domingo, 15 de fevereiro de 2009

Debate do 1º Encontro Paraibano de Parkour


O debate do encontro paraibano de parkour contou com a participação do diretor da Aliança Francesa da Paraíba (que até poucos meses morava na França), Fernando Cunha (Professor de Educação Física da UFPB), Vant (diretor do Grupo Ethnos), tracers das mais variadas regiões da Paraíba, assim como eu (de Aracaju) e o Edi e o Ítalo (ambos de Maceió).

A mesa-redonda teve duração de pouco mais de 2 horas e aconteceu na Associação dos Bancários, João Pessoa/PB. Os assuntos não foram pré-definidos, portanto sempre que algum tópico encontrava-se “concluído” era feita a pergunta “podemos seguir adiante?”.

Segue abaixo as impressões mais importantes que tomei nota (não necessariamente discutidas nessa ordem):

01 - Air Alert 3

O professor Fernando Cunha é especializado em trabalho de preparação com atletas de vôlei e basquete, e, portanto foi questionado sobre o famoso programa de treinamento que é repassado por dentre os praticantes. O resultado obtido na discussão foi de que o programa da NBA não faz milagre. É um sistema utilizado por atletas de alto rendimento que passaram desde a adolescência por um treinamento de elite, e, portanto, possuem as fibras musculares e tendões mais desenvolvidos para se submeter ao programa. O máximo que pode ser utilizado pelos tracers são as idéias de exercícios e a padronização de rotinas.

02 - CREF / Universidades

O professor Fernando Cunha é militante de um movimento anti-CREF e ressaltou que futuramente os praticantes de parkour que se encarregarem de ministrar aulas pagas poderão sofrer com a repressão do órgão (assim como aconteceu com os mestres de capoeira e os professores de dança). Iniciativas como os workshops do PKGEN, e o ADAPT, podem ser passíveis de caça as bruxas no Brasil. O professor assegurou que assim como os mestres de capoeira, os praticantes que futuramente ingressarem no ramo de “dar aulas” podem alegar o tempo de prática como “formação” e lutar judicialmente (se chegar a esse extremo) para continuar a lecionar.

03 - Abordagem ao iniciante

Ficou de comum acordo que não existe uma fórmula mágica para abordar o iniciante. Cada ser humano é individual e terá suas dificuldades e facilidades. Como o contato primário do iniciante é, normalmente, com um outro praticante, o melhor a ser feito é orientá-lo para que ele perca a visão de que parkour é o que ele viu no filme/televisão/vídeo e que ele aprenda a enxergar o que precisa fazer com seu corpo para conseguir se movimentar livremente (perder peso, ganhar resistência respiratória, força de abdômen...).

04 - Associação / Organização

A Paraíba está na iminência de criar a Associação Paraibana de Parkour, então a discussão sobre o tópico foi grande. Criar uma associação demanda muito gasto, quebra de cabeça, conhecimento jurídico e empenho em troca de (a principio) pouco retorno. No caso da Paraíba, eles já tiveram como receber apoio governamental e foram barrados por não possuírem um CNPJ. Então, para eles, a necessidade da associação é maior. Porém, para os grupos e estados que não tem tantos contatos em prefeituras e órgãos (Vant, que é um dos coordenadores do parkour em PB, por liderar a “cultura de rua” da cidade, conhece toda sorte de incentivos públicos) chegamos à conclusão de que é melhor nos organizarmos localmente, em iniciativas pequenas e um dia, se necessário também, evoluir para algo imenso como uma associação.

05 - Aliança Francesa

Vant conseguiu o apoio da AF de João Pessoa (cessão de camisas) e o diretor dela (presente no debate) levantou alguns pontos sobre o assunto. A AF não é somente um curso de francês no Brasil. Ela tem interesse voltado para toda manifestação francesa no país e está presente em quase todos os estados brasileiros. O diretor, inclusive, encorajou a mim e ao Edi a buscar as alianças francesas de nossos estados, pois elas normalmente apóiam com facilidade esse tipo de eventos. Existe uma comissão julgadora de onde a verba de patrocínio da aliança será utilizada, mas desde que o pedido de apoio seja feito com antecedência ao evento, a chance de sucesso é grande. Ele disse ainda que futuramente encontros de parkour podem se tornar encontro de alianças (e facilitado pela ação conjunta delas) e que até a vinda de alguma “autoridade francesa” para engrandecer o evento pode ser arranjada com maior facilidade.

