competitiva institucionalizada que envolve esforço físico vigoroso ou o uso de habilidades motoras relativamente complexas, por indivíduos, cuja participação é motivada por uma combinação de fatores intrínsecos e extrínsecos”. (Barbanti, 2006).

Se você conhece o mínimo sobre Parkour já deve ter sacado alguns dos motivos para que ele não seja classificado como um esporte. Mas ainda assim eu vou me aprofundar um pouco sobre eles com você.

Os instrumentos de institucionalização de um esporte são os seguintes:

1 – As regras da atividade são padronizadas.


Ou seja, tudo que você realiza dentro da atividade tem que estar de acordo com o manual de regras estabelecido. Se Parkour um dia se tornar um esporte, poderá haver uma maneira correta de se posicionar os pés na precisão, as mãos no kong e caso você não bata o pé na parede do jeito correto para subir o muro, você será despontuado e infringirá uma regra. Tudo será tabelado e um código de pontuação estará vinculado a atividade (como por exemplo, na ginástica artística).

No Parkour: Ocorre o respeito a individualidade de movimentação. A forma como você faz o seu monkey, pode não ser legal para mim. A técnica que você usa pra subir o muro não é enfiada na goela abaixo de ninguém: se ela não servir pra mim, eu apenas descarto. Fora isso, nada que eu faço é feito porque eu sou obrigado a fazer. No Parkour não existe uma forma geral, existe o deslocamento. Contanto que você seja capaz de executar o seu com eficiência, ninguém tem nada a ver com isso. Sem árbitros. Sem regras. Sem notas. Livre.

 

2 – O cumprimento das regras é feito por entidades oficiais.


As regras não nasceram sozinhas. Existe uma comissão esportiva que se reúne, as define, institucionaliza e então todos devem seguir. Normalmente essa comissão cria orgãos que fiscalizam o cumprimento dessas regras. Por exemplo, no mundo, quem determina como se joga futebol é a FIFA, que no Brasil tem sua força assegurada pela CBF e que no seu estado tem a sua Federação Local. Os 3 órgãos são os responsáveis para que o esporte futebol seja o mesmo praticado dentro das regras, onde quer que esteja.

No Parkour: A representatividade mais oficial que o Parkour tem é a de associações. Normalmente, criadas pelos próprios praticantes e com única intenção de promover a atividade em seu estado. Não há interesse de que todos pratiquem da mesma maneira e nem que regras sejam criadas em cima disso. Caso isso um dia seja feito, todos irão fazer tudo da mesma maneira e entrará em extinção no Parkour a capacidade pessoal de se adaptar aos obstáculos de acordo com suas características físicas, estado de saúde e vontade.
  

3 – Os aspectos técnicos e organizacionais da atividade se tornam importantes.


Uma vez que quando se tem uma competição normalmente as pessoas querem ganhar, é daí que nascem as grandes tecnologias associadas ao esporte, as técnicas de treinamento e o surgimento das táticas e estratégias. Desde que você esteja dentro das regras, vale tudo para que sua equipe (ou atleta) tenha o melhor desempenho naquilo que estiver fazendo.

No Parkour: Você não precisa de uma roupa especifica, nem tênis e nem local. Você não tem um conjunto de regras a seguir e nem alguém ou um orgão que irá diretamente cobrar pelo seu desempenho. Não se machucar é, talvez, a única coisa que você terá em mente enquanto treina. O restante é mero e bobo detalhe.

 

4 – A aprendizagem das habilidades esportivas se torna mais formalizada.


Existe uma progressão no treinamento e pessoas especialistas em te ensinar isso. Nascem os técnicos e os treinadores e as categorias no esporte. Eles irão conduzir o aprendizado do atleta (ou do time) para que eles alcancem o melhor resultado dentro da atividade, normalmente definindo os resultados por idade.

No Parkour: A figura do técnico é dispensada, assim como a do professor/treinador. Embora seja muito legal ter um praticante mais experiente te dando dicas, isso não é essencial para que você desenvolva sua movimentação. Você pode criar sua própria maneira, e desde que ela funcione pra você, você não deve satisfação para mais ninguém.

