quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Parkour e o Egoísmo - Episódio I



Às vezes me questiono se o egoísmo é necessariamente algo tão ruim. Há pessoas que não sentem remorso em passar por cima de tudo e de todos para atingir os seus objetivos. E há aquelas que se desprovêem e se privam de prazeres em favor do semelhante. Defesas existem para as duas correntes: filosóficas, psicológicas e até mesmo biológicas. Estou cansado de me deparar com a conclusão de que o instinto humano de auto-satisfação é soberano e que somos todos egoístas por natureza. Não tenho interesse em entrar nessa discussão, mas solucionar a pergunta que me atormenta: “Como achar uma solução racional e coerente quando a falta de egoísmo direcionado prejudica minha satisfação pessoal?”.

Eta bixiga deixa eu dar uma pausa.

A pergunta é no mínimo estranha e eu espero que ela torne-se mais clara nas próximas linhas.

O Parkour aflorou em mim um senso de coletivismo que até então inexistia. Não que eu fosse um super egoísta, mas é que sempre fui meio lobo solitário e o principal responsável pelo sucesso das coisas que me envolvia. Um bom exemplo vem dos meus dias na ginástica olímpica: era comum repassar minhas séries até a exaustão; me fuder até que ela ficasse com o mínimo de falhas. Mas embora eu jamais negasse ajuda aos meus colegas, eu sentia que não tava nem aí pro desenvolvimento deles ou da minha equipe. O que eu queria de verdade era uma nota alta e uma medalha no meu peito ao final da competição.

Um proposito fixo e meios para executa-lo. Nota 10 em coerência!

Mas então entrou na minha vida essa peste de disciplina francesa e deu um sacolejão no meu senso individualista. Além do desafio de re-educar meu corpo para um novo propósito, o Parkour fez nascer em mim algo que eu pensava que Deus tinha esquecido me dar: A responsabilidade e o comprometimento de fazer parte da construção de algo que é mais importante que o meu umbigo.

Nos primeiros meses eu parecia um camelo do Saara diante de um galão de água de 10 litros: quase me afogo sugando o máximo de Parkour que as pessoas ao meu lado podiam oferecer. As lições as vezes demoram a chegar. O passar do tempo me fez descobrir que aquela sensação de ser a pessoa mais feliz do mundo que eu vivenciava ao subir muros e pular bancos, era também reproduzida quando eu ajudava um iniciante, traduzia algum texto, legendava um vídeo ou simplesmente explicava pra alguém o que era aquela coisa que eu tanto gostava.

Com a compreensão de mundo que tinha na época... isso é coisa de retardado!

Quem é que se sente feliz passando 36 horas na frente de um computador legendando um diabo de documentário que já tinha entendido de cabo a rabo? E realmente deve ser bem divertido usar as poucas horas de lazer que se tem na semana para realizar um cabrunco de treino fixo onde aparecem 1 ou 2 iniciantes e você fica que nem um retardado ensinando a criatura a ANDAR de forma coordenada. Puta merda! Tem umas peças-raras que quando vai no primeiro treino não consegue nem isso! E eu lá: “Vai... tenta! Você consegue! Braço direito! Perna esquerda! Respira!”.

Apesar de parecer fugir a "minha lógica", isso é (e deveria ser com mais frequência) normal dentro do Parkour. Existe um monte de gente lá fora que se sente da mesma forma: se doam, se preocupam e se propõe a ajudar “estranhos”.

Na tentativa de compreender racionalmente o porquê da minha mudança, eu atribuí o fato à condição de “não quero ser mais egoísta”. Não que eu esteja sendo severo demais comigo e retirando os meus méritos. Mas é que consigo lidar melhor com esse tipo de situação quando não me enxergo como um cara bonzinho, e sim alguém que esta pagando por um serviço. Criei a fantasia de que o Parkour é aquele desconhecido que fez um bem pra mim e eu tenho a obrigação de retribuir. Assim mesmo. De forma fria, crua e calculista. A paranóia chega ao ponto de eu me sentir um filho da puta mal agradecido quando só sugo coisas boas da atividade e não devolvo nada de útil pra ela. Inclusive, hoje, eu acho essa “troca de favor” essencial para o crescimento da prática. Afinal, se não fosse pelo interesse e dedicação dos que vieram antes de mim, não existiria um duddu-tracer pra digitar besteira nesse espaço.

Acabei me estendendo mais do que pretendia e não tocando na raiz do meu problema:

“Como achar uma solução racional e coerente quando a falta de egoísmo direcionado prejudica minha satisfação pessoal?”.

Acabou o expediente no trampo e eu tenho que ir pra casa. Ao menos consegui deixar aí em cima a contextualização do meu "problema" e espero que na segunda postagem dessa blog-novela eu consiga concluir minha idéia e mostrar o que de fato esta me incomodando.

17 comentários:

Jean disse...

COMPREENÇÃO Duddu? mesmo? :(

Duddu Rocha disse...

Bicho... nem no meu blog você me deixa ser feliz... (mas saiba que essa palavra encontra-se escrita com "ç" em alguns dicionários... sim... eu googlei pra saber isso).

Israel disse...

Gostei do texto.

Vitor disse...

otimo, espero pela segunda parte do texto.