06 - VO2Max

Como o professor foi avisado com antecedência sobre o debate, ele buscou informações e a ver vídeos sobre o parkour. A análise dele foi de que o parkour (como deveria ser treinado) é uma atividade altamente aeróbica (foco na resistência) com seus momentos distintos de trabalho anaeróbico (foco na explosão muscular). Então ele salientou a necessidade de nós, praticantes, aumentarmos o Vo2max constantemente. VO2max é a taxa máxima que o organismo de um indivíduo tem de captar e utilizar o oxigênio do ar que está inspirando para gerar trabalho. Quando questionamos como isso pode ser melhorado, ele respondeu que através de corridas com percursos determinados e com o aumento gradativo destes. O ritmo de corrida também influencia diretamente nessa taxa porque quanto mais seu corpo trabalha sem parar, mais oxigênio você precisa respirar para supri-lo. O resultado dessa discussão foi que hoje em dia a maioria dos treinos dos praticantes são voltados para a movimentação em si (manobras com trabalho, principalmente, anaeróbico) e a parte da corrida é, muitas vezes, negligenciada. O ideal é que um tipo de treino jamais substitua o outro.

07 - Ramificações oriundas do parkour (Puro, Estético e Competições)

Assim como todo esporte ou atividade que compõe a chamada “cultura de rua”, inúmeras variantes surgirão com a o parkour disseminado a cada dia mais. Cada cabeça funciona de uma forma e busca um objetivo diferente. O cenário paraibano não é dominado por tricksters e free-runners, então o conceito de “parkour puro” é aceito com facilidade por lá. Estendamos a conversa para o cenário mundial e nacional para definirmos o que a propagação de cada idéia reflete no cenário da prática. O resultado obtido foi que “existe espaço para todos”. O que falta é cada nova vertente saber limitar-se ao seu espaço e não tomar posse do espaço do semelhante. Assim como o futebol de areia não participa da regulamentação do futebol de campo, cada “nova disciplina” deve buscar sua firmação sem apoiar-se ou atrapalhar a disseminação da outra. Do contrário, se as novas disciplinas não aprenderem a respeitar que, o que se faz é diferente do que o parkour em si prega, os puristas irão continuar a falar e a gerar discussões em defesa do parkour puro. A definição de parkour no debate ficou clara: objetividade, fluência e livre movimentação corporal com o propósito de ser o mais rápido e prático possível. Qualquer coisa pregada de modo a ferir esse conceito deveria ser chamada por outro nome.

A discussão sobre competição praticamente não existiu pela unanimidade de opinião: não é o foco do parkour, nunca será, e se alguém criar algo do tipo, deixou de ser parkour.

08 - Parkour em Lisses

O diretor da aliança francesa visitou Lisses na época em que o parkour surgia e deu umas palavrinhas de como isso se sucedeu. Disse que as crianças não tinham opção de diversão, a cidade era muito parada e os jovens facilmente ingressavam na marginalidade. A atitude dos fundadores do parkour foi de levar para aquela comunidade algo que eles poderiam fazer sem precisarem de um espaço construído pra eles, um apoio governamental ou mesmo aprovação dos pais. Comentou ainda que o parkour nasceu de forma espontânea para dar liberdade e aliviar a atmosfera “cinza” e monótona que cercava os jovens de Lisses.

09 - Necessidade de Intercâmbio

Ficou definido como algo imprescindível para a propagação do parkour e a própria melhora individual. O próprio pessoal da Paraíba se impressionou com a “cara nova” que os visitantes deram aos seus locais de treino e com as diferenças sutis de foco durante os treinos. A troca não acontece de um lado somente e da mesma forma, os visitantes puderam aprender com a forma de treino paraibano. O resultado foi tão satisfatório que, Eu, o Edi e o Ítalo conseguimos meio que arrastar alguns praticantes do Paraibano para o Nordestino.

Conversamos também sobre o crescimento que esses intercâmbios provocaram no parkour nordestino nos últimos dois anos e que a tendência é que eles aconteçam cada vez com mais freqüência.

10 - Impactos e Equipamentos de segurança

Reafirmamos a necessidade do tracer depender cada vez menos de suportes e equipamentos para se locomover e então o professor da UFPB levantou uma discussão sobre se não era negligência dos praticantes fazer descaso do uso de aparelhagem de proteção individual. Vários praticantes manifestaram opinião que iam desde o uso de cutuveleiras aos tênis da moda com amortecimentos exagerados. O resultado atingido foi de que o parkour necessitaria de proteção individual se os riscos oferecidos ao iniciante fossem os mesmos que são apresentados aos veteranos. Como o desenvolvimento físico e mental é gradativo e o processo de descoberta do parkour por parte do iniciante deveria ser constante e consciente (e essa consciência deve ser implanta no iniciante pelos veteranos), o uso de equipamentos passa a ser desnecessário. Um iniciante não deveria precisar de proteção individual contra impactos (por exemplo) justamente por não precisar se colocar em situações em que a gravidade dos impactos aponte para uma proteção auxiliar. O fortalecimento dia após dia, e o ganho de atenção meticulosa é que deve substituir qualquer apetrecho.

11 – Alongamentos e Aquecimento

Muita gente no evento tinha dúvidas sobre a eficácia de alongamentos, aquecimentos e se havia necessidade real de fazê-los antes dos treinos. O professor explicou que somente o fato de você provocar um estimulo ao seu corpo já faz com que seu cérebro se prepare pros exercícios que virão. O sistema muscular é ativado e descargas energéticas são disparadas internamente. O aquecimento, principalmente, serve pra aumentar a irrigação de sangue no músculo (pois esse vai precisar de toda fonte de oxigênio disponível) e o alongamento, principalmente, lubrifica as articulações (que serão prejudicadas se estiverem secas ao receber os impactos). Fora isso, o alongamento estende o músculo para que as fibras se desentrelacem, e não provoque danos com o rigor das contrações. Algumas pessoas argumentaram que leram em textos que alguns estudos mostraram diminuição na performance muscular após alongamento durante o treino. O professor disse que existe uma corrente em estudo dessa teoria, mas que ela se restringe a somente diferenciar os benefícios e prejuízos de se treinar alongamentos estáticos sem aquecimento prévio, e vice-versa. O resultado da conversa é que é imprescindível alongamento e aquecimento antes dos treinos para evitar lesões e ter um aproveitamento muscular assegurado.

12 - Percursos Planejados / Percursos Programados

Esse debate foi realizado logo após traçarmos o que consideramos ser parkour. Os praticantes foram questionados até qual ponto seus treinos são “de parkour” e quando eles passam a se tornar “para o parkour”. Após diversas opiniões, concluímos que a grande maioria dos praticantes treina “para o parkour’. Esses treinos, em sua maioria, são de repetição, tentativa e erro, análises de técnicas e percursos pré-estabelecidos. O parkour em si lidaria com uma situação de deslocamento real e natural, com direito a terrenos diferentes, situações inusitadas e onde a única garantia do praticante seria a habilidade de moldar sua movimentação aos obstáculos que surgissem.

5 comentários:

Jean disse...

Parabens pelo debate, pela memória e pela paciência.. Pelamor!

Pipolo disse...

Caramba Duddu,quanta coisa legal foi discutida heim! Oo

gostei muito do que foi dito,obrigado por compartilhar isso,acho que vai ser muito útil!!

^^

Vant disse...

Muito bem, Duddu, você realmente mostra para o que veio, um cara sério, que pratica o Parkour, que vive e respira o Parkour.
Bom, espero que eu também possa contribuir com alguma coisa.
Logo mais teremos novidades, fique ligado.
Grande abraço.
Vant Vaz (Coletivo Tribo Éthnos)
João Pessoa (PB)

Bronze disse...

Muito bom ^^

eu SABIA que o alongamento era importante, eu procurei professor de ed. física que me falou a mesma coisa. O povo lê uma pesquisa e já acha que tá totalmente informado sobre tudo...

RODRIGO disse...

Olá DUDU Eu sou fã desse esporte e quero muito aprender isso mais não sei aonde e q treina Eu sou de aracaju-se preciso de ajuda para encontra um lugar apropriado para esse tipo de coisa Obrigado meu MSN para contato slip_114@hotmail.com


espero por sua ajuda Obrigado...