Agora você pode estar se perguntando: "Puxa, realmente por esse ponto de vista, não tem como dizer que Parkour é um esporte. Mas será que não existem outros?". E a resposta é sim, eles existem. Mas eles são mutáveis. Do século XIX pra cá, o Brasil evoluiu o conceito de esporte e cada fase interpretou ele de uma forma. Por isso há ainda tanta confusão sobre o tema. Porém, os documentos mais recentes (e as próprias ações do governo e o entendimento da Educação Física) separa de forma bastante eficiente o que é um esporte e o que não é.

Nota do Autor: Principalmente isso acontece porque vivemos hoje em dia um capitalismo esportivo deflagrado pelas Olimpíadas: Já percebeu que quando o Brasil ganha uma medalha olímpica em um esporte, na outra semana se cria projetos de incentivo a ele?  Ou então já percebeu que projetos que incentivem esportes em que o Brasil tenha chance olímpica são bem mais aceitos pelos Governos e Secretarias do Estado do que aqueles esportes menos tradicionais? Tente levar dois projetos para a Secretaria do seu estado, um de Esgrima e outro de Futebol, depois me avise qual dos dois foi mais aceito... O esporte competitivo e de alto rendimento é associado diretamente ao lucro: em dinheiro e em medalhas. E aqueles com chance olimpíca são os que mais recebem incentivos.


ENTENDENDO UM POUCO MAIS SOBRE ESPORTE NO BRASIL













Quando chegou ao Brasil, a palavra "Desporto" era utilizada para evidenciar atividades físicas que se associassem ao divertimento, ao jogo ou a saúde. Desporto é uma palavra portuguesa, bem antiga, encontrada em documentos de século XV com o sentido de divertimento/jogo. Por esse motivo, os primeiros órgãos brasileiros possuíam a palavra "Desporto" e não "Esporte" em sua formação:

Em 1916, fundada a Confederação Brasileira de Desportos (CBD).
Em 1939, fundada a Confederação Brasileira de Desportos Universitários.
Em 1962, fundada a Federação Brasileira de Medicina Desportiva.
Em 1978, fundada a Secretaria de Educação Física e Desporto.

Em 1985, a compreensão do que era "desporto" necessitava de alteração, pois o esporte tomava mundialmente dimensões bastante diferentes do contexto de quando chegou ao Brasil. Dessa forma, a Secretaria de Educação Física e Desporto chancelou um documento chamado "UMA NOVA POLÍTICA PARA O DESPORTO BRASILEIRO – Esporte Brasileiro uma Questão de Estado", o qual serviu de base para integrar a Constituição de 1988 e que consta a definição de esporte como:

“O esporte no Brasil, para efeito de legislação, deve ser considerado como atividade predominantemente física, que enfatize o caráter formativo educacional, participativo e competitivo, seja obedecendo a regras pré-estabelecidas ou respeitando normas, respectivamente em condições formais e não formais”.

Ou seja, bem aquilo que eu já citei lá em cima.

Em 1995, o termo foi atualizado e então criado por FHC o Ministério do Esporte. Ele estava incumbido de dar suporte a todas as atividades esportivas e desportivas, assim como a fomentação de tudo aquilo referente ao movimento humano e que pudesse promover melhora na qualidade de vida.

Nota: Por esse motivo que, apesar do Parkour não ser um esporte, é a Secretaria de Esporte do seu estado que tem a responsabilidade de dar suporte a ele. Não a de Cultura, não a de Turismo e não a de Educação. A de Esporte.

Algumas Secretarias Estaduais, como por exemplo a de MG, possuem/possuíam dentro de si, e diferenciados, Departamento Desportivo (cuida de atividades físicas e do lazer) e Departamento Esportivo (cuida dos esportes).

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Se chegou atento comigo até aqui você agora é capaz de compreender que:


"Chutar uma bola" é apenas uma atividade física.
"Realizar 10 chutes ao gol" é um exercício físico.
"Controlar seu progresso no chute ao gol" é um treinamento.
"Jogar pelada no final de semana" é uma brincadeira, jogo, exercício físico.
"Entrar num campo, uniformizado, com 11 jogadores de cada lado, um juiz, 45 minutos de jogo dividido em 2 tempos" é um esporte.

Chutar uma bola não é futebol.
Jogar pelada com os amigos não é futebol.
Futebol é o esporte registrado pela FIFA, padronizado e regulamentado.

Qualquer alteração em qualquer uma das regras (sem o consentimento dos órgãos competentes) já faz com que se torne uma outra coisa totalmente diferente.

E AGORA? SE PARKOUR NÃO É UM ESPORTE O QUE ELE É?


Não é do interesse desse texto caracterizar o que é o Parkour e nem colocar uma pedra final sobre esse assunto. Ao contrário, a intenção é fomentar a pesquisa e mais estudos em cima desse tema. Apesar de não ser a minha intenção categorizar o Parkour, deixo abaixo algumas definições que possuem significado relevante dentro da Educação Física:

Jogo

"Atividade livre, conscientemente tomada como não-séria e exterior à vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de maneira imensa e total. É uma atividade desligada de todo e qualquer interesse material, com a qual não se pode obter qualquer lucro, praticada dentro de limites especiais e temporais próprios, segundo uma certa ordem e certas regras." (HUIZINGA, 1974).

Nota: o sentido de "regra" para Huizinga não deve ser entendido no mesmo sentido de "regra" de um código de pontuação. E sim de direcionamento, uma diretriz básica do que se deve fazer. No caso do Parkour, se movimentar eficientemente no ambiente.

Cultura Corporal

"A fragilidade de recursos biológicos fez com que os seres humanos buscassem suprir as insuficiências com criações que tornassem os movimentos mais eficazes, seja por razões “militares”, relativas ao domínio e uso de espaço, seja por razões econômicas, que dizem respeito às tecnologias de caça, pesca e agricultura, seja por razões religiosas, que tangem aos rituais e festas ou por razões apenas lúdicas. Derivaram daí inúmeros conhecimentos e representações que se transformaram ao longo do tempo, tendo ressignificadas as suas intencionalidades e formas de expressão, e constituem o que se pode chamar de cultura corporal." (PCN - EDUCAÇÃO FÍSICA, 1997)

 

Arte

"Habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional; Capacidade do homem de criar e expressar-se, transmitindo idéias, sensações e sentimentos através da manipulação de materiais e meios diversos". (HOUAISS)
  

Ginástica

"Pode-se entender a ginástica como uma forma particular de exercitação onde, com ou sem uso de aparelhos, abre-se a possibilidade de atividades que provocam valiosas experiências corporais, enriquecedoras da cultura corporal das crianças, em particular, e do homem, em geral. (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 77)


CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

No Brasil, doutor é quem faz doutorado. Você pode chamar seu cardiologista de "doutor" se você quiser. Você pode chamar seu dentista de "doutor" se você quiser. Ou até mesmo você pode chamar seu advogado de "doutor" se quiser. Porém, sua palavra não compra um diploma. Médico, dentista e advogado não são doutores. Doutor é quem tem doutorado. Porém, você não é obrigado a saber disso e nem as pessoas vão morrer do seu lado porque você usa o termo errado para descrever alguém.

Da mesma forma, não há necessidade alguma de discriminar ou preconceituar aquele que chama Parkour de esporte. Talvez pior do que chamar de esporte é dizer que ele não é um esporte e não fazer a mínima ideia do motivo. Se eu ouvir você chamar Parkour de esporte do meu lado, eu não vou cair duro. Eu tô de boa. Simplesmente você nunca tinha parado pra estudar sobre o assunto ou entender as peças que estão no jogo. No mais, vale o bom senso. É legal que quem tenha saiba onde e quando usar.

VALE A PENA PASSAR O OLHO:


Artigo "O que é Esporte?" de Valdir Barbantti:

Artigo " Educação Física: dessemelhança e identidade com o esporte e o jogo" de Mauro Betti:

História do Ministério do Esporte:

Parâmetros Curriculares Nacionais - Educação Física:

Professor Amandio Gerales explica Atividade Física, Exercicio Físico e Esporte:

3 comentários:

Lucas Correa Silva disse...

Boa Duddu, lindo como sempre! <3

Eduardo Bittencourt disse...

Boa Duddu, continue postando... o pk precisa disso, parabéns...

Maruan Nasser disse...

boa Duddu, perfeito e bem enfatizado, vale a pena ler e compartilhar.