Anônimo disse...

Cara eu nunca imaginei um duddu egoísta... mesmo no amiguense quando tu tava estressado tu ainda me ajudou a escolher onde seria melhor almoçar (lanchar)...
Achei estranho o texto ter sido escrito por tu...
espero a 2ª parte...

Adriano (pop) disse...

duddu só deixará de ser egoísta, quando abrir os dvds raros da disney
pra gente assistir ^^

Getexiz disse...

Pop tem razão!
rsrsrs...
Mas eu acho que entendo seu ponto de vista.
E creio que a resposta para a sua duvida seja "equilíbrio".
No momento que ajudamos aos outros e e ainda sim sentimos mal,é neste momento que acho que deva parar e pensar/refletir sobre.
Uma coisa que percebo no Parkour que este coletivismo aflora em alguns mas não em todos, e justamente nisso que me revolta um pouco. Se todos ajudassem...

Duddu Rocha disse...

HAHAHA! Ainda não me acostumei direito com o fato de que meus amigos lêem o blog. Dá até um medinho saber que eles tão "vigiando" o que se passa por minha cabeça.

Mas verdade seja dita... Essa "transformação" que o Parkour fez em mim foi uma das mais gritantes. E o convivio no Ibyanga (sobretudo a "invasão controlada de espaço" que temos um com o outro) foi decisivo tambem nessa mudança.

Desde pequeno sou dono do "meu mundo" onde meus valores e satisfação é o que importa. Na adolescência sempre fui uma pessoa extremamente legal, brincalhona e fácil de lidar aos olhos dos de fora. Mas nunca fui idiota de não perceber o que penso das pessoas a minha volta e a forma como me sinto.

O Parkour tem me ensinado a lidar com tudo isso e a aceitar com normalidade coisas que antes eram dificeis. Pra ter ideia "me desculpa" era uma frase que quase nunca saia da minha boca.

O ponto tocado pelo Fred é excelente! O Parkour desperta o senso de coletivo somente em alguns. Eu atribuo isso completamente ao egoismo. Sair do individualismo requer muitas vezes sacrificio, e poucos estão dispostos a se sacrificar.

O que é uma pena... pois se cada um fizesse, ao menos sua parte, não só no Parkour, mas o mundo seria mais legal de se viver.

Leandro Ludwig disse...

Aqui em Blumenau inumeras vezes me vi diante de duas opções: ir treinar ou ajudar a desenvolver o parkour aqui na cidade. E assim como você muitas vezes o bem comum falou mais alto que minha satisfação pessoal.
Depois de me questionar muito, eu decidi adotar a idéia de que tudo o que eu faço eu faço para mim. Treino para mim, ajudo a desenvolver o parkour na minha cidade para mim poder praticar tranquilo, e se ajudo um iniciante é para futuramente ele estar do meu lado me ajudando e me incentivando.
Me tornei um egoista declarado, e acredito que todos deveriam ser. Mas não aqueles egoistas burros, que querem tudo para eles e nada para os outros. Nós devemos saber usar nosso egoismo, de forma que nossas realizações pessoais andem lado a lado com o bem comum.

Não sei se falei besteira, mas é meu atual pensamento a respeito desse tema.
Aguardo a segunda parte para refletir mais sobre o assunto.

Luiz Gustavo disse...

eita porra...

mto bom Dudu! parabens pelo texto...

o positivismo despertado pelo contato com o Parkour deixa muito clara a influencia que ele sofreu nesta formatação filosofica "pós-saida da França", passando por Hebert e Rousseau.

o que causa o estranhamento é que nossa época é outra e esse positivismo do inicio do seculo XX não encontra familiaridade no espaço social atual, ainda mais na atribulada vida dos jovens, onde a pressão por sucesso profissional e social são baseadas no "sucesso" material individual, daí a dificuldade em perceber naturalidade nas atitudes de altruismo e coletividade despertadas e cultivadas por intermédio do Parkour.

vou esperar a segunda parte pra escrever minha proposta de solução ;)

abraços retirante pensante!

Uilian disse...

Muito bom.
"Um proposito fixo e meios para executa-lo." hauehauehau, isso está muito pequeno seu merda!

Ícaro Iasbeck disse...

eita, muito bom!

Escora disse...

E isso ai Du ser malvado é ruim...
O Escorinha aque esta lutando para ser o mais bondoso amigo de todos ^^
uahauhauhauahuha

diogenes disse...

vc escreve de mais ¬¬

Duddu Rocha disse...

Diogenes, acho que não sou eu que escrevo muito... é você que não gosta de ler.

Em todo caso eu preciso de cada palavra que foi escrita ali em cima para poder transmitir o que realmente passa na minha cabeça.

É uma pena que talvez isso incomode alguns, mas é algo de que eu preciso e não posso abrir mão.

Abração.

Sílvia Regina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sílvia Regina disse...

to tentando escrever, mas ta saindo com o nome de outra pessoa, e to sem tempo pra resolver o problema....

rapaiz, tu escreve demais (2)
kkk
mas tu ta no teu blog, entao tem q fala muito mesmo.
ps: nao tive paciencia de ler todo o texto, mas algum dia eu consigo:D

icaro